Home / Artes / Arte Botânica / A arte botânica no século XIX

A arte botânica no século XIX

Louis van Houtte | Jardim de Calatéia

Louis van Houtte, editor do Flore des serre, viveu no Brasil de 1834-36, e explorou as províncias de Minas Gerais, Goias, São Paulo, Mato Grosso e Paraná. A Flore de serres permaneceu ativa depois de sua morte, em 1876, encerrando as atividades em 1883.

Ainda que a obra de Carl von Linnaeus, Systema Naturae (1735), seja considerada a pedra fundamental para o estabelecimento da botânica como ciência, foi no século XIX, principalmente com a publicação da obra de Charles Darwin (1859), que ela atingiu esse status. Impulsionaram esse acontecimento as inúmeras revistas e os relatos de expedições ao “novo mundo”. A incursão de expedições, notadamente ao Brasil, rendeu ao mundo científico o conhecimento de um número expressivo de espécies, grande parte delas posteriormente adotadas na jardinagem e no paisagismo. É desse período, a famosa expedição de Carl von Martius, cuja obra compilada só foi publicada em 1906 . A Flora Brasiliensis catalogou um número impressionante de 23 mil espécies da flora nativa. É, sem sombra de dúvidas, o maior esforço nesse sentido de todos os tempos.

Ao lado dessas empresas, atuaram artistas botânicos, geógrafos, exploradores, aventureiros e, naturalmente, botânicos, cujas descobertas eram registradas em livros e revistas especializadas. Constituem material de interesse não apenas histórico, mas ainda científico (mesmo quando já ultrapassados) e de relevância artística considerável. As regras da ilustração científicas ainda por ser fixadas, os periódicos e revistas apresentam variações curiosas na forma de desenhar a paisagem e a flora do novo mundo. Assim é que, na já apresentada The temple of flower de Robert Thornton, os motivos são patrióticos, enquanto em Flore de serres e des jardins de l’Europe, revista dirigida Louis van Houtte, anos mais tarde, a objetividade na apresentação dos órgão sexuais e o detalhe das folhas e dos frutos caracterizam a evolução do método científico.

A cronologia das obras, no entanto, é de menor importância, do ponto de vista artístico, ao menos. A arte botânica floresce e, com ela, um público que consome e possui gostos diferentes quanto ao estilo e ao retrato da flora. Tanto assim que Robert Thornton desculpa-se com seus leitores, ao retratar o Dracunculus vulgaris, espécie nativa dos Balkans, cuja conformação da inflorescência com a bráctea, segundo ele, remete ao ato sexual.

Mas, além das curiosidades históricas e artísticas, as viagens que forneceram o material para essas publicações deixaram para o Brasil um legado histórico e cultural de alta importância. Em primeiro lugar porque foi a partir delas que começou a se desenvolver no país o gosto pelos jardins públicos e residenciais, e, consequentemente, a produção bibliográfica, o comércio e o estabelecimento de viveiros e jardineiros e paisagistas, a maioria deles, num primeiro momento, franceses, diga-se de passagem.

Billbergia liboniana | Jardim de Calatéia

A Billbergia liboniana, conforme o desenho publicado na Flore des Serres, de 1854.

Com o estímulo do governo brasileiro, a partir de 1822, inúmeras expedições, internacionais, principalmente, mas também algumas comandadas por brasileiros, percorre o interior em busca de novas espécies e do mapeamento da paisagem nacional. Aliado a isso, começam a chegar paisagistas e jardineiros, especialmente da França, e, com eles, as publicações. Em 1876, um Frederico de Albuquerque funda o primeiro periódico nacional, como nos relata Guilherme Mazza Dourado, a Revista de Horticultura – Jornal de Agricultura e Horticultura Prática, cuja inspiração era a Revue Horticole. Journal d’Horticulture Pratique.

Flore des serres et de jardins de l'europe

Expediente do Flore de serres et des jardins de l’EEurope

Porquanto o interesse da elite nacional, nesse período, fosse a imitação dos jardins europeus, essa atitude teve uma consequência no mínimo curiosa. Foi a partir do interesse europeu pela flora tropical que as elites locais começaram a dar atenção para as plantas da terra. E, embora Burle-Marx seja o patrono do paisagismo tropical, talvez tenha sido a partir de um arbusto cuja floração se dá envolta por folhas modificadas, de coloração branca ou rosa que, em seu retorno, conquistou primeiramente o gosto nacional sob a alcunha de bougainville.

Nessa série de artigos, o Jardim de Calatéia vai contar um pouco dessas histórias, através das revistas e publicações do século XIX, com foco na arte botânica do período. A partir dessa segunda-feira (06/08), começamos as publicações, com a primeira subsérie, sobre o Flore des serres e des jardins de l’Europe, periódico publicado por Louis van Houtte.

Fontes:

Guilherme Mazza Dourado: Belle epóque dos jardins, Editora Senac, 2011.

Guilherme Mazza Dourado: Modernidade Verde, Jardins de Burle-Marx, 2009.

http://www.cactuspro.com/biblio/en:floresje

http://www.plantexplorers.com/

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.