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Franz Lizst em Villa d’Este

Nota do Editor: Este artigo é uma tradução livre a partir do original publicado no site Paisaje en Perspectiva, do qual tomei conhecimento há cerca de um ano e cujo autor me contactou pelo twitter. Após uma ou duas mensagens, em que comentávamos com alegria a semelhança no propósito dos dois blogs, as mensagens cessaram e o PP deixou de publicar. 

Após algum tempo desejando fazê-lo, resolvi finalmente empreender a tradução deste curto artigo sobre a passagem de Franz Liszt, um dos maiores compositores do período Romântico, por Villa d’Este, jardim italiano do período renascentista que tive oportunidade de visitar em 2012. Idealizado por Hipólito II d’Este em 1550, encontra-se numa zona histórica próximo a Roma, em Tívoli. O lugar já era habitado e utilizado como uma espécie de residência de férias desde o império Romano.

Não me estenderei aqui nos pormenores do jardim, pois pretendo fazê-lo em breve. 

A Fontana dell'Organo em Villa d'Este. No alto da praça, um órgão hidráulico que é ativado a cada duas horas.

A Fontana dell’Organo em Villa d’Este. No alto da praça, um órgão hidráulico que é ativado a cada duas horas.

Quando Franz Lizst chegou a Roma em 1860, tinha 49 anos. Conservava saúde e aspecto invejáveis, mas fazia tempo que havia deixado de ser aquele intérprete e compositor apaixonado, rei das reuniões poético-musicais de París, e que era perseguido por fãs enlouquecidas para arrancar-lhe uma mecha de sua cabeleira, ou apenas tocar-lhe.

Separado de Marie D’Agoult, primeira companheira e mãe de seus três filhos, que já estava farta de suas infidelidades, cada vez mais alheio às disputas musicais com os coetâneos Brahms e Shummann (do bando rival na “guerra do romanticismo”), e talvez ainda cansado de décadas de turnês ininterruptas e da imcompreensão do público de Weimar, chegava a Roma afim de que sua amante, a princesa Carolyne Sayn-Wittgenstein, obtivesse a anulação de seu primeiro casamento, podendo assim desposá-la. Mas em Roma não lha concederam e Lizst permaneceu solteiro.

De toda maneira, fixou residência em Roma durante essa década, passando breves temporadas no palácio de Villa d’Este, próximo a Tivoli.

Franz Liszt, Villa d'Este

O jovem Liszt. Sua performance frenética ao piano foi responsável pelo primeiro fenômeno de “histeria” do público conhecido na história. A tal ponto que o fenômeno é conhecido como “Lizstomania“.

Aí, pela primeira vez, sentiu-se livre das amarras, ainda que sensível aos golpes do destino, que lhe fora cruel durante toda essa década: em 1859, morre seu filho Daniel e, em 1862, sua filha Blandine; em 1866, sua filha Cósima abandona seu aluno e protegido Von Bülow para fugir com Wagner.

Católico convicto, ainda que talvez não muito exemplar para a pacata moral da época, algo começou a mudar em Liszt. Em 1865, foi iniciado nas ordens menores. Essa condição, prévia ao sacerdócio, não lhe permitia celebrar a missa, mas sim vestir hábito.

Impossível não imaginar o “mefistofélico abade” passeando sua vestimenta eclesial pelos jardins de Villa d’Este, na tranquila e afastada Tívoli. Aí, já não tem que provar ser o melhor pianista de seu tempo, nem é necessário levantar a bandeira de nenhum movimento, nem mesmo acorrer noite após noite os salões da alta sociedade exibindo sua magnética personalidade.

Suas qualidades de grande conversador se reservam aos amigos que vêm visitar-lhe. Não é, contudo, uma vida ascética a que leva: viaja muito e mantém seus alunos. Começa a compor peças para piano de caráter mais experimental que as anteriores (boa parte delas no ciclo “Anos de peregrinação”).

Progressivamente, sua paleta se torna mais obscura, seus acabamentos, menos brilhantes. Anos mais tarde, e muito antes que qualquer outro compositor, se atreve a brincar com a atonalidade em obras como Monsonyi e Unstern. Um aluno, entre horrorizado e fascinado, pergunta-lhe: “Mestre, é possível uma tal música?”.

Duas obras inspiradas em Villa d’Este levam seu nome junto a seus ciprestes e fontes. Ainda que sejam de estrutura clássica, quanto a harmonia, estão longe do convencional. A melodia se aprecia diluída como em uma aquarela. O tempo, uma marca de Liszt como intérprete, torna-se sinuoso. A melancolia e a evocação são constantes. Com pouco esforço, é possível sentir, ao escutar “Os jogos d’água de Villa d’Este”, brotar a água dos canos da Fontana del Draghi. E, em “Os ciprestes de Villa d’Este”, apequenar-se debaixo do volúme fúnebre no passeio das Cento Fontane. Liszt, o primeiro impressionista? Escutem-no. Se puderem, façam-no através das históricas gravações de Alfred Brendel para Phillips – melhor que melhor. E, por favor, se ainda não foram a Villa D’Este, que estão esperando?

 

Franz Liszt, Villa d'Este, fontana dei Draghi

Fontana dei Draghi.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.