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Jardim Botânico da Universidade de Lisboa

Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, palmeiras

Vista do Jardim Botânico de Lisboa

Este artigo é um convite aos leitores do Jardim de Calatéia para que me acompanhem na rememoração dos passeios dados na viagem das últimas semanas por um pedaço da Península Ibérica: primeira parada, o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa.

A série Passeios Ibéricos pretende dar contas dessas jornadas paisagísticas que, junto com meu pai e um primo, desfrutei ao final de fevereiro e início de março. Águas que abrem a primavera européia, últimas do nosso histórico e fervoroso verão de 2014.

Trata-se de um desejo antigo de compartilhar os registros e impressões de caminhadas feitas nas viagens que pude empreender e que deveria ter-se iniciado há dois anos, com as fotografias ainda não revistas da passagem pela Itália – Roma, Villa d’Este, Florença e Veneza. Não calhou ainda recordar essa última, e, como estão mais vívidas as memórias do Tejo e do Guadalquivir, inicio cá, com essas memórias lisboetas.

Conforme for, refaço a viagem anterior, com as memórias que sobraram e o que a pesquisa na rede me der acrescentar.

Cada capítulo contará a história de uma cidade visitada, subdividindo-se, conforme convir, nos seguintes trechos: Jardim Botânico (e Alcazáres), Parques e, em seguidas, passeios, que reúne alguns trechos que chamaram a atenção mas que preferi não retratar individualmente. 

Nossa primeira paragem será em Lisboa, num dos Jardins Botânicos daquela cidade.

Jardim Botânico da Universidade de Lisboa – Revisitando as Gimnospermas

Localizado à rua da Escola Politécnica, anexo ao prédio do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, está o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, referência pedagógica e afetiva no centro da capital portuguesa. Importante não apenas do ponto de vista científico, mas também como zona de lazer, é ponto de parada obrigatório tanto para quem gosta de ciência quanto para quem, visitando a cidade, queira relaxar em zona verde sem ter que se afastar muito do centro.

Lisboa, é verdade, possui mais de um Jardim Botânico, em geral especializados em um plantas de determinado clima, como o é o Jardim Botânico Tropical, localizado próximo ao Mosteiro dos Jerônimos, ou históricos, como é o d’Ajuda, o mais antigo de todos. O da Universidade, contudo, é um dos mais importante em função de se encontrar na região central da cidade e por abrigar uma interessantíssima coleção de árvores.

Este botânico foi idealizado em 1859 como instrumento pedagógico da Escola Politécnica de Lisboa. Sua construção se iniciou apenas em 1873, sob a orientação do jardineiro-paisagista alemão Edmund Goeze e só foi inaugurado em 1878.

Eminente botânico e horticultor do século XIX, Goeze fora, anos antes, responsável também pelo desenho do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Nesse jardim da Universidade de Lisboa, Goeze foi responsável, principalmente, pela parte superior, em que predominam Gimnospermas e plantas xerófitas, sendo o traçado da Alameda das Palmeiras criado, em 1876, por Jules Daveau. 

O jardim botânico, assim, pode ser dividido em duas grandes áreas. A “Classe”, idealizada e empreendida por Edmund Goeze, reunindo as principais famílias de dicotiledôneas e que tinha como modelo a obra Prodromus de De Candolle[¹].

Em seguida, o “Arboreto”, área em declive, que pode ser dividido em duas áreas de maior destaque: a de plantas xerófitas e a famosa Alameda das Palmeiras.

Na década de 1940, R. T. Palhinha reorganizou a “Classe” em conjuntos ecológicos que se organizam em torno de um lago central. 

Jardim botânico da Universidade de Lisboa

Gimnosperma e palmeira na parte baixa da “Classe”.

A “Classe”

Esse trecho pode ser subdividido em duas ou três áreas. A primeira, situada logo à entrada do complexo, tem uma pequena estufa com bromélias, orquídeas e plantas carnívoras e com um pequeno espaço destinado aos “miúdos” com referências ao Cretáceo. 

À época da visita, em fins de Fevereiro, era o trecho menos interessante. As orquídeas estavam mal cuidadas e o passeio que reunia espécies floríferas de pequeno porte naturalmente não refletia as cores que, no auge da primavera e verão, deveriam lhe dar maior beleza.

Logo a seguir, após a escadaria, à direita, em direção ao lago central, no entanto, reuniam-se, entre outras, espécies de Araucárias, provindas principalmente da Austrália. Um dos pontos altos do passeio, há também alguns exemplares de marmeleiro (Chrysophyllum imperiale), que nos recebeu em flor.

Descendo em direção ao extremo do parque, que liga com a parte superior do Parque Mayer, recorre-se um passeio exuberante ao qual, no entanto, não me ative nessa visita, interessado que estava no trecho das Palmeiras e das xerófitas. 

O Arboreto

Crassula ovata, Jardim Botânico da Universidade de Lisboa

Crassula ovata sendo visitada por uma abelha no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa

Construído em 1976, sob a direção de Jules Duveau, esse trecho destaca-se pela Alameda das Palmeiras e pelo pequeno, porém exuberante trecho de Xerófitas.

