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As imagens da orla do Guaíba no projeto de Jaime Lerner

orla do guaíba

Como está o trecho da orla do Guaíba, foco da primeira fase de revitalização.

A contratação do arquiteto Jaimer Lerner para a revitalização da orla do Guaíba, em Porto Alegre, é ainda motivo de polêmica e debate tanto entre a comunidade de arquitetos da cidade, quanto entre a população. Nessa briga, entrou até mesmo o Ministério Público, que questionou a escolha, feita por “notório saber”, sem necessidade de concurso público. Não sei exatamente quais os critérios para essa escolha, se é que existem, mas, na minha opinião, se assim tivesse de ser feito, escolheria um Benedito Abbud ou uma Rosa Kliass, arquitetos paisagistas com comprovada experiência no manejo de áreas públicas e, além do mais, com um conceito muito avançado nesse sentido, especialmente no caso de Rosa. No entanto, não quero discutir os méritos da escolha, já que essa discussão está sendo feita publicamente na internet e na cidade, basta uma pesquisa no google para comprová-lo.

Jaime Lerner, como sabem os leitores, é urbanista reconhecido inclusive internacionalmente, não apenas por suas passagens na prefeitura de Curitiba (3 vezes), mas por divulgar uma concepção bem elaborada de planejamento urbano que integra as atividades cotidianas na vida de uma cidade. Também está alinhado com uma concepção ecológica e sustentável do meio urbano. Até que ponto de forma eficiente também não é o que quero discutir. Minha intenção aqui é apresentar as imagens 3d do projeto da orla do Guaíba que o arquiteto liberou através do blog Curta Poa, e que foram divulgadas pela excelente iniciativa que é o PortoAlegre.cc.

O que me proponho aqui é expor alguns pontos de vista sobre essas imagens. Não acredito que imagens 3d devam realmente servir de parâmetro para a avaliação de um projeto. Elas não passam de divulgação e marketing, e os arquitetos sabem muito bem que um bom 3D é infinitamente mais manipulável que uma planta baixa. Ainda assim, o conceito da obra não escapa a esses recursos, e, por isso, podemos sim avaliar a que eles se aplicam através dessas imagens. No campo abaixo, o leitor do Jardim de Calatéia tem uma galeria dessas imagens. Clicando em apenas uma delas, podem navegar por toda a galeria e dar seus comentários, mesmo sem estar conectados ao Facebook. Minha discussão segue logo após.

A importância da orla do Guaíba para Porto Alegre

A orla do Guaíba corresponde, em Porto Alegre, a um percurso de cerca de 72km. Embora boa parte desse trecho seja urbanizado, apenas um pequeno trecho fica destinado as atividades de lazer. O primeiro trecho, que discutimos agora, corresponde aquele com maior importância em termos de lazer e, futuramente, em termos econômicos, uma vez que deve se tornar um dos focos turísticos da capital gaúcha. Trata-se de uma área com 1,5km de extensão, e cerca de 6 hectares, que já vinha sendo utilizada para fins de lazer e que também abrigava outras atividades, inclusive, em parte, os Fóros Sociais que a cidade abrigou durante cerca de 5 anos, desde 2001 até 2005.

Trata-se, portanto, de uma área bem utilizada pela população, sobretudo aos fins de semana, e que, não obstante, era relativamente negligenciada pela administração urbana. A chegada ao trecho era feita pela Av. Mauá, pela Antiga Rua da Praia (hoje, dos Andradas) e ao sul, pelo Parque da Marinha, próximo ao Praia de Belas. O acesso é, de toda forma, considerado difícil pela população nos dias de semana, devido ao grande tráfego de veículos na região. Daí que um dos pontos da revitalização seja devolver ao trecho a facilidade de acesso que outrora teve.

