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Design biofílico: Village Homes

Dia desses tive o prazer de reencontrar, por intermédio do Facebook, minha ex-orientadora no curso de Psicologia, Ariane Kuhnen. Ariane foi minha professora e fundadora do laboratório de Psicologia Ambiental. Foi através dela que pela primeira vez encontrei-me com o pensamento ambiental e tomei gosto em estudar o desenho do espaço e maneira como as pessoas interagem com ele. Em uma pequena troca de informações sobre Design biofílico, Ariane relatou que estava vivendo no Village Homes, um bairro de Davis, Califórnia, projetado seguindo o conceito de sustentabilidade, já nos anos 70. Contei-lhe do Jardim de Calatéia e sugeri um artigo dos punhos dela, que, afinal, teria muito mais a relatar do que eu mesmo, através de textos e imagens. Ei-lo aqui, numa escrita ao mesmo tempo pessoal e cheia de informações para quem se interessa pelo assunto. As fotos também são dela. Aproveitem!

Sou professora de Psicologia, pesquiso na área de Psicologia Ambiental, na UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina. A ideia desse texto é uma novidade prá mim, me tira de leituras e redação de textos acadêmicos. Vamos lá!

Vim passar esse ano em Davis, Califórnia, para fazer meu pós-doutoramento. Venho aprendendo muita coisa aqui. Nessa cidade cada ida e vinda é uma escola de ecologia. Por exemplo, nos sábados bato ponto na feira de produtos orgânicos. Muita vida rola aí. O site deles mostra um pouco disso: http://www.davisfarmersmarket.org/.

Não tenho carro, alugo para fins de semana quando viajo. Faço tudo de bicicleta porque a cidade oferece 42 km de ciclovias incríveis, ágeis ou contemplativas, inspiradoras…Claro que opto pelas segundas, que passam dentro dos parques, beira dos rios, lagos etc…demoro mais, mas chego mais feliz também. Ah! Alguns parques estão localizados junto às escolas, o que oportuniza que essas usem o espaço público para suas atividades. Amo passar por esses lugares e ver as crianças brincando num espaço enorme. Suas bikes estão devidamente estacionadas ao lado do parque e da escola. Quase todas as crianças vão para a escola de bike…Entradas e saídas das aulas é uma história a parte. Diversão total é vê-las de todas as cores e tipos.

Mas vamos ao texto encomendado pelo Fred Gorski, meu ex-aluno, brilhante, diga-se de passagem.

village homes, projeto urbanístico sustentável

Ciclovia no Village Homes

Tive o privilégio de morar nesse ano numa casa vizinha ao Village Homes e passar por ele todos os dias, já que é meu caminho para a universidade. Passo por ele porque é um “condomínio” aberto. Venho firmando a ideia de que tenho um competente anjo da guarda.

Village Homes é um grande exemplo de design e arquitetura sustentáveis. Concebido e desenvolvido por Michael e Judy Corbett em 1970, Village Homes tem 242 unidades residenciais multifamiliares em 60 hectares de área. As casas são planejadas com conservação de energia ao redor de espaços abertos comuns. Tais espaços compõem um lindo cenário de áreas de lazer, hortas e jardins compartilhados. Uma boa parte do espaço é dedicada ao espaço comunitário aberto, incluindo os pomares, vinhas e áreas de lazer geridas ativamente por seus moradores. As casas usam um terço menos energia do que outros bairros de Davis.

Oferece, portanto, muitas lições de design e planejamento para projetos de arquitetura e urbanismo. Sua importância como um modelo de comunidade pode ser visualizada quando moradores relatam ter duas vezes mais amigos e três vezes mais contatos sociais do que os residentes em um bairro convencional de Davis. Além da arquitetura muitos profissionais e governantes têm a aprender aqui. Presentão para uma psicóloga ambiental, não?

