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Plinia edulis, cambucazeiro

 

plinia edulis, cambucá, myrtaceae

O cambucazeiro é considerada uma das frutas mais deliciosas do Brasil. E, apesar disso, é também umas das frutas que, devido a expansão urbana, tem se tornado cada vez mais rara nos nossos quintais.

Dados Botânicos

Nome CientíficoPlinia edulis (Vell.) Sobral, Bol. Mus. Bot. Munic. 63: 2 (1985).

Sin.: Marlierea Edulis; Rubachia glomerata O. Berg; 

Nome popular: Cambucazeiro, cambucá, cambucá-verdadeiro;

Família: Myrtaceae;

Ocorrência: Brasil.

Ciclo de vida: Perene;

Luminosidade: Pleno sol e Meia-sombra;

Irrigação: regular, 2 a 3 vezes por semana, o solo deve ser mantido úmido, sem encharcar;

Clima: Tropical e Subtropical.

Floração: Primavera e verão, principalmente.

Dificuldade: Baixa.

Se a família das Myrtaceae (que incluí a conhecidíssima e polêmica goiaba, Psidium guajava, e a deliciosa jabuticaba, Plinia trunciflora, além também o gênero Eucalyptus) é uma das mais pródigas em árvores frutíferas nas Américas, a fruta produzida pelo cambucazeiro bem poderia ser considerada a rainha entre as rainhas. Poderia, não fosse seu misterioso desaparecimento dos quintais e pomares, especialmente os urbanos, já desde a metade do século passado.

Árvore frondosa, com caule exuberante, cuja descamação lhe empresta um aspecto marmóreo, expondo colorações que variam do verde ao vermelho, passando pelo cinza e cor de terra, pode ser utilizada na ornamentação de jardins domésticos tanto quanto no paisagismo de praças e parques. 

plinia edulis, cambucazeiro

Flor do cambucazeiro. Normalmente, aparecem duas flores agrupadas junto ao caule.

Trata-se de uma árvore perenifólia, com estatura média de 8-10 metros de altura, crescimento lento e bastante longeva, podendo alcançar mais de 80 anos ainda produzindo muitos frutos. As folhas dispõem-se opostas ao longo do pecíolo (extremidade que liga os ramos arbóreos às folhas), em um conjunto de 6-8 folhas.

O fruto é uma baga amarela ou amarelo-alaranjada, achatada nos pólos, não muito maiores do que 7 cm. O que, por sinal, já o coloca entre os maiores na família das Myrtaceae. As sementes, ao contrário das jabuticabas, são fáceis de separar da polpa, translúcida e gelatinosa, que as envolve.

A pele é muito fina e separa-se do interior sucoso por uma camada de casca generosa e muito macia, que é utilizada para fazer compotas. A conserva do cambucá, diz-se, é ainda mais deliciosa do que as pêssego e damasco. Embora, nunca tenha provado essa iguaria feita através da fruta, posso atestar que essa é, sem dúvida nenhuma, uma das melhores frutas que já provei.

Minha descoberta do Cambucazeiro

Para mim, o cambucazeiro constitui um mistério durante anos. Escondido entre as árvores do pomar da casa onde cresci, passou quase desapercebido durante anos, como uma bela e curiosa árvore cujo fruto nunca víamos. Provavelmente, tratava-se de seus primeiros anos de vida, quando a produção ainda é limitada ou inexistente.

Somente muito tempo mais tarde, quando já havia saído da casa de meus pais, foi que dei com um fruto numa visita ao pomar. Abri timidamente a baga amarela, vendo surgir seu interior sucoso, com duas semente bem no centro. O cheiro era bom, e resolvi provar. O sabor era tal que ainda me lembro de pensar: tomara que seja realmente comestível, porque não largo dela até chupar a última gota do líquido que envolve a parte interna da casca.

Recolhi mais alguns frutos e levei para minha família provar. Recebíamos visita, um amigo suíço, então residente no Brasil, acompanhado de outro amigo, também suíço. Estavam todos encantado com a fruta quando, observando a polpa, notei um pequeno bicho, branco, em tudo semelhante ao famoso bicho da goiaba:

“Olha, um bicho da goiaba”, exclamei. Foi o suficiente para que um dos suíços deixasse a fruta de lado. Dei uma risada e continuei comendo, tomando o cambucá das mãos do convidado. 

