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O paisagismo moderno brasileiro, por Silvio Macedo Soares

Praça Itália | Jardim de Calatéia

A Praça Itália, no Parque Marinha, em Porto Alegre, de caráter cenográfico, rompe com a produção paisagística de áreas públicas dominante até esse período.

Embora a figura de Burle-Marx continue sendo para muitos o referencial mais arraigado quando o assunto é paisagismo, desde a metade do século passado, o quadro do paisagismo brasileiro vem ganhando em dinâmica e variedade de estilos. Sílvio Macedo Soares, professor de Paisagismo da USP e líder do grupo de pesquisa Quadros do Paisagismo no Brasil (Quapá), faz nesse artigo, um apanhado geral dos estilos e escolas que influenciaram e foram se fortalecendo no país. Além do pioneiro trabalho de Burle-Marx, Soares aborda o surgimento da “escola paulistana”, encabeçada ou , melhor dizendo, influenciada pelo arquiteto paisagista Roberto Cardozo, de origem portuguesa e formação californiana.

 

Quadro da Arquitetura Paisagística no Brasil (Quapá)

[A Arquitetura Paisagística] é um processo de criação e/ou readequação intencional e formal de um espaço livre. (Silvio Macedo Soares)

Um dos aspectos interessantes do estudo realizado pelo Quapá, é o conceito que formaliza a pesquisa em torno do paisagismo, e que define esse “um processo de criação e/ou readequação intencional e formal de um espaço livre urbano”. A arquitetura paisagística, dessa maneira, é a ação criadora que formaliza, através do projeto, a “edificação” de praças, parques, calçadões e áreas de conservação, sejam eles de caráter público ou privado. Porquanto seja um conceito limitado, que não abrange certas nuances do paisagismo contemporâneo, como a criação de jardins verticais, tratamento paisagístico da fachada vertical de grandes edifícios (lembremos do Bosco Verticale e da Torre Vegetal, já tratado aqui no Jardim de Calatéia) etc., é suficientemente restritivo para que possamos acompanhar o percurso traçado pelos pesquisadores do Quapá.

Questões teóricas a parte, o fato é que esse texto vale como introdução ao quadro do paisagismo moderno no Brasil durante o século XX. Sílvio Soares Macedo traça não apenas um conceito bem fundamentado sobre a questão da arquitetura paisagística, mas também situa o estudo dentro de uma “tradição” arquitetônica que remonta desde a Antiguidade Clássica até o nosso tempo. Ao fazê-lo, reintroduz a discussão sobre a arquitetura no âmbito da história, não apenas como mero adorno, mas fruto de uma cultura específica e de uma ordem social específica. Assim, o advento do paisagismo moderno brasileiro é contextualizado como num movimento que surge na Europa, no século XIX, e que ganha força nos EUA, durante a primeira metade do século passado.

Maquete do Ibirapuera | Jardim de Calatéia

Maquete publicada em 1953 pelo Diário de São Paulo. Na Administração Faria Lima, o projeto paisagístico de Otávio Teixeira Mendes sofreria a perda da área onde, hoje, figura a Assembléia Legislativa.

A produção de Burle-Marx poderia aqui ser considerada um desvio à regra, como normalmente ela é vista pelo senso comum (e é verdade que se trata de uma obra sui generis), mas, na verdade, encontra-se bem inserida nesse contexto, mesmo ali onde parece romper com ele. O conceito de ruptura, aliás, é fundamental para a compreensão do surgimento das vanguardas artísticas e arquitetônicas do século passado. Foi ali, afinal de contas, que o processo de urbanização e o crescimento populacional, bem como o desenvolvimento de novas tecnologias ganhou um impulso sem precedentes na história – isso é, ao menos quantitativamente. Daí a importância do paisagismo como formalizador do espaço livre urbano.

Formação de um estilo nacional

Para Soares, o paisagismo moderno brasileiro tem duas correntes bem definidas. Uma, isolada, (porque não chega a caracterizar um movimento) tem na figura de Burle-Marx e colaboradores seu expoente. É chamada nacionalista, especialmente pela ênfase no plantio de espécies tropicais. Outra, sem uma personagem central com o porte daquele paisagista, mas que tem um grupo coeso e igualmente criativo, chamada internacionalista (porque assumidamente absorve e reinventa as influencias europeias e americanas). Essa última, que tem seu ponto nevrálgico em São Paulo, tem origem na influência californiana de Roberto Cardozo (arquiteto de formação) e no trabalho de Valdemar Cordeiro (artista plástico como Burle-Marx) e ganha força a partir da segunda metade do século, principalmente com o trabalho e a militância de Rosa Kliass.

As três etapas do paisagismo moderno brasileiro

Parque do Ibirapuera | Jardim de Calatéia

Ao contrário do que muitos ainda acreditam, o projeto do Ibirapuera é de Otávio Teixeira Mendes, e não de Burle-Marx. Do projeto desse último, apenas pequenas áreas foram utilizadas.

O período correspondente ao modernismo no paisagismo brasileiro se estende, segundo Soares, desde a construção do prédio do Ministério da Educação, em 1937, projeto paisagístico de Burle-Marx, até a construção da Praça Itália, dentro do Parque Marinha, em Porto Alegre, em 1990 – projeto de Carlos Fayett. Para o autor, esse período pode ser definido em três etapas:

Ministério da Educação, RJ | Jardim de Calatéia

O terraço-jardim do Ministério da Educação, é considerado o primeiro projeto de grande porte de Burle-Marx, e marca o início do paisagismo moderno brasileiro.

1937-1950: Tem início na construção do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, obra de Roberto Burle-Marx. É dele também o projeto do bairro Pampulha, em BH, considerado pelo autor o principal projeto do período. O tratamento paisagístico é funcional e, na maioria das vezes, tropicalista. Na arquitetura residencial, o jardim é adjacência, devendo transparecer e dar visibilidade à casa.

1950-1960: Período em que se consolida o processo de urbanização do Brasil. A verticalização toma conta das grandes cidades e, por consequência, a produção paisagística começa a se voltar cada vez mais para a fachada desses grandes edifícios. É o período em que Roberto Coelho Cardozo inicia sua cátedra na faculdade de São Paulo, e forma a primeira turma de arquitetos cujo trabalho na área adquire relevância nacional: Rosa Kliass, Miranda Magnoli e outros. A influência é nitidamente californiana (Eckbo e Halprin) no traçado de pisos e canteiros, e de Burle-Marx quanto ao plantio de espécies tropicais. Também é desse período a construção do Parque do Ibirapuera, cujo projeto é de Otávio Teixeira Mendes.

1960-1989: Período de consolidação, em que o foco se volta para as áreas recreativas, e a vegetação passa a dividir espaço com Playgrounds e, principalmente, com a piscina, que passa a ser o referencial do pátio interno. É nesse período, também, que a gestão de espaços públicos ganha espaço e se consolida na administração municipal, especialmente nas grandes cidades. Destacam-se, aí, os paisagistas Benedito Abbud e José Tabacow.

Considerações Finais (do Jardim de Calatéia)

Esse texto foi escolhido para figurar na Biblioteca de Paisagismo e Jardinagem porque sintetiza bem uma filosofia do site que é a de tratar a produção paisagística no seio das vanguardas artísticas, da produção cultural e dos processos sócio-históricos nos quais ela se insere. Trata-se de um texto introdutório, que pode servir aos estudantes e paisagistas de ofício para repensar a produção contemporânea na área. O texto completo segue abaixo. Façam bom proveito.

Fotos a partir de:

http://arquiamigos.org.br/blog/

A oposição aos pavilhões do parque do Ibirapuera

 

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.