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A Flora Brasiliensis de Von Martius

Von Martius empreendeu a maior obra descritiva sobre a flora brasileira

Von Martius empreendeu a maior obra descritiva sobre a flora brasileira

Escolha uma espécie vegetal qualquer, de ocorrência natural no Brasil, e busque no Google valendo-se do nome científico. Escolha, por exemplo, uma Calathea burle-marxxii. O resultado vai dar quatro ou cinco resultados em língua portuguesa e, após, uma pletora de sites com referências a uma blue ice, Calathea burle-marxii “blue ice”, com o nome comercial devidemente incorporado. Mais importante, vai encontrar mais e mais detalhadas informações, na maioria das vezes, do que em sites nacionais. Não se trata de incompetência nem negligência dos pesquisadores brasileiros, tampouco se deve inteiramente ao uso quase indiscriminado de espécies exóticas de nossos paisagistas. Trata-se de uma questão cultural, que mesmo os esforços de Burle-Marx, e outros, foram incapazes de mudar totalmente.

Espécie de Calatéia na obra de Von Martius

Calathea sp.

A interesse do Brasil pela sua flora, diz o pesquisador Guilherme Mazza Dourado, em seu Modernidade Verde, inicia-se com a Independência. Não era um trabalho protecionista, é verdade. O império regulamentou a pesquisa científica, exigindo que parte das espécies coletadas fossem endereçadas ao Museu Nacional do Rio de Janeiro. A iniciativa não resultou, de imediato, num estímulo substancioso a pesquisa nacional. Nem pôs rédeas, de fato, ao já conhecido assédio internacional pela flora nativa. Ao contrário, estimulou, sem o retorno esperado, a chegada de inúmeras expedições que vinham esquadrinhar e levar para a europa espécimes brasileiras. O resultado não foi de todo pernicioso e, a longo prazo, levou a uma curiosa redescoberta das plantas nativas através de um olhar europeu. Espécies como a Primavera, Bougainvillea glabra, retornaram ao país com ares exóticos. O próprio Burle-Marx nunca deixou de mencionar como se interessou pela flora brasileira, numa bem conhecida história, que vale sempre citar:

Em Berlim, freqüentei assiduamente o Jardim Botânico de Dahlem. Esse, cujas coleções de plantas, agrupadas por Engler (14) sob critérios geográficos, foram para mim vivas lições de botânica e ecologia. Foi ali onde pude apreciar pela primeira vez, de forma sistemática, muitos exemplares da flora típica do Brasil. Eram espécies belíssimas quase nunca usadas em nossos jardins”

Com o segundo reinado, o interesse se volta, brevemente, para o cultivo agrícola de espécies Brasileiras. O surgimento do movimento romântico no país deu, no plano cultural, a base necessária para se voltar a atenção para os valores Nacionais. Em nenhum dos planos, econômico ou cultural, a realização foi completa. Em parte porque por contradições próprias da economia (sendo um país exportador, o Café, recém introduzido, tornava-se opção mais viável); em parte, porque, no plano cultural, o ideal romântico era demasiado alheio a realidade para pintar com esmero a diversidade do país.

De modo que, para o período, a contribuição mais importante tenha a sido a de Karl Friedrich Von Martius, cuja obra elenca, descreve 22 mil espécies, das quais 3 mil devidamente ilustradas. Von Martius chegou ao país em 1817, cinco anos antes da Idependência, portanto. Em 1840 inicia os trabalhos da sua Flora Brasiliensis, cujos 15 volumes só serão terminados em 1906. A obra, finalizada por Ignatus Urban, contou com material de nada menos do que 123 expedições. Trata-se de um trabalho monumental, que pode ser encontrada na Abebooks, a maior rede de sebos do mundo, por até oito mil dólares. O preço da obra não causa tanto espanto quanto o seu valor científico, incomensurável. Ainda hoje, a mais importante, em termos extensivos, pelo menso, na área.

Que essa obra esteja sendo digitalizada e publicizada via internet por iniciativa público-privada nacional é de se dar o devido valor. Talvez seja, para os “bibliófilos”, a mais ousada já feita no Brasil. Seria bom que contribuísse não apenas para o conhecimento público de nossa flora, mas também conter a dependência mercadológica que o paisagismo e o cultivo ornamental de plantas ainda carrega com o mercado externo. Não apenas na farmacologia, mas também aqui, o Brasil permanece a mercê das iniciativas extrangeiras.

O projeto de digitalização pode ser acessado através deste site e, parte da obra está disponível por imagens na Fapesp.

Em outro artigo, publicamos uma comparação entre uma das paisagens retratadas no livro e o uma fotografia atual da mesma.

 

http://mundobibliotecario.wordpress.com/2010/11/26/1579/

Modernidade Verde – Jardins de Burle-Marx (Link para a livraria cultura)

Entrevista na Vitruvius

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.