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O periódico Flore des serres et des jardins de l’Europe

Louis van Houtte | Jardim de Calatéia

Louis van Houtte (1810-1876)

No primeiro artigo dessa subsérie sobre a arte botânica do século XIX vamos introduzir o periódico Flore des serres et des jardins de l’Europe. Nosso objetivo é dar ao leitor do Jardim de Calatéia conhecer a produção artística e científica, o estabelecimento de novos periódicos e, consequentemente, o surgimento dos primeiros jardineiros e paisagistas em terras brasileiras, no século XIX. No primeiro artigo, preparamos um resumo do tema, e, durante essa semana, vamos nos concentrar sobre a história de Louis van Houtte e o periódico Flore de serres et des jardins de l’Europe.

Desde o início da conquista da América, os países europeus, especialmente Portugal, Espanha, França e Holanda, encarregam artistas, topógrafos, exploradores e botânicos do levantamento paisagístico dos recursos naturais do novo continente. No caso brasileiro, destacam-se o estabelecimento da França Antartida, sob a tutela de Nicolas Durand de Villegagnon, na região da baía de Guanabara, logo no primeiro século da conquista portuguesa (1555); e o estabelecimento dos holandeses na Capitania de Pernambuco, sob o comando de Maurice de Nassau, em 1630. No século seguinte, Portugal envia uma missão chefiada pelo brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira, cujo objetivo era a coleta de material para o Jardim Botânico da Ajuda.

A partir de 1800, as expedições estrangeiras passam a aportar o país em caráter oficial, a convite ou com a permissão do governo local, primeiramente no período em que se estabelece por aqui a corte portuguesa e, em seguida, após a independência. Personagens dessa história os bem conhecidos Jean-Baptiste Debret e Nicolas Antoine Taunay, pertencentes a missão artística francesa, e que percorreram o país retratando não só a paisagem, mas os costumes do povo.

As leis admitiam que os exploradores a serviço de nações amigas pudessem coletar certa quantidade de espécimes naturais desde que doassem uma porcentagem dessas ao governo brasileiro. Condição nem sempre cumprida. Assim, outros viajantes chegavam menos pela convicção de permanecer longo período do que pela necessidade de cumprir obrigações com um governo estrangeiro ou mecenas para a viagem.

Louis van Houtte

Em 1834, chega ao Rio de Janeiro um Louis Benoit van Houtte, cuja fama ainda estava por ser construída. Belga de origem, aos 24 anos, van Houtte acumulava um cargo no ministério das Finanças e estudos de botânica no Jardim Botânico daquele país, com o qual colabora até 1838. Em 1833, em parceria com Charles François Morren, inicia a edição e publicação do jornal L’Horticulteur Belge. Recém casado, sofre com a perda da esposa e, em 1834 aceita o convite de Edouard Parthon de Von (que recém havia adquirido uma propriedade em Middelheim, onde hoje se encontra um museu de esculturas ao ar livre) e do rei Belga, e parte para o Brasil afim de coletar orquídeas e suculentas. Parthon de Von e o rei seriam responsáveis pelas despesas, enquanto o Jardim Botânico, então uma instituição comercial, compraria toda semente que Louis van Houtte pudesse coletar.

Ilustração da Vriesea splendens, planta que surge em 1846, no Flore des serres, como Tillandsia splendens.

Van Houtte parte da Bélgica em janeiro de 1834, chegando em maio do mesmo ano ao Rio de Janeiro. Permanece dois anos aqui, onde escala sozinho o Corcovado e percorre o interior, chegando a províncias como Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo e o Paraná. No retorno à Europa, funda uma escola de horticultura e passa a enviar jardineiros e botânicos para o Brasil, a fim de coletarem orquídeas e outras espécies. Em 1845, funda o Flore des serres et des jardins de l’Europe, periódico anual que vai dirigir até o ano de sua morte em 1876.

Flore des serres et des jardins de l’Europe

Detalhe da flor e folha da Vriesea splendens, aqui apresentada como Tillandsia splendens

De 1845 a 1888, o periódico teve 23 números, totalizando 2000 pranchas ilustradas em cores. Cada uma acompnhando a descrição da espécie em três línguas: francês, alemão e inglês. Além das plantas descritas, os volumes traziam contribuições de horticultores europeus quanto ao sucesso do plantio ou do estabelecimento de um novo cultivar e atualizações quanto a classificação científica delas. Em 1846, por exemplo, apresenta a Tillandsia splendens. Em 1950, anuncia a realocação no gênero Vriesea, logo Vriesea splendens

O estabelecimento comercial de Van Houtte, que contava com estufa e berçário de plantas, disseminou inúmeras espécies naquele continente. Foi responsável também por experiências que levaram ao estabelecimentos das condições necessárias para que algumas delas fossem reproduzidas e corretamente cultivadas em solo europeu. Foi ali, por exemplo, que se conseguiu pela primeira vez obter o florescimento de uma Victória Régia no continente.

Durante essa semana, vamos mostrar o trabalho botânico em torno de espécies brasileiras pertencentes ao grupo das suculentas, bromélias e orquídeas. Acompanhe a série através dos links abaixo, ou assinando o nosso feed.

Quanto as relações entre van Houtte com o Brasil, a verdade é que, em toda sua obra, ele nunca se referira a esse período de sua vida, fazendo-o apenas a amigos intímos. Homem de poucas palavras, as descrições botânicas de nosso autor eram curtas e economizavam sentimentalismos. Não obstante, num dos últimos números que publicou, em 1875, quando escrevia sobre a Auracaria brasiliensis, Louis Benoit van Houtte deixou escapar essas últimas linhas: Adieus, Brasil, terra de doces lembranças.

Fontes:

http://www.dezenovevinte.net/artistas/viajantes_mla2.htm

http://www.victoria-adventure.org/water_gardening/biographies/louis_van_houtte.html

http://www.br.fgov.be/PUBLIC/GENERAL/HISTORY/houtte.php

http://en.wikipedia.org/wiki/Louis_van_Houtte

http://www.meemelink.com/books_pages/22636.horticulteur.htm

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.