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Ilustrações de bromélias e suculentas no Flore des Serres

O século XIX é o século da afirmação da biologia como ciência moderna, com objeto e método científico próprio. Um processo que se inicia com o método taxonômico de Linneau e culmina na obra de Charles Darwin, que retira dela todo resquício de religiosidade, a Origem das Espécies. É, também, o século do florescimento da arte botânica, não apenas como ilustração científica, mas também como objeto artístico, com um público cativo e valor comercial. Nesse período, principalmente na Europa, surgem diversos periódicos e livros em edições luxuosas, ilustrados pelos melhores desenhistas botânicos. Artistas e aventureiros que percorriam o mundo atrás de novas espécies, ou que trabalhavam a partir de material coletado alhures. Neste segundo artigo sobre o periódico Flore des serres, vamos falar sobre as ilustrações de bromélias e suculentas no periódico.

Louis van Houtte e o Flore des serres

No primeiro artigo dessa série, situamos o problema em torno das espécies nativas do Brasil, como foram coletadas e estudadas em continente europeu, o sucesso do cultivo e, consequentemente, seu retorno como produto comercial, de uso possível no paisagismo. Personagem primeiro dessa saga, Louis van Houtte e seu anuário Flore des serres et des jardins de l’Europe.

Van Houtte inicia sua atividade como botânico amador na Bélgica, mas é a partir de sua estada de dois anos no Brasil que passa a coletar e estudar espécies tropicais. Retornando ao seu recém-formado país, passa a editar o periódico, um dos mais importantes da época, e constrói o que foi, à época, o maior viveiro do continente: o Horto Vanhoutteano. Daí, editava, ilustrava e distribuía o Flore de serres, e vendia sementes para toda a Europa.

Mais do que um periódico científico, o Flore des Serres instruía sobre o cultivo e servia como aporte para a atividade comercial do botânico Belga. É esse o tempo da orquidomania, sucedânea da paixão pelo cultivo de tulipas, e que se alimentava primeiramente do sucesso das expedições científicas ao novo mundo e, posteriormente, do sucesso do cultivo nos diversos viveiros europeus.

Ilustram suas páginas, além de orquídeas, bromélias e suculentas, que são o assunto desse capítulo.

Bromélias e suculentas

As epífitas causaram verdadeiro fascínio nos europeus. No continente, figuram poucas espécies desse tipo, a maioria sendo parasitas. Orquídeas e bromélias, pela floração e folhagem, caem logo no gosto estrangeiro. As últimas tendo ainda atrativo especial para os biólogos e botânicos, visto que, como já disse Burle-Marx, abrigam verdadeiros pântanos, com riquíssima fauna, quando não ainda acabam suportando outras espécies vegetais, parecendo mais um micro-ecossistema que simples vegetal.

Quanto aos cactus, recai o gosto especialmente pela floração, normalmente curta, com duração de até uma noite. No The temple of Flora, vemos retratada a Nightblooming Cereus, Selenicereus grandiflora, epífita, também.

Logo abaixo, listamos, primeiro, as cactáceas, e depois as bromélias, que figuram no Flore des Serres no período que se estende do primeiro tomo, de 1845, até a edição de 1856. Em suas páginas, podemos acompanhar a evolução dos estudos, os enganos quanto a taxonomia, as correções, as dicas de cultivo e até mesmo a sempre presente nota de que se trata de pseudo-parasitas. Destacam-se aqui, as seguintes espécies:


Cactos e suculentas

CEREUS TWEEDIEI (syn. de Cleistocactus baumanii)

 Cleistocactus bumanii | Jardim de Calatéia

Et.: Cereus, do grego xéros, que significa cera, vela ou tocha. Remete ao formato em candelabro de alguns cactus. Tweediei, homenagem ao botânico J. Tweedii.

 Cleistocactus baumanii, nome atualmente aceito pela comunidade científica, é uma espécie de ocorrência nas regiões fronteiriças de Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia com o Brasil. Em nosso país, ocorre uma variedade no Mato-Grosso. O artigo no Flore de serres é assinado por J. E. Planchon, professor de história natural em Nancy, em 1850, e começa elogiando a imponência e elegância das cactáceas. Planchon compara a força e vivacidade das cactáceas com o que ele chama de “atitude morna” das pteridófitas. Em seguida, faz um passeio pelas espécies presentes na estufa de Kew e, sobre o cactus que ora dissertamos, diz o seguinte:

Quelle élégance de coupe , quelle harmonie de teintes dans ces cornes d’abondance, d’où s’échappela gerbe de fils carminés.