Mas como começou? O projeto começou como uma visão de fazer “um lugar melhor para se viver”. Nascido de preocupações sociais e ambientais das décadas de 1960 e 1970 foi concebido como resultado de valores como sensibilidade e responsabilidade social, parte do famoso sonho americano. Iniciou com um pequeno grupo de famílias que desejavam criar sua própria comunidade. Os Corbetts (Michael e Judy) mais tarde montaram um estande no Whole Earth, festival realizado em Davis, onde interessados podiam se juntar a eles. O modelo de participação no projeto levou a um forte sentimento de apego ao projeto e maior satisfação com o local de moradia, tema bastante estudado pela psicologia ambiental.

Os Corbetts identificavam seis elementos como inovadores: senso de comunidade, conservação de energia e utilização de energia solar, drenagem natural, possibilitar andar a pé e de bicicleta, design mais perto da natureza e bairro agrícola.

As casas são energeticamente eficientes e esteticamente agradáveis. Inovações no sistema de drenagem natural permitem que as águas das chuva sejam absorvidas pelo solo em vez de serem levadas através de bueiros. Além de ajudar na conservação da umidade do solo, este sistema fornece um visual interessante na paisagem. Todas as ruas são orientadas para leste-oeste e todos os lotes para direção norte-sul. A orientação ajuda no pleno uso da energia solar. Todas as ruas são sem saída e as linhas curvas dão uma aparência de vila. Está integrado à vizinhança, já que suas ciclovias, caminhos e ruas podem ser acessadas, não existem cercas que separem Village Homes do entorno, não há guaritas ou coisas do gênero. Quem não sabe da história do local pode até identificar algumas placas explicativas mas logo vai diminuir a marcha pois a beleza do local convida para uma slow experience.

A idéia de uma área residencial organizada em torno de um espaço comunitário, público é uma concepção ou conceito de planejamento que difere do pensamento convencional em que a rua, destinada ao trânsito de automóveis, é foco central do espaço público. E aí temos o encontro das pessoas no lugar da velocidade, ou das lombadas tentando diminui-la.

Segundo Mark Francis, professor da Landscape Architecture na University of California, em Davis, que realizou estudos na Village Homes, o que ajuda a explicar as idéias que sustentam a concepção desse projeto é o background em arquitetura, urbanismo, ecologia e psicologia ambiental da dupla de planejadores do local.

Para finalizar, Judy e Michael Corbett contam no seu livro Designing Sustainable Communities: Learning from Village Homes, a luta do grupo para que o local pudesse ser construído. Não pensem que foi fácil e talvez por isso que não temos muitas iniciativas como essa por aí. A interferência se deu na estrutura da cidade, ou seja, a visão que tinham teve que ultrapassar o domínio do grupo e ir para a política da cidade de Davis, o que culminou na implantação do Greater Davis Planning and Research Group, dedicado a parar a expansão urbana e a perda das terras agrícolas da região.

 

A proposta do grupo mexeu com a cidade. Três candidatos para a “câmara municipal” nas eleições da época adotaram a plataforma desenvolvida pelo grupo, eles foram vitoriosos e conseguiram aprovar sua proposta de desenvolvimento de acordo com o novo plano geral. Um conselho com maioria favorável aprovou a implantação do Village Homes apesar das objeções do pessoal da cidade, incluindo os planejadores. Portanto havia resistências no que hoje é um modelo.

Esta experiência contribui para o valor de aprendizagem associada ao Village Homes. Como membro e diretora do Local Government Commission – LGC (www.lgc.org) Judy Corbet se fez uma ativista e política além de planejadora e arquiteta. O LGC fornece hoje um dos sites mais populares do mundo, de acordo com o Planetizen (www.planetizen.com).

Portanto fica a lição de que sonhos devem ter aliados!

Ou como disse John Lennon: “Sonho que se sonha só, é somente um sonho, sonho que se sonha junto é realidade.”

Para saber mais:

No site do Village Homes você conhecer mais, ver fotos, acessar vários links interessantes, etc.

http://www.villagehomesdavis.org/

Corbett, Judy and Michael N. Corbett. 2000. Designing Sustainable Communities:

Learning from Village Homes. Washington. D. C: Island Press.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.