O acesso é feito pela escadaria principal que liga a parte mais elevada do parque e a parte baixa, que dá acesso a Rua da Alegra e ao Parque Mayer. À direita, o jardim de plantas de clima seco. Em frente à escadaria, a Alameda.

Embora pequeno e mal cuidado, faltavam placas de identificação, por exemplo, o trecho das Xerófitas é um dos mais marcantes do Jardim. Uma magnífica Dracena draco rouba a atenção dos visitantes, na extremidade do passeio. Destaco, também, as AlloeCactaceae e as Euphorbias, que floresciam e podem ser vistas nas imagens que ilustram esse artigo. Numa das imagens desse artigo, pode-se ver uma Crassula ovata sendo visitada por uma abelha.

Num Jardim Botânico dominado por Gimnospermas, Cicadáceas e Palmeiras, contudo, a Alameda é um dos grandes destaques e empresta ao passeio o único trecho de frescor “tropical”. 

Alameda das Palmeiras

Dizer que se trata do único “trecho de frescor tropical” não é, como pode parecer, afirmar que seja o único agradável ou belo desse Jardim. Seu trunfo maior não é a coleção exuberante de floríferas, nem a variedade infinda de espécies vegetais de todo o mundo. Se uma das características marcantes desse Jardim Botânico é a variedade de espécies, a rua das Palmeiras é uma das mais representativas.

Jardim Botânico de Lisboa, phoenix, palmeiras

Phoenix canariensis do Jardim Botânico de Lisboa. Um dos grandes destaques do parque.

Com efeito, são cerca 29 espécies de palmeiras cultivadas à céu aberto. Um número módico se compararmos com Inhotim, é verdade, mas notável levando-se em conta que o clima, aí, é mediterrânico temperado. O que faz da coleção, possivelmente uma das maiores, senão a maior, da Europa.

Ao contrário do que salta aos olhos numa primeira mirada, ou talvez numa primeira mirada de fim de inverno, é o aspecto “pré-histórico” em que o Jardim Botânico se desvela, com sua coleção de Gimnospermas e, no caso dessa alameda, pela imponência das espécies da subfamília Coryphoideaea mais primitiva subdivisão das palmeiras

Essa subfamília, com efeito, está representada por pelo menos vinte e duas espécies de palmeiras, em que se destacam as Phoenix e Washingtonias. Entre elas, já membros de uma subfamília mais “jovem” do ponto de vista evolutivo, aparecem também dois tipos de butiás: o Butia capitata, e o Butia eriospatha, ambos do Brasil.

A majestade das palmeiras é capaz de tornar a extensão dessa alameda praticamente infinita. Podemos, de uma ponta do caminho, observar a outra, mas basta avançar o primeiro pé para que a imponência de cada espécie capture nosso olhar. Cento e cinquenta metros que se estendem por milhares de anos e por alguns continentes. 

Não é a toa que esse Jardim Botânico da Universidade de Lisboa é Monumento Nacional dos portugueses, a testemunhar, poeticamente, as andanças ultramarinas que os lusos deram pelo mundo.

Em 2013, o projeto Mais Botânico na Cidade foi incluído no Orçamento Participativo de Lisboa. A iniciativa pretende revitalizar a área e inseri-la de forma mais efetiva no dia-a-dia lisboeta, tornando o Jardim, mais do que mera coleção de espécies botânicas, em parque de lazer e descanso.  

 Confira o post/galeria com mais imagens e espécies em destaque do Jardim Botânico de Lisboa

 

Notas e referências

[¹]Coordenada pelo Botânico Augustin Pyrame de Candolle, a Prodrome Systematis Naturalis Regni Vegetabilis, pretendia classificar e descrever todas as plantas com sementes conhecidas à época de sua escrita, entre 1824-1873. Augustin foi responsável pelos primeiros volumes até a sua morte em 1839 e Aboalphonse de Candolle, seu filho, publicou ainda dez volumes com colaboradores.

Blog do projeto Mais Botânico

Amigos do Botânico

Página do Jardim Botânico de Lisboa no sítio do Museu Nacional de História Natural e Ciências

Prodromus Systematis Naturalis Regni Vegetabilis

Outros Jardins Botânicos em Lisboa

  1. Jardim Botânico d’Ajuda – O mais antigo da Cidade, é o 15º Jardim Botânico construído na Europa. Sua construção data do reinado de D. Maria I.
  2. Jardim Estrela – Próximo a Basílica da Estrela é uma jardim de estilo Inglês.
  3. Jardim Botânico Tropical – Foi criado em 1906, sob o nome de Jardim Colonial. Inicialmente dedicado ao Instituto de Agronomia e Veterinária, nos anos 40 passa a ser parte integrante do Museu Agrícola Colonial e, posteriormente, na década de 1970, passa a ser controlado Junta de Investigações Ultramar. Está localizado em Belém, zona monumental da capital portuguesa, próximo ao Mosteiro dos Jerônimos.
  4. Estufa Fria – Parte integrante do Parque Eduardo VII, é um dos locais mais visitados tanto por centro de ensinos quanto por turistas.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.