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Paisagismo avant Burle-Marx: A casa modernista de Warchavchik

A Casa modernista de Warchavchik

A Casa modernista de Warchavchik, foto de 1927, tornou-se ícone da arquitetura modernista no brasil.

Nosso tema atual é o paisagismo brasileiro e sua relação com as artes. No texto inaugural do Jardim de Calatéia, falamos da parceria entre Rosa Kliass e o Teatro Oficina, na composição do jardim selvagem da peça Macumba Antropófaga Urbana. Nesse texto, o tema é a casa modernista de Warchavchik e o projeto paisagístico de Mina Klabin, esposa de Gregor Warchavchik, para ela. Casa e jardim tornaram-se símbolo de uma mudança cultural que surge no seio do movimento modernista, em São Paulo, durante a década de vinte do século passado. As características da composição paisagística são de tal maneira destoante do que ocorria à época, que pode-se dizer que Mina Klabin plantou as primeiras sementes do que posteriormente ficou conhecido como paisagismo tropical brasileiro, cujo maior expoente foi Burle-Marx.

Embora a casa modernista da família Warchavchik seja considerada um marco na arquitetura moderna brasileira, o projeto paisagístico de Mina Klabin ficou até bem pouco tempo esquecido, à sombra, pode-se dizer, da obra mais extensa e mais relevante de Roberto Burle-Marx. Ridicularizado pelos jornais da época, depois amordaçado entre muros durante e após a segunda guerra mundial devido a construção de um hospital japonês em frente a residência (os Warchavchik eram judeus), esse jardim tem importância histórica porque sua composição foi ao encontro das tendências artísticas, que valorizavam as plantas tropicais como símbolo de nossa cultura, ainda antes de Burle-Marx. Sobre esse assunto, remeto à leitura do capítulo A descoberta da natureza, do livro Modernidade Verde, de Guilherme Mazza Dourado, em que o autor diz:

Como Tarsila e outros artistas, Mina assumiu os cactos como elementos instigantes de um novo olhar sobre a realidade brasileira, transformando-os em ícones de modernidade e brasilidade. Dispunha-os com freqüência em destaque nos vários jardins que desenvolvia para compor com as arquiteturas de Warchavchik, recorrendo a diferentes espécies nativas no Brasil. (p.51).

Como se vê, antes de Burle-Marx, Mina Klabin deu início e “popularizou”, ainda que enfrentando a polêmica criada em torno de suas escolhas por um setor mais conservador da sociedade paulista, o uso de plantas tropicais tanto na casa modernista de Warchavchik quanto em outros projetos do marido. Daí que Dourado vá re-situar a importância de Burle-Marx não no pioneirismo do uso de plantas tropicais, mas sim na forma como as utilizou, compondo suas obras através de rigoroso estudo que, como todos sabemos, constituía um diálogo entre a vocação de artista plástico e a de paisagista.

Casa modernista de Warchavchik

O terreno para sua empreitada, portanto, vinha, sendo preparado. Em 1928, o Arquiteto Gregori Warchavchik conclui a construção dessa casa que podem apreciar nas fotos. A arquitetura de formas simples e o jardim, digamos, austero para a época, provocaram-lhe mais elogios ao longo dos anos do que crítica; porém, a primeira reação foi de espantos e ironias. Jornais da época revelam em charges agressivas o sentimento dos altos segmentos da sociedade paulistana com relação ao empreendimento. Agaves, Mandacarus e outras plantas que remetiam a uma paisagem desértica e pobre em recursos como o sertão nordestino, causaram indignação muito antes que seu uso se difundisse por todo o país.

Nos anos seguintes, contudo, a casa sofreu transformações. Como já foi dito, foi murada e, em volta do muro, plantados vários eucaliptos para esconder o pátio interior. Nas janelas foram postas grades e, na década de 1970, a residência foi vendida a uma construtora. O terreno abandonado foi logo motivo de litígio entre a população e a construtora, que acabou perdendo a ação. Hoje, a casa modernista tornou-se espaço cultural e está aberto a visitação.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.