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O Jardim das Oliveiras do Centro Cultural Belém

Jardim das Oliveiras

Vista do espelho d’agua. Ao fundo, ponte 25 de abril.

Localizado à beira do rio Tejo, na região monumental de Lisboa, o Jardim das Oliveiras é parte integrante do Centro Cultural Belém. As construções deste centro cultural se iniciaram em 1989, visando a presidência portuguesa da União Européia, em 1992, quando foi inaugurado. O projeto, coordenado pelo arquiteto italiano Vittorio Gregotti e pelo português Manuel Salgado, do Atelier Risco, previa a destinação do edifício, após a presidência da União Européia, a atividades culturais. 

À época de sua construção, foi ponto polêmico, em função de sua localização. A região assinala o ponto de partida para as descobertas marítimas, contando aí com a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos, monumento cujo desenho foi encomendado pela ditadura Salazar, por ocasião da Grande Exposição do Mundo Português, na década de 1940. Além disso, a edificação se justapõe ao mosteiro dos Jerônimos, local que guarda os restos mortais de Camões e de Vasco da Gama.

Embora seja uma obra de traço notadamente contemporâneo, a arquitetura lembra a de um mosteiro, dialogando e ao mesmo tempo confundindo-se, de certa forma, na paisagem local com o edifício da ordem religiosa dos Jerônimos.

Não obstante a polêmica em torno das atividades às quais foi destinado e a localização na paisagem cultural de Lisboa, trata-se de um edifício realmente belo, que abriga exposições, peças teatrais e um museu permanente de design. O jardim que ora apresentamos encontra-se no segundo piso, sendo acessado pelo patio interno desse pavimento.

Jardim das Oliveiras

Jardim das Oliveiras

Jardim das Oliveiras, com o Centro Cultural de Belém ao fundo. Local de repouso e contemplação na zona monumental de Lisboa.

Avançando sobre a fachada sul do edifício do Centro Cultural Belém, com vista para o Tejo e o Padrão dos Descobrimentos, encontra-se esse jardim telhado-vivo, terraço que convida o visitante a um descanso entre uma atividade e outra na região monumental da capital portuguesa e que se propõe, ao mesmo tempo, como espaço de contemplação de um ponto importante para história, não apenas lusitana e de suas ex-colonias ultramar, como também para a história mundial.

Ali em frente, onde miramos o rio que embala tantos fados, o local de partida para as descobertas. Vasco da Gama, e depois Pedro Álvares Cabral, dali zarparam a desbravar terras outras, das quais fariam posseiro este país de dimensões diminutas, o resto vocês conhecem e a história continuamos a vivê-la.

Ainda que pequeno, esse espaço atrai, além da vista, pela disposição de Oliveiras centenárias aí plantadas. Árvore importante tanto para a economia quanto para a história local. Um símbolo, digamos assim, tanto mais se levarmos em conta que, ao menos na lenda, Lisboa deve seu nome a um herói mitológico: Odisseu, ou Ulisses, teria aportado, num dos episódios da Odisséia, aqui. 

Daí, concluíram os que defendem a veracidade da lenda que Olissipo, seu nome antigo, e de onde deriva, mais tarde, Lisboa, signifique “porto de Ulisses”. Ora, da Odisséia conhecemos outra passagem, que não se passa em terras portuguesas, mas que é fundamental para conhecer a astúcia e personalidade do herói. 

Após vinte anos, retorna o Odisseu da guerra de Tróia. Penélope desconfia que o homem que tem a frente não é o marido. Lança-lhe, então, o desafio, dizendo à serviçal: “Euricléia, prepara-lhe o sólido leito/ fora do quarto de bela feitura construído por ele”. Indignado, o herói reage: quem, por hábil que fosse, poderia tê-lo feito? E explica:

Uma oliveira de espessa folhagem no pátio crescera;
como coluna era o tronco maciço depois de florido.
À volta dele elevei minha câmara, até vê-la pronta,
toda de filas de pedras e um teto bem-feito por cima.
Sólidas portas lhe pus, trabalhadas com muito carinho.
Só depois disso cortei a folhagem da grande oliveira,
e o tronco todo lavrei, desde baixo, alisando-o com bronze,
muito hablilmente, tomando as medidas de tudo com fio,
para em um pé transformá-lo, da cama, furando-o com trado.
Desse começo construí toda a cama, até vê-la concluída. (Odisséia, tradução de Carlos Alberto Nunes, fonte: Primeiros Escritos)

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.