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Bienal Européia de Arquitetura Paisagística – Cap de Creus

Cap de Creus, Arquitetura paisagística | Jardim de Calatéia

As estruturas de ferro foram utilizadas como miradores.

Nos dias 27, 28 e 29 de setembro, ocorre em Barcelona a sétima bienal de Arquitetura Paisagística da Europa e, com ela, a premiação Rosa Barba de Arquitetura Paisagística, uma das mais importantes premiações no cenário europeu e internacional. Foram sete finalistas selecionados. Nas próxima semanas, até a abertura da Bienal, vou falar desses projetos aqui no Jardim de Calatéia, conformando uma série em torno do evento.

A Bienal Européia de Arquitetura Paisagística tem início em 1999 e chega a sua sétima edição (a de 2005 foi realizada em 2006). As temáticas de cada evento foram as seguintes: “Remaking Landscapes” (1999), “Gardens in Arms” (2001), “Only with Nature” (2003), “Landscape: a Product / a Production” (2006)— Storm & stress (2008) e “Liquid Landscapes” (2010). A atual vai se chamar “biennal vs biennal” e os organizadores pretendem que enfoque o paisagismo em áreas degradas e inóspitas. O lugar em que foi realizado o projeto que vamos enfocar hoje é uma região quase inóspita, mas de rara beleza. Trata-se de um projeto de “restauração paisagística”, se é que assim se pode dizer.

O grande Masturbador | Dali

Dali pintou esse quadro inspirado em uma das pedras do lugar.

Salvador Dalí

Cap de Creus é uma península no nordeste da Catalunha, região que abriga Figuères, cidade natal de Salvador Dalí. Os leitores logo vão notar as semelhanças entre as obras do mestre do surrealismo e as rochas da região e não deverá supor que sejam mero acaso, ou obra do inconsciente. Com efeito, Dalí disse, a respeito de Cap de Creus, que era “um lugar mitológico que é feito para os deuses, e não para homens que continuam como está e deve ser”. O pintor ainda dedicou um dos seus quadros mais famoso, “O grande masturbador”, a uma pedra da região, e disse:

Naquele lugar privilegiado, a realidade e o sublime quase coincidem. Meu paraíso místico começa nas planícies de Empordà, é cercado pelas montanhas de Alberes, e alcança a plenitude na baía de Cadaqués. Essa terra é minha permanente inspiração. Também o único lugar no mundo pelo qual sou apaixonado. Quando pintei aquela pedra que intitulei O grande masturbador não fiz nada mais do que render homenagem a um dos grandes promontórios do meu reino, e minha pintura é um hino há uma das jóias de minha coroa”.

A rocha imortalizada por Salvador Dalí é apenas uma das muitas as quais, ao longo dos séculos, os moradores da região deram nome com o intuito de se localizar enquanto se deslocavam por ali. O projeto a que nos referimos, da autoria de Martí Franch, da EMF Landscape architects, deu importância a esse fato.

O Club Mediteranée e o projeto de restauração como projeto paisagístico

A região foi ponto turístico desde a década de 1960, quando a Club Med (Club Mediteranée, uma empresa francesa que possui alguns dos mais luxuosos resorts e villages do mundo) fundou ali um complexo capaz de receber cerca de 900 turistas, 3 meses ao ano. Trata-se de uma região montanhosa, com ventos fortes quase o ano inteiro, e, em função disso, a vegetação é principalmente rasteira. O legado do resort da Club Med foi a degradação do ambiente e a inserção de algumas espécies vegetais que passaram a se espalhar pela região. Entre elas, destaca-se a Carpobrotus edulis, uma suculenta rasteira, vinda da Africa do Sul, que se adaptou muito bem a região.

Cap de Creus se tornou Parque Nacional em 1998, e as atividades no Club de Med cessaram em 2003. A restauração teve início em 2008 e terminou em 2010. Martí Franch empreendeu uma revitalização da dinâmica ecológica do lugar, retirou as dependências do resort, reutilizou os escombros para a construção civil, reutilizando o que havia de rocha local para reconstruir o cenário. Também parte do esqueleto, principalmente as estruturas em ferro, foram colocadas a serviço do parque para a construção de caminhos e mirantes. O resultado disso tudo pode ser visto nos vídeos, e nas fotos aqui disponíveis, retiradas do Landezine.com.

Um dos aspectos que mais me interessam nesse projeto é a maneira como o autor tratou a questão do enquadramento. Na maioria das vezes, a condução do olhar é sutil, através de caminhos, “corrimãos” que conduzem uma descida entre as pedras. Noutras, é evidente e autoritária, como nos cubos de ferro, mas ao mesmo tempo permeável, uma vez que o observador pode escolher não utilizar a estrutura. O último caso é o das placas, que indicam o formato das rochas. Esse o mais problemático, ao meu ver, porque aparentemente instiga a imaginação do transeunte, ao mesmo tempo em que direciona a um certo tipo de olhar.

São impressões pessoais, e vocês podem acompanhar o vídeo e dividir comigo as suas próprias aqui nos comentários.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.