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Parques urbanos. E se, ao invés de plantas, musgos e cogumelos?

Quando se trata de revitalizar ou reaproveitar áreas degradadas para transformá-las em parques urbanos, toda criatividade conta. Algumas idéias mais, outras menos extravagantes. Algumas, fadadas ao fracasso. Outras, destinam a um fim utilitário terreno que a comunidade, quando não esqueceu, abandonou e rejeitou: ali só cresce mato e entulho, dizem. Se faltam espaços para carros, vira estacionamento, na certa. Nem sempre se aplica. Se for edifício, tem de ser primeiro demolido. Se forem trilhos, cada cidade faz a sua escolha.

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Em Nova Iorque, transformaram em parque linear uma antiga área de viação férrea. O sucesso do parque chamou a atenção de outras metrópoles, tanto que se ainda não foi copiada, instigou arquitetos e designers a projetar parques urbanos semelhantes mundo afora. Outra inovação do High Lines, no entanto, foi a maneira como lidou com a vegetação que crescia pelo caminho. O mato que tomou conta e quase sempre mal visto, foi estudado, sua importância para a manutenção das áreas urbanas relevada, e, por fim, manteve-se, aqui e ali, por entre os espaços onde hoje andam, se encontram e aproveitam o tempo livre, os cidadãos daquela metrópole já bem conhecida por outro parque mais famoso ainda.

Mas, assim, como o “mato”, capim ou erva-daninha vão ganhando espaço no desenho da paisagem aqui e lá fora, também o reino fungae vai-se destacando, lá como aqui. Musgos, com maior freqüência, aparecem seja como forração, seja como adorno para o arranjo de orquídeas. Cogumelos, ao contrário, espanta que ainda permaneçam à margem. Ao menos quando o assunto é jardim. Na culinária são apreciados e conhecidos desde há muito tempo. De todas as espécies conhecidas, estima-se que em torno de 25% delas sejam comestíveis, embora um número muito menor seja realmente saborosa. Podem ser tenras, como o shimeji, ou ter um perfume tão característico e marcante quanto o preço que se lhes cobra por uma grama, como é o caso das trufas. Comestíveis ou não, cogumelos atraem também pela beleza.

Com o potencial que tem para compor uma paisagem, sua utilização emperra, na verdade, naquilo que um projetista não quer jamais perder de vista: o controle. Pode-se, é verdade, considerar a possibilidade de que não devam formar renques, maciços ou forrações, só para brincar um pouco com o jargão do paisagista. Que apareçam onde lhes aprouver! Resta, no entanto, a dúvida: como garantir que apareçam sempre? Pode até parecer tola a pergunta, porque, afinal, cogumelos sempre hão de pintar por aí. Você, no entanto, compreende bem a pergunta, não é mesmo? Imagine-se agora num túnel, com cogumelos e musgos, e luzes surgem do teto, mas o teto é furado, e por entre esses furos, os seres humanos trafegam na rua, e vez que outra olham para dentro do túnel.

Pois é mais ou menos essa sensação que tive quando li sobre o Pop Down, projeto vencedor do High line for London Green Ideas Competition, e que de imediato me fez saltar Lucy in the Sky na memória. Mas, além da ludicidade do tema, há vários outros aspectos interessantes no projeto. A começar pela área destinada ao projeto, um antigo trilho subterrâneo dos correios, destinado a entrega de correspondências ao comércio local. Outro, o estudo sobre o entorno, que faz do parque um estímulo a cultura do cogumelo. Os autores, o escritório Fletcher Priest Architects, pensaram até mesmo nas pessoas que se sentem atraídas pela temática, mas não pensam em se aventurar nos subterrâneos londrinos para desfrutar dela, projetando esculturas que adornariam outra praça, na altura da rua, rodeada por restaurantes dedicados a culinária de “tortulhos”.

Não há perspectivas de que o projeto seja realizado num futuro próximo, mas a sua concepção já está no rol das mais criativas nesse gênero.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.