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Um jardim que caminha – a intervenção de Diana Balmori em Bilbao 2009

Esse jardim construido por Diana Balmori para a segunda edição do Bilbao Jardín em 2009 ganhou fama e permanece objeto de discussão na internet, apesar de não ter sido criado exclusivamente para a mostra. Trata-se de uma composição que se destaca pela aparente simplicidade no traço, mas que se revela complexa no contraste entre a forma e o seu conteúdo, a gama de cores e as plantas escolhidas, convertendo-se num belo arranjo na paisagem urbana.

Todas as fotos disponibilizadas aqui e em inúmeros blogs da internet provém foram disponibilizadas pela Balmori Associates. Encontrei-as primeiramente no Architizer, página web com belo aplicativo iPad. Em função da facilidade de acesso ao material, colocarei as fotos abaixo para que vocês possam apreciar clicando sobre elas e abrindo, assim, a galeria de imagens e falarei aqui um pouco sobre  minhas impressões.

Emolduradas por chapas de ferro, que lhe rendem maleabilidade, é um projeto de qualidade líquida, fluido entre dois pontos que acompanha a trajetória dos transeuntes, enfatizando a escadaria como lugar de passagem. Não há lugar para sentar-se junto ao jardim, exceto pelos degraus, o que não apenas demarca um sentido, como também acompanha a própria construção do lugar, entre duas torres, sem um corrimão que permita aos passantes subverter o sentido próprio da escadaria como lugar de transição e não de encontro.

De toda maneira, a moldura de ferro, um elemento visualmente mais leve que o concreto, mas igualmente marcante, sugere uma forma simples, um traço despreocupado da arquiteta. Essa aparente despreocupação, porém, disfarça um projeto que ousa interferir no trajeto, contrastando, aqui, com a forma rígida do lugar. Se a escadaria em questão se revela como um traçado retilíneo, que nos leva de um ponto X a outro Y, importando pouco se subimos ou descemos, mas que o façamos sem desviarmos nosso andar do objetivo, a intervenção de Diana Balmori nos propõe um novo jogo, curvilíneo, imitando, de alguma maneira, o curso de um rio que deságua em outro rio, ou no mar.

Quanto as plantas, interessante também apontar como fogem da impressão de um formato pré-concebido, sugerindo uma organicidade pouco comum ao jardim. Essa proposta, parece, pretende aliviar a tensão entre a fluidez da moldura e a rigidez sugerida pelo material utilizado. Por outro lado, ao imitar a cor da terra, a moldura se disfarça, deixando toda a impressão da obra por conta da organicidade já citada. Não seria exagerado dizer que a própria organização, silenciosa, das espécies, enfatiza o sentido líquido do projeto. O que, aliás, evidencia uma tendência no paisagismo, qual seja, a negação de um formalismo clássico, cujo maior representante é o jardim francês.

O ar informal alcançado pelos paisagistas contemporâneo, principalmente os europeus, me agrada. Discordo contudo de seus pressupostos. Desconheço se Balmori corrobora ou não com essa linha de pensamento, mas acho importante olhá-la de forma crítica, uma vez que ela disfarça, porquanto na prática não se desfaça dela, a manipulação pelo homem da natureza. Creio que é preciso repensar a maneira como encaramos essa questão, mas isso é papo pra outro post.

 

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.