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Quanto vale um telhado verde para o meio urbano?

Enquanto a “moda” dos telhados verdes engatinha no Brasil, convém discutir seus prós e contras de adiantado, para não cair em possíveis engodos que o mercado imobiliário e paisagístico possa nos proporcionar, no tocante a matéria. O assunto, por sinal, vai bem ao encontro de um outro texto, a ser publicado aqui no Jardim de Calatéia amanhã, sobre uma pesquisa realizada na Inglaterra e que alerta para os riscos que os modismos na jardinagem podem acarretar para o meio ambiente. De toda forma, abaixo segue a tradução de um texto de Charlotte Sankey da Creative Warehouse, retirado do Sustainable Cities Collective e que apareceu primeiro no Green Futures, sob o título “Can retrofit enhance urban ecosystems?. O original pode ser encontrado aqui.

O texto discute os benefícios e a viabilidade dos chamados telhados verdes, ou, ainda, telhados vivos, para o ambiente construído e medidas necessárias para se manter uma convivência saudável com o ambiente natural, tais como a conservação de morcegos e outros animais nem sempre bem vistos. Como um texto pró-telhados verde, coloca-se quase na defensiva, elencando todos os benefícios, sem discutir que tipos de males poderia acarretar quando feito de maneira errada ou sem levar em conta o clima e a vegetação local. Esse, aliás, um dos temas que se vê pouco debatido por aqui.

Uma descrição extensiva das possibilidades encontradas no mercado pode ser encontrado nesse artigo da revista Techné. Note-se, por exemplo, que o material utilizado nem sempre corresponde a uma saída mais radical em termos ambientais, valendo-se de derivados de petróleo etc. As alternativas que implicam reciclagem e utilização de materiais “não convencionais”, nem sempre são discutidas nesse tipo de publicação, é verdade.

Mas, além da visão da construção civil, é preciso levar em conta os tipos de espécies. Novamente, aqui, espécies nativas são tomadas como intrusivas e nem sempre bem quistas. Se as gramíneas utilizadas são mais resistentes, seria interessante pensar em outras espécies, epífitas, inclusive, que contribuiriam, além do mais, para o aspecto estético.

Por sinal, sistemas de irrigação e aproveitamento de água da chuva, por exemplo, também devem entrar no cálculo.

Deixo abaixo o texto, espero que suficientemente bem traduzido, e espero os comentários!

Todo nós gostamos de uma sala com uma bela vista, mas quando o assunto é planejar o futuro de um prédio, nossa tendência é esquecer o mundo que está além de nossos muros. Nos atemos a estrutura propriamente dita – sua fundação, seus pisos, cavidades e rachaduras – isolando o de seu ambiente natural. A performance de um prédio, contudo, depende das condições exteriores. Os melhores projetos são parte ativa nos seus ecossistemas locais: eles recolhem calor do sol, facilitam a passagem de ar fresco, ou tomam vantagens de árvores e encostas para sombreamento. E devolvem, também: habitat para a vida selvagem, drenagem da água da chuva, espaços verdes para manter fresco um denso bloco urbano.

O valor que os ecossistemas locais oferecem às áreas urbanas apenas começa a ser reconhecida. Um estudo recente em Nova Iorque descobriu que suas árvores valem cerca de 122 milhões de dólares graças a sua parte em reduzir a poluição, melhora estética e manter a temperatura interna das cidade confortável [ver “What´s a tree really worth?]. Mas esses serviços raramente são reconhecidos quando as equipes de planejamento se esmeram em projetos de retrofit. Suas avaliações rigorosas podem cobrir toda uma gama de tecnologias, medindo sua economia potencial de energia, custos e ganhos, mas talvez não levem em conta os benefícios que um telhado verde pode oferecer. Eles tentam minimizar o custo para o planeta através de emissões de carbono, mas não tomam em consideração o custo de um novíssimo loft para alguns morcegos que vivem nas redondezas.

É uma oportunidade perdida. Quando avaliamos o quadro mais amplo, nos damos conta de que muitas medidas fazem sentido tanto para o ambiente construído quanto para o natural. O caso dos telhados verdes, por exemplo. Não apenas eles isolam um prédio como um edredon, mas controlam a água da tempestade, ajudam a manter o frescor das áreas construídas além de estimular a vida selvagem e a presença de polinizadores preciosos. A vegetação também pode prolongar a vida útil de um telhado, reduzindo a corrosão dos materiais pela erosão e o clima.

O lado ruim é que telhados verdes são caros e muitas vezes custam o dobro de um telhado convencional. Mas o custo inicial pode retornar através de economia nos gastos com energia. Alguns projetos nos EUA reduziram o custo com ar-condicionado a quase um terço, de acordo com Paul Mankiewicz, Diretor Executivo do Gaia Institute, uma instituição ambiental novaiorquina.  Da mesma forma, 6000m² de área verde instalada no Canary Wharf, em Londres, resultaram em economias gigantescas na conta de calefação. De acordo com o gerente predial do 10 South Colonnade, come to Barclays Capital, o novo telhado cortou a necessidade de calor e resfriamento do último andar do prédio completamente, “economizando entre 4 e 5 mil libras por ano”. E, em Singapura, o Changi General Hospital vegetais cultivados hidroponicamente em telhados não apenas provêm comida aos pacientes como absorvem calor e resfriam as enfermarias que cobrem. A economia daí retirada é revertida aos cuidados com os pacientes.