 PORTULACA GRANDIFLORA

 Portulaca grandiflora | Jardim de Calatéia

O gênero Portulaca tem ao menos treze espécies conhecidas no Brasil. Entre elas a que aqui apresentamos. Trata-se de uma planta comum na vegetação de restinga do sudeste brasileiro, sendo que, na região sul, ocorre principalmente a Portulaca amilis.

 Bromelias

 AECHMEAE FULGENS (1846)

 Aechmea fulgens | Jardim de Calatéia

Etimologia: Aechmea, palavra latina para aichme do grego, lança, arma de ponta. Fulgens, latim, fulgente, brilhante.

Espécie bem conhecida entre os amantes de bromélias, essa Aechmea ocorre na Bahia e aparece no segundo tomo da Flore des Serres, em 1846. O colaborador do anuário informa que desde já, sua floração era comum nas estufas do Musée d’Histoire Naturelle de Paris.

TILLANDSIA SPLENDENS (syn. de Vriesea splendens)

Vriesea Splendens | Jardim de Calatéia

Et.: Em homenagem a Elias Tillandsius, professor de física, contemporâneo de Linnaeu

Os leitores do Jardim de Calatéia, vendo a ilustração, já terão notado o engano. No segundo tomo, de 1846, a hoje bem conhecida Vriesea splendens, natural do Rio de Janeiro, figura no gênero Ttillandsia. Não o é. E a correção sai em 1850. Os botânicos certamente se deixaram levar pela aparente semelhança na inflorescência. Vale citar a nota corretiva do sexto tomo (1850):

 Sans parler des caractères floraux, les Vriesia se distinguent au premier coup-d’œil entre toutes les bromélia-cées, par l’imbrication strictement distique de leurs bractées; elles ont une inflorescence caractéristique, un caractère superficiel facile à saisir, et c’est le point important pour l’horticulteur et le simple amateur qui cherchent dans les plantes des formes plutôt que des subtilités de structure.

A diferença, pois, que um amador não nota, mas um botânico especialista, com um golpe de olhar, sim, é o caráter dístico das brácteas. Em outras palavras, a brácteas da inflorescência formam-se duas a duas.

 BILBERGIA RHODOCYANEA (1847)

 Aechmea Fasciata | Jardim de Calatéia

Et.: Em homenagem a J. Georg Billberg, botânico sueco.

 O nome aceito da Bilbergia rhodocyanea, atualmente, é Aechmea fasciata. Trata-se de uma espécie bem difundida no uso paisagístico.

 TILLANDSIA IONANTHA (1854-55)

 Tillandsia ionantha | Jardim de Calatéia

Espécie pouco cultivada como ornamental, é comum principalmente no México e América Central, mas ocorre também no Brasil. O gênero Tillandsia vem ganhando popularidade nos últimos anos, e também é um dos mais ameaçados, em função do desmatamento e do pouco aproveitamento ornamental. Algumas espécies, como a Barba-de-bode, são confundidas com parasitas. Não o são. As tillandsias são purificadoras de ar.

 BILBERGIA QUESNELIANA (syn. de Quesnelia quesneliana)

 Quesnelia quesneliana | Jardim de Calatéia

Atualmente, Quesnelia quesneliana. Espécie endêmica da mata-atlântica brasileira. O nome aceito, Quesnelia, provém de M. Quésnel, cônsul francês para a Guiana Francesa. As quesnelias são muito parecidas com as bilbergias, daí a confusão inicial. Apresentam folhas verticais geralmente espinhadas. Devido a essa características, são ainda pouco requisitadas para o cultivo doméstico. A espécie em questão é epífita e requer alta luminosidade para ser cultivada. É encontrada, como a maioria das quesnelias, principalmente no Rio de Janeiro.

BILBERGIA LIBONIANA (syn. de Quesnelia liboniana)

 Quesnelia liboniana

Outra espécie brasileira de mata-atlântica, outra que migrou do gênero Bilbergia para o gênero Quesnelia. A haste floral se difere um pouco de seus pares. A característica comum com o gênero Bilbergia, de folhas rijas e verticais é facilmente notada. Valem as mesmas dicas de cultivo para a espécie anterior.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.