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A imperfeição das rosas nas lentes de David Sim

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Famoso por suas fotografias de moda nos anos 90, David Sim volta suas lentes para o mundo botânico.

Essa série de fotografias do artista David Sim, que poderíamos chamar de A imperfeição das rosas, ensejam novos sentidos e, por que não dizer?, dão novo fôlego ao valor dessas flores em nossa cultura. Conhecido por suas fotografias de moda, David Sim lançou, em 2003, a série em livros intitulado David Sim Roses, explorando uma estética que explora a tenção e questiona o antagonismo de conceitos como como luz e escuridão, beleza e feiúra, elegância e decadência.

O valor das rosas como objeto cultural e estético

Não importa qual a sua preferência quando o assunto são flores e plantas, todos nós, amantes de orquídeas, ou de tulipas, temos de reconhecer a importância histórica e cultural que as rosas, desde há alguns séculos, têm para nós. Há todo um código cultural que acompanha o ato de dar uma rosa, cujo reconhecimento, é verdade, nos últimos anos vem se perdendo: se é amarela, significa amizade, satisfação e alegria; se vermelhas, amor ou paixão. E, daí por diante, para cada cor um significado especial. Também, há quem diga, o ato pode ser mal interpretado. Por exemplo, se a rosa for amarela e quem a oferece é pessoas desconhecida, melhor ficar atento.

Quem se aventura na história e nos possíveis sentidos que envolvem o cultivar e presentear rosas, encontra um universo tão rico quanto a beleza que a flor inspira. Eu lembro-me ainda de como, quando pequeno, entristecia e me alegrava com o esplendor e decadência da rosa representada no desenho animado do Pequeno Princípe, conforme ele se afastasse ou voltasse para ela. E, anos mais tarde, ao assistir o já clássico filme The Wall, dirigido por Alan Parker a partir da obra do grupo inglês Pink Floyd, a mesma rosa surgia como símbolo, ao mesmo tempo, de beleza e sofrimento. As rosas, afinal, parecem carregar em si um duplo sentido de beleza e crueldade. A flor, sutil e delicada, é protegida com espinhos e não são poucos os contos infantis em que essa ambiguidade se faz presente: por exemplo, em Rapunzel, cuja torre era cercada por rosas que não lhe serviam como adorno, senão como ameaça; ou ainda em Alice no País das Maravilhas, em que o nascimento de uma rosa branca desencadeia uma série de confusões no reino da rainha vermelha.

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Porquanto simbolizem harmonia e beleza, as rosas mantiveram seu domínio inclusive no campo artístico. No século XX, no entanto, a rosa perde espaço como motivo artístico, e, mesmo entre os amantes da floricultura, ganharam espaço flores de, digamos, estética mais agressiva. Orquídeas e antúrios, de atrativo exótico, mesmo quando originárias de muito próximo, o Brasil ou a Colômbia, nesse último caso, mostram-se mais adequadas ao gosto moderno. Ainda assim, permaneceu a rosa com sua tímida e delicada beleza, atraindo seus admiradores. E, claro, a mudança na sensibilidade estética teria de, um dia, afetar-lhe.

david-sims-photography-8O caso das fotografias de David Sim, por exemplo. Fotógrafo influente no mundo da moda, nos anos 90 causou frisson no meio ao fotografar modelos em roupas aparentemente despojadas e os cabelos desgrenhados, em poses igualmente iconoclásticas, ao menos em se tratando de fotografia de moda. O mesmo fotografo deitou sobre as rosas, um olhar parecido, que valoriza tons escuros e desbotados, para representar a imperfeição das rosas naquele exato momento em que começam a perder atrativo aos olhos comuns: quando perdem seu esplendor e decaem, perdendo pouco a pouco suas pétalas e murchando. Como no caso das modelos, David Sim não alcança um resultado realmente contestador, nem é capaz de subverter o conceito de beleza, senão elevá-lo a outro patamar, deslocando seu sentido para onde normalmente não o encontramos.

O que é curioso notar, nesses ensaios, é que o fotógrafo traduz para o mundo botânico o mesmo tipo de iluminação e movimento que lhe consagraram no mundo da moda, a tal ponto que, mesmo sendo material inerte, já morto, por assim dizer, as flores parecem desafiar a câmera como aquelas modelos esquálidas que, nos anos 90, David Sim travestiu de rebeldia. E, é claro, cá entre nós, as rosas tem uma performance muito mais interessante.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.