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Jardim-Fronteira, OFFICE Kersten Geers David Van Sveren

 

Em algum lugar do globo, descansa, guardado a sete chaves, o velho espírito internacionalista, que, se bem me lembro, pregava a união dos povos e a dissolução das fronteiras. Em que pese tê-lo visto a vagar, ainda que por curto período, quando da popularização da Internet, cujas fronteiras, porquanto bastante permeáveis, translúcidas, móveis até, existem.

Será que alguém mais aí, mesmo que ingenuamente, acha estranho que, vinte e seis anos após a queda do Muro de Berlim, o anunciado “fim da história” esteja não apenas distante, como devidamente enterrado em um cenário tão árido quanto a fronteira EUA-México?

Para quem, como eu, é capaz de um tal espanto, esse Jardim-Fronteira, paradoxalmente utópico/distópico pode interessar. 

Projetado pelo escritório dos arquitetos belgas Kersten Geers e David Van Sveren, Jardim-Fronteira é um lugar que concentra sonhos, ambições, frustrações e medos. Um jardim que, posto nesse cenário apocalíptico, evidencia o custo humano e político do arranjo econômico sacramentado entre México e EUA na década de 90 e que formatou as relações (desiguais) entre os dois países.

Um espaço retangular, preenchido por palmeiras (não nativas, diga-se), fornece sombra e conforto térmico para o setor de imigração/emigração dos dois países. O cenário remete ao Jardim do Éden e, por isso, remete ao sonho da terra prometida, conforme a descrição do projeto pelos arquitetos:

Um volume oblongo provê uma passagem fronteiriça para pedestres entre o México e os EUA, e interrompe infindável fronteira demarcada. Um muro de nove metros demarca uma terra-de-ninguém entre os dois países. Dentro do muro branco, um grid de palmeiras impõe ordem em um grande e sombreado jardim. Pavilhões de controle de passaporte e administração são espalhados por aqui e acolá, tornando-se parte do jardim. O oasis é um ponto de referência na vasta paisagem texano-mexicana, escondido da paisagem aberta por seus muros. Em toda sua simplicidade, levanta questões sobre o desejo pela terra prometida.

An oblong volume provides a border crossing for pedestrians between Mexico and the US, and interrupts the endless demarcated boundary. A nine-meter high wall defines a no-man’s-land between the two countries. Within the white walls a grid of palm trees imposes order on a large, shaded garden. Pavilions for passport control and administration are spread around here and there, becoming part of the garden. The oasis is a point of reference in the vast Tex-Mex landscape, hidden within the open landscape by its walls. In all its simplicity it raises questions about the desire for the promised land

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.