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A importância de se regularizar a profissão de paisagista

Arquitetura da Paisagem é a relação entre natureza, paisagem e projeto paisagístico". Foto: Parc Citroën, projeto de Gilles Clement.

Arquitetura da Paisagem é a relação entre natureza, paisagem e projeto paisagístico”. Foto: Parc Citroën, projeto de Gilles Clement.

Só entrei em contato com esse artigo do arquiteto paisagista Julio Pastore sobre a importância de se regularizar a profissão de paisagista e sobre o debate em torno do PL 2043/11, de autoria do dep. Ricardo Izar, quando finalizava o primeiro artigo dessa série sobre o tema. Como o artigo já estava bastante extenso, julguei melhor não estendê-lo e deixar comentários e publicação do texto de Pastore para um segundo post. Mais uma oportunidade, por sinal, de aumentar nossa pequena biblioteca com artigos de alta qualidade.

Tentarei não fazer uma introdução muito longa, uma vez que vários dos aspectos discutidos pelo autor do texto podem ser desdobrados. Especialmente aqueles que se referem ao currículo dos cursos de Arquitetura Paisagística em outros países, que deverá engordar o debate quando formos abordar os cursos técnicos e de pós-graduação que são oferecidos em terra brasilis.

Arquitetura paisagística, ou paisagismo, não é arquitetura, nem agronomia

No Brasil, estamos acostumados a dizer ou ouvir, quando damos com um terreno vazio ou espaço desprovido de vegetação em edifícios e residências: “vamos meter um paisagismo”, ou “por quê não fazemos um paisagismo aqui”. O interlocutor, normalmente, pretende com isso, dizer “vamos ajardinar o lugar”, ou então, “vamos plantar alguma coisa”. Por algum motivo cultural ainda não estudado, parece que damos não importância menor ao plantio de espécies vegetais, mas sim a consideramos talvez coisa fácil, cuja empresa parece-nos tão descomplicada que seria inclusive luxo valer-se de um profissional experiente e com longa formação para levá-la a cabo.

Sobre esse ponto, Julio Pastore argumenta em direção semelhante ao posicionamento que fiz ao final do artigo Profissão de Paisagista deve ser regulamentada, mas falta debater muita coisa quando dissemos que era necessário introduzir a temática da paisagem em qualquer discussão que se faça a respeito da prática em arquitetura paisagística. Pastore é, naturalmente, mais específico e certeiro, e ultrapassa minha concepção inicial, ao escrever:

Contra a perspectiva que reduz o Paisagismo ao âmbito da jardinagem, deve-se notar que o foco do curso de Arquitetura da Paisagem é a relação entre natureza, paisagem e projeto paisagístico, ou seja, o estudo profundo do território e da paisagem com o intuito de proteger, restaurar ou enriquecer e representar sua beleza e sua natureza em jardins, cidades e, principalmente, na escala territorial.

 Argumentos contrários e a favor da regularização da profissão de paisagista

O autor cita documento redigido na “Convenção Européia da Paisagem”, realizada em 2000, cidade de Florença, Itália, em que se destaca a importância da paisagem para a formação cultural, a qualidade de vida e fundamental para entender a relação das populações humana com o meio ambiente, não apenas do ponto de vista ecológico, mas também econômico, cultural, ambiental e social:

Constatando que a paisagem desempenha importantes funções de interesse público, nos campos cultural, ecológico, ambiental e social, e constitui um recurso favorável à atividade econômica, cuja proteção, gestão e ordenamento adequados podem contribuir para a criação de emprego; (Carta de Florença, 2000, citada por Julio Pastore)

A importância dada por Pastore ao conceito de paisagem, não mais tomada como elemento bucólico ou natural, isolado da presença humana, como costumamos fazer no cotidiano é que lhe permite articular um discurso que destaca a prática da Arquitetura Paisagística da Arquitetura “tradicional, mas também da Agronomia, curso de origem do autor – mais tarde, ele cursou mestrado em Arquitetura Paisagística em Florença, e, atualmente, é doutorando na mesma área na USP. Mais ainda, é a partir dessa compreensão, que ele defende a urgência em se organizarem cursos de graduação e pós-graduação na área, que possam formar profissionais altamente qualificados para a prática.

Os argumentos contrários à regularização da profissão de paisagista são analisados a partir desta perspectiva. Notem que Pastore não elogia o PL 2043, mas limita-se a destacar sua importância. O autor tampouco aponta falhas no texto, mas sim procura defender o essencial, que é a regularização do paisagismo como área de conhecimento autônoma, não necessariamente vinculada a profissão de arquiteto. 

Como já disse anteriormente, deixarei a discussão curricular para um terceiro texto. Mas é importante também destacar esse ponto da argumentação do arquiteto paisagista, que, ao analisar um manifesto de arquitetos, apoiado, entre outras, pela ABAP e pelo recém criado Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), é categórico: embora esteja prevista como restrita aos Arquitetos Urbanistas, por Lei, estes mesmos devem reconhecer que as disciplinas oferecidas por esse curso, não os habilitam ao exercício da profissão como tal. Que, aliás, segundo o autor, nenhuma das áreas do conhecimento que, historicamente praticaram o paisagismo, oferecem, em seus cursos, disciplinas suficientes para ela, devendo o profissional, seja por autodidatismo, seja por meio de cursos de pós-graduação, especializar-se por conta própria.

Além disso, o argumento legalista (já existe uma lei que regula a profissão, por isso o PL 2043 não se faz necessário), ainda segundo Pastore, não é válido, uma vez que é a isso que vêm as novas leis, a corrigir falhas nas anteriores.

Esse documento que adicionamos a Biblioteca Jardim de Calatéia é de fundamental importância para se compreender a discussão em torno da PL 2043/11. Escrito com elegância e muito bem fundamentado, ultrapassa seu objetivo inicial, podendo servir inclusive como texto introdutório a quem queira compreender o paisagismo para além das fronteiras disciplinares.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.
  • Paulo Roberto da Silva

    Excelente comentário. Formação é mais importante do que a reserva de mercado por meio de atos legais que privilegiam conselhos profissionais. Há que se cuidar de se estabelecerem os mínimos conteúdos de conhecimentos exigíveis para se exercer a atividade de paisagismo. Simples assim: qualquer profissional, não importa o conselho ao qual tenha seu registro, cumpriu, comprovou ter cursado os conteúdos exigíveis… então conceda-lhe a atribuição profissional de paisagista.
    Paulo Roberto da Silva/ Ufla e Ministério da Educação