O misterioso sumiço do cambucá

O nome da fruta e a espécie apenas há pouco tempo vim a conhecer. Porém, já habituado com as histórias de seu desaparecimento dos quintais, me pergunto até hoje se não teria a ver com o asseptismo exagerado das gentes acostumadas com as “maravilhas” do convívio urbano (produtos embalados, livre de bichos indesejados e com muito, mas muito mesmo defensivos químicos agrícolas) um dos, mas não “O”, motivos pelos quais essa fruta, filha de uma árvore majestosa, ter desaparecido dos quintais.

Diz-se por aí que a expansão urbana, a redução dos lotes imobiliários e a verticalização das ocupações humanas é um dos grandes responsáveis pelo repentino desaparecimento da Plinia edulis. Pimentel Gomes [¹], já na década de 1970, testemunhou o fenômeno, em seu livro Fruticultura Brasileira:

É o cambucá uma das melhores frutas da flora brasileira. Outrora, era comuníssimo no Rio de Janeiro. Infelizmente está-se tornando raro. Faz-se mister um fomento ao plantio dos cambucazeiros, com propaganda adequada e venda ou distribuição gratuita de dezenas de mulhares de mudas.

 Eduardo Jardim, do Blog e-jardim, dá mais pistas para o caso:

Para que se tenha uma idéia, basta dizer que durante a construção da rodovia Rio-Teresópolis, as turmas de trabalhadores abatiam centenários (e enormes) cambucazeiros apenas para mais facilmente colherem seus refrescantes frutos! E, assim, as gerações seguintes perderam a referência deste presente que a Mata Atlântica nos deu…

Com efeito, o cambucazeiro não é apenas uma espécie duradoura que continua produzindo bem até uma idade longeva (há relatos de cambucás de mais de oitenta anos que todo ano ficam carregados de frutas). É também uma espécie histórica de nossa Mata Atlântica, encontrado muitas vezes em locais de vegetação primária, sob as condições que, aliás, mais lhe aprazem: encostas úmidas de florestas ombrófilas densas. 

Daí que a preservação do cambucá deve ser tomada como a própria preservação de um pedaço da memória da mata atlântica e, é claro, das gentes que as habitaram. 

Detalhe, fruto, sementes e folhas. Observe a disposição oposta das seis folhas no pecíolo. Fonte: Bananas Raras (ver seção Referências).

Detalhe, fruto, sementes e folhas. Observe a disposição oposta das seis folhas no pecíolo. Fonte: Bananas Raras (ver seção Referências).

A fruta e sua relação com a história do Brasil

Há uma curiosa relação do cambucazeiro com a história do Brasil, narrada em livro pela escritora inglesa Maria Dundas Graham e que foi objeto de um texto de Eduardo Jardim, já citado nesse texto.

Famosa pelos livros de viagem que escreveu no século XIX, Maria Graham aportou ao “acaso” no Brasil em 1823, vinda do Chile com destino a Inglaterra. No país sul-americano, havia estado um ano vivendo por conta própria, após a viuvez a bordo do HMS Doris, navio que era comandado pelo seu marido, George Dundas. 

No Chile, Graham testemunhou o terremoto de 1822 e seus relatos foi objeto de disputa na sociedade de Geologia da Inglaterra, em 1830. A discussão é importante do ponto de vista do estabelecimento da teoria sobre a formação de montanhas de Charles Lyell, cujo livro, Principles of Geology indicava que esse tipo de formação geológica acontece a partir de terremotos e derramamentos vulcânicos. Como a primeira pessoa educada, até então, a ter testemunhado esse fenômeno, Maria Graham contribuiu com seu relato fornecendo ao geógrafo evidências que corroboraram suas teorias.

Sete anos mais cedo, no entanto, Maria Graham aportaria na corte brasileira, da qual uma das poucas memórias doces que levaria de volta para a Inglaterra seria a do gosto do Cambucá.