A “poupança” energética não é o único benefício econômico dos telhados verdes. Eles também estão conectados a elevação da produtividade e a redução da rotatividade de pessoal nos escritórios urbanos – um fenômeno chamado “biophilia”.

Oito andares acima do agito da novaiorquina Avenue of the Americas, um pequeno bosque de trevos, gramas e flores mostra a passagem das estações. Esse telhado verde é o lar e trabalho dos arquitetos Cook + Fox.  Entre as janelas, os funcionários vêm libélulas e borboletas monarcas voam sobre flores perenes rosas e amarelas, brotando sobre o que anteriormente foi um deserto de cimento. Esse novo tapete de cores cresce dentro de sacos pretos de nylon, chamados Green Paks. Preenchidos com uma mistura de pedra e composto, oferece uma estrutura mais leve do que alguns telhados verdes, cujo composto e camadas de infiltração requerem reforço estrutural. Mais ainda, eles custam a metade do preço: 10 dólares para cada 0,1m², ao invés de entre 18-20. Os sócios da empresa asseguram que a instalação, completada em 2006, foi uma das melhores decisões que tomaram. Pode ser que os inquilinos no sétimo andar se beneficiam das qualidades refrigeradoras do telhado, mas Rick Cook afirma que os ganhos da empresa aumentaram por causa da vista.

O potencial de um ambiente construído biodiverso em aumentar os lucros já foi apontado por outros, também. British Land, o maior desenvolvedor do Reino Unido, planejou um “colar verde” em volta de um shopping Center em Teeside – tudo parte de uma reforma de 26 mil libras – para incluir uma toca de lontras, lagoas, porcos espinhos e gaiolas de pássaros.  “Tudo para que as pessoas se sintam mais conectadas a natureza e apreciem mais os lugares onde trabalham”, diz Sarah Cary do British Land. Mas ela admite que é difícil contabilizar o investimento nas contas. “Infelizmente, o valor [percebido] é mais social”, ela diz.

Rafael Marks da Penoyre & Prasad concorda: “Da maneira como funcionam os processos licitatórios mostra que a biodiversidade é um primo pobre. Tudo depende do que o cliente deseja”.

Atualmente, Marks está trabalhando na reforma de um centro recreativo para jovens, albergado em uma velha instalação elétrica num parque ao norte de Londres. Sua nova função será a de um centro educacional ecológico modelo, o que o torna uma grande oportunidade para fazer o prédio se adaptar melhor ao seu entorno.

Uma solução é fazer uma iluminação externa com uma película difusora, limitando a poluição visual, que elimina as chances de sobrevivência dos morcegos locais. Morcegos saem para se alimentar quando o sol se põe, mas o número crescente dos níveis de luz artificial em áreas urbanas acaba confundindo sua percepção de quando isso ocorre. “A iluminação será tão baixa quanto possível sem tornar inseguro caminhar pelo parque”, diz Mark. O lugar também terá telhados verdes, reciclagem de água cinza, e o máximo uso de luz solar nos prédios.

Mas, voltando aos morcegos. Os números decaem quando selamos nossas casas e lofts. O Bat Conservation Trust recomenda deixar um espaço de 10cm na borda do loft: apenas o necessário para permitir a entrada de morcegos, e também importante para a ventilação. Pode-se também evitar fazer uma tumba de morcegos ao se fechar um muro de cima abaixo, dando-lhes uma chance para encontrar uma saída.

Outro projeto de retrofit teve de planejar sobre uma congregação de corujas vivendo num celeiro do século XVIII. “Quando planejávamos as mudanças num celeiro perto de Cambridge, construímos uma casa para corujas em cada empena no fim do telhado”, diz Katie Thornburrow da Granta Architects que se especializa em design sustentável. Seu cliente, Chris Bristow, se sente “honrado que esses lindos animais vivam em nossa casa. O custo [da casa de corujas] foi de algumas centenas de libras”.

Parece barato o suficiente, mas os esforços poderiam permanecer como um nicho de mercado, sem qualquer incentivo financeiro a incentivar planejadores.

“Sejamos honestos”, diz Stuart Wykes, Diretor de Soluções em Construçãoo na Lafarge A&C UK. “As atividades de construção civil são, por sua própria natureza, intrusivas na paisagem. Mas elas também dão uma oportunidade de criar uma paisagem e um habitat: melhorar aquilo em que começou. Da maneira como vemos, o dia em que você começa a retirar o material, é o dia em que começa o esboço de restauração”.

Quem não concorda? A questão é, os concervacionistas e capitalistas ecológicos vislumbrarão a oportunidade que os retrofits apresentam em tornar nosso ambiente construído harmonizado com ecossistemas valiosos? Ou nossos esforços em cortar as emissões de carbono terão um custo para a vida local?

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.