Acrescente-se, ainda, o famoso pôr-do-sol do Guaíba, ao qual os porto-alegrenses acorrem nos fim-de-semanas e que já se tornou ícone da cidade para quem a visita.

orla do Guaíba

O projeto de Jaime Lerner nas imagens que temos

Dizem convir a qualquer consideração crítica sobre obra alheia que o autor da crítica comece elencando os pontos fortes do projeto. Minha intenção não é realmente fazer uma crítica, pois sequer arquiteto de formação sou. Mas vou seguir essa regra e elencar os pontos que me agradaram.

Em primeiro lugar, o projeto paisagístico acerta na utilização de palmeiras de grande porte. As imagens não permitem assegurar, mas se forem as imperiais, como já ocorre em outros trechos da cidade, assegura identificação entre o projeto e a tradição da cidade. Outro ponto que me agrada é a utilização do relevo natural para compor “arquibancadas”. Além de valorizar a relação com o Guaíba, elas também o elevam a condição de cenário da cidade, o que, por sinal, ele já é, mesmo quando nem sempre destacado dessa forma. Agradam-me, também, os passeios e o platô que se estende, aparentemente, sobre o rio. Denotam a sinceridade do arquiteto ao afirmar que quer fortalecer os vínculos da cidade com a orla.

Agora os pontos fracos.

orla do Guaíba

Não me parece muito claro, pelas imagens, como o urbanista Jaime Lerner deseja realmente fortalecer esses vínculos, uma vez que o fluxo de veículos não é realmente afetado, ao menos não pelo que se vê. Há notícias de que a Rua dos Andradas voltaria a se chamar Rua da Praia, e que se estenderia até as imediações. Mas as imagens apresentadas não mostram sequer uma passarela. O que sim, há, é um percurso extenso de ciclovia (destinada, diga-se, ao lazer) e um passeio junto ao Guaíba.

Notem, por sinal, que as ruas estão vazias e seu uso, por isso, fica inexplicado. Esse um dos grandes problemas de se fiar na apresentação de imagens desse tipo. Sendo intenção ou não do arquiteto, a função delas é dar ao cliente conhecer os aspectos que o projetista que mostrar para o cliente. Por isso, elas omitem o “desnecessário”, aquilo que se encontra fora do escopo do projeto. O problema é que, muitas vezes, o omitido é essencial, e sua ausência ilude a parte interessada sobre o real desdobramento do projeto. Não digo que tenha sido essa intenção, mas o fato é que as imagens não nos dão a conhecer como ficará o trânsito de veículos na região.

orla do Guaíba

O tratamento paisagístico, por sua vez, me parece ausente de atrações. Tirando as palmeiras e algumas árvores, por sinal, pessimamente arranjadas no 3D, tudo parece um grande gramado. E um grande gramado sempre tende a ser abandonado, virar terreno de inço e, ao final, ser abandonado. Sinto falta de frandes maciços. E, ao fim e ao cabo, o uso das palmeiras enfileiradas serve numa grande via, como ocorre na Getúlio Vargas, em Porto Alegre mesmo. Mas, aqui, parecem soldados enfileirados numa trincheira. Por sinal, minha inteligência também não alcançou a elegância daqueles mastros inclinados.

Outro ponto que me dá arrepios pensar que possa dar errado são as bolinhas de gude misturadas ao concreto. Não creio que compensem o efeito noturno. Ao menos não quando sol estiver a pino e escaldante. Fico imaginando que caminhar ali será impossível sem um bom óculos escuros. Vejo-os, e fico pensando na defesa que Rosa Kliass faz do solo-cimento, utilizado, aliás, em projetos como o do parque da Juventude, em São Paulo. Será mesmo que utilizar bolinhas de gude em toda extensão do passeio é necessário? Tenho minhas dúvidas.

À guisa de conclusão

O leitor fique, agora, à vontade para continuar a discussão. Devo finalizar dizendo apenas que o projeto não me agradou e que não justifica a contratação por “notório saber”. Porto Alegre merece algo melhor e, merece, por sinal, debater esse projeto no seio de sua sociedade.

 

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.