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A poética da ilustração científica nos desenhos de Lu Mori

Detalhe do casco de Peroba-rosa em aquarela. Imagens cedidas pela artista.

Detalhe do casco de Peroba-rosa em aquarela. Imagens cedidas pela artista.

Formada no curso de Artes Visuais, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Lu Mori é uma artista visual cujo trabalho investiga as relações entre a arte e a pedagogia através de ilustrações científicas. Como profissional de design editorial e de web na produtora ZN, conhece bem a importância do desenho científico não apenas como suporte do texto didático, mas também como forma de atrair a atenção do estudante para o assunto discutido. Mais ainda, como ela mesma afirma em seu trabalho de conclusão de curso: 

A ilustração científica tem enfoque na riqueza e precisão dos detalhes. Ela transmite uma mensagem (…). E nesse ponto os poucos teóricos da área acreditam que ela não pode ser substituída (…) afinal [a ilustração] é a única maneira conhecida de conceber uma mensagem visual com a possibilidade de suprimir informações desnecessárias.

Com efeito, a ilustração científica tem sido utilizada com fins tanto didáticos quanto para atrair o gosto de determinado público para uma espécie botânica. Também foi muito utilizada como peça decorativa ou até mesmo para transmitir uma mensagem específica a um povo. Sobre esse tema, o Jardim de Calatéia já publicou alguns textos como Arte Botânica no Século XIX, e outro sobre a curiosa obra político-religiosa-botânica de Robert Thornton, Temple of Flora. Outro exemplo, é o Códice Botânico de Augustus, obra romana construída por ordem do imperador Augusto afim de transmitir ao povo uma mensagem de paz.

Detalhe em nanquim do casco da Peroba-rosa. Imagens cedidas pela artista.

Detalhe em nanquim do casco da Peroba-rosa. Imagens cedidas pela artista.

Esse textos dão conta de como, ao longo da história, a ilustração botânica não se limitou a exemplo didático, senão que serviu também para construir ou fortalecer os vínculos de uma população seja com a espécie, seja com determinado motivo simbólico que ela representa. Como exemplo atual, podemos citar a própria Universidade do Estado de Londrina, que faz uso da peroba-rosa como símbolo botânico para representar seu ideal pedagógico e científico.Esse o objeto de estudo dos desenhos de Lu Mori, que ilustram esse artigo e são tema de seu trabalho de conclusão de curso.

Quando conheci Lu, três semanas atrás, ela contou-me que não apenas o laço afetivo que nutria pela árvore, mas também pelo fato de que ela representa a universidade, levou-a a escolher a espécie como temática. 

Como já trabalhasse com ilustrações didáticas, Lu quis aprimorar sua técnica e conhecimento em seu último trabalho acadêmico. Dentro do curso, porém, encontrou resistência. Por um lado, dizia-se que a ilustração científica era um recurso didático sem valor artístico intrínseco. Por outro, que até mesmo como recurso científico, havia sido surpassada pela fotografia. 

 

 Galeria: Ilustrações de folhas e aparelho reprodutivo em Nanquim e aquarela

 

Poética da ilustração e ilustração poética nos desenhos de Lu Mori

Para elaborar seu contra-argumento e defender a validade da técnica do desenho botânico, no campo artístico como no cientifico, Lu Mori recorreu à obra do artista plástico e médico Sérgio Russo e de Frank H. Netter, um dos mais conhecidos autores de atlas médicos.  Com Russo, a artista teve a oportunidade de frequentar o curso de formação e capacitação de profissionais para a ilustração médica. 

Foi no exemplo de  Margaret Mee, porém, que a artista desenvolveu seu argumento final, demonstrando como a ilustração botânica ainda é não somente válida como recurso científico e didático, mas também possui interesse intrínseco para a arte. Esse último exemplo ainda sintetiza aquilo que se disse antes sobre como a composição do desenho é capaz de fortalecer vínculos que extrapolam os campos artísticos e científicos.

Na série de desenhos que trazemos aqui, Lu Mori explora o tema da Peroba-rosa sob dois pontos de vista. Primeiro, dando ênfase a formas isoladas e detalhes e, segundo, de maneira contextual. Valendo-se da teoria da Gestalt, a artista destaca a árvore frente a edifícios históricos ou marcantes no cotidiano dos usuários do campus da UEL, ressaltando sua importância no contexto da universidade. Pode-se dizer: ao fazê-lo, destaca sutilmente como a peroba-rosa como elemento visual e emocional importante para desenvolvimento da universidade e seus frequentadores. 

Por outro lado, a manutenção no campus e sua assunção como símbolo da universidade, faz da Aspidosperma polyneuron Müll. Arg., nome científica da espécie, uma protegida da instituição. De madeira muito apreciada na construção civil para edificações, assoalhos, além da composição de mobiliário de alta qualidade, essa árvore encontra-se na lista de espécies para conservação. 

Essa série de desenhos de Lu Mori sobre a Peroba rosa dão conta de apenas alguns dos sentidos que a artista encontra para a ilustração científica. Em Setembro, ela estréia série inédita de desenhos abstratos e científicos sobre as Phalaenopsis na UMAPAZ, no Parque Ibirapuera e nós aqui, aguardamos ansiosos para publicá-los no Jardim de Calatéia.

  

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.