Logo que chegara ao Brasil, lady Graham foi convidada a visitar a corte de Dom Pedro I, quem, encantado com escritora, a convidaria a assumir a educação de sua filha, D. Maria da Gloria, então com apenas 4 anos de idade, futura rainha Maria II de Portugal. Formou com a Arquiduquesa Maria Leopoldina da Áustria estreita ligação, sendo, até 1825, ano em que seria expulsa da corte, sua amiga íntima.

A Maria Graham devemos não apenas os relatos sobre costumes da corte, e até mesmo sobre os comerciantes ingleses que aqui trabalhavam e sobre quem escreveu: “Fiquei, enfim, inteiramente desesperada com esses fazedores de dinheiro destituídos de curiosidade”.

Além de escritora, Graham era exímia ilustradora e desenhou a paisagem do Brasil recém independente de Portugal. 

Apesar dos serviços prestados, a intimidade da escritora com Maria Leopoldina e sua influência sobre a criança Maria da Gloria atraiu os olhares atentos de alguns cortesões, que desconfiaram de que Graham tinha pretensões anglicizando a corte. Praticamente expulsa da corte, teve dificuldades em conseguir passaporte a fim de voltar a sua terra Natal.

Do Brasil, Maria Graham levou de boas lembranças o gosto das frutas que aqui provara e o gosto amargo das relações na corte imperial recém nascida. Não será por acaso que sua relação ambivalente com essa terra brasilis se reflete nas descrições que fez sobre os frutos da terra.

(…) o cambucá, cujo fruto, tão grande como uma maçã russet, tem o gosto sub-ácido de groselha, com a qual sua polpa tem uma forte semelhança; a japatee-caba [jabuticaba], cujo fruto é um pouco inferior ao damasco (…);

(…)As matas das vizinhanças são belíssimas e produzem grande quantidade de excelente fruta chamada cambucá (…) cisstadas por Eduardo Jardim.

Cuidados básicos e adubação do cambucazeiro

A cultura do cambucazeiro é semelhante a da jabuticaba. A literatura aponta como região ideal o sudeste, embora haja registros da ocorrência de ambas naturalmente no sul brasileiro. Com efeito, em função das características climáticas e da umidade relativa, o litoral sul, especialmente, é uma região propicia para a cultura tanto da jabuticaba, quanto do cambucá. 

A amplitude térmica ideal varia entre uma mínima de 9° e uma máxima de 42º, com precipitação anual entre 1000mm-2000mm. Daí a necessidade de manter a umidade e o sombreamento durante os estágios de vida.

Prefere solos ricos e bem drenado, com profundidade suficiente para o desenvolvimento de raízes.

Segundo o Wikipedia, para o plantio em praças e parques, recomenda-se esperar alcançarem de 1,2 – 2m de altura. O espaçamento a ser guardado é de em média 8 metros.

Quanto a propagação, pode ser feita por sementes, enxertia ou alporquia. Para a composição de sementeiras, utilizar pote grande, com cobrindo a semente com terra fértil e regada diariamente. Cada semente pode gerar mais de uma planta e é essencial protegê-las do vento e do sol nos primeiro dias.

Plinia edulis no paisagismo 

Ideal para compor pomares, parques e praças urbanas. O caule, de exuberante coloração, é, ao lado do fruto, um de seus maiores atrativos.


Referências e links interessantes

 [¹] Pimentel Gomes. Fruticultura Brasileira. São Paulo: Nobel, 1983.

Plantas Ornamentais no Brasil livro de Hari Lorenzi e Hermes Moreira de Souza. Clique no link para ir a livraria cultura.

Blog do Eduardo Jardim

Wikipedia em Português

Wikipedia em Inglês

Bananas raras

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.
  • Ghassan Wehbi

    Boa Trade.

    Tem como fornecer sementes da Plinia Edulis -Cambucá.
    Prissisa de 30 kg para exportação.

  • Rivaldo

    Como faria para receber sementes, frutas ou mudas? Será que fica tão difícil assim? Por favor, se alguem tiver alguma semente ou fruta, entre em contato comigo. Meu e-mail é:

    razevedo([email protected]

    Rivaldo de Azevedo

  • Francisco Gondin

    O cambucazeiro que tenho em casa está com uns 3m e não dá frutos. O que posso fazer para que dê frutos?
    Obrigado,
    Francisco.