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O jardim selvagem de Rosa Kliass e Cruz e Souza no Teatro Oficina

jardim selvagem

Essa é uma impressão sobre o paisagismo na peça Macumba Antropófaga Urbana, do Teatro Oficina. Refleti durante algum tempo sobre ela. As fotos poderão ser injustas, pois foram tiradas durante o ensaio, desde a terceira arquibancada. A impressão que tive na estréia, sentado na primeira arquibancada, próximo ao público, foi bem melhor. A referência a Cruz e Souza deve-se ao uso de “Litania dos Pobres” pelo grupo.

Volto a São Paulo em poucas semanas. Quero assistir ao Teatro Oficina avançando com seu coro por entre as ruas do Bixiga (orachamado bairro Bela Vista), entoando, entre outros, a “Litania dos Pobres”, de Cruz e Souza, enquanto atravessa a Abolição. Um dos grandes trunfos do Teatro, quando vai para a rua, é chamar nossa atenção para cenários que antes ignorávamos, propondo paisagens que nosso cotidiano insiste em esconder. Foi, certamente, o maior trunfo dessa Macumba Antropófaga Urbana.

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O “jardim” de “flores do esgosto” (na metáfora de nosso poeta desterrano) na passagem pelo Jd. Heloísa e Abolição, trecho dos mais empobrecidos numa região que reúne muitos teatros freqüentados pela “nata” paulistana, incluído o Oficina e a Broadway (filial São Paulo), é o clímax de uma peça, deslocado para a sua abertura. Destoa da assepsia na injusta homenagem do teatro ao paisagismo brasileiro modernista, traduzido aqui na pessoa de Rosa Kliass. Injusta, digo, porque a composição, executada pelo corpo cenográfico do teatro, não merecia ser creditada a figura tão importante no cenário nacional como essa que é figura expoente do chamado paisagismo da segunda geração(a primeira sendo a de Burle-Marx). Entre a coleção de plantas e a construção, a cenografia levantou um grande silêncio, preenchido, é verdade, pela evolução dos atores, atrativa até certo ponto, mas incapaz de dar vida e movimentar o espaço. Não havia nada de selvagem nem verdadeiramente chocante no jardim, a tal ponto que a pretensa “antropofagia oswaldiana” promovida pelos autores pareceu tímido espectro de peças colegiais sobre a colonização.

jardim selvagem

Marantas, palmeiras, a cesalpina que nasce dentro do teatro e busca o terreno em litígio e a famosa bananeira eram as plantas que se sobressaiam. Pitangueiras e outras árvores frutíferas que já caducavam pela falta de luminosidade. Nem cipós, nem imitações de trepadeiras, nem imitações, nada. Ficou tudo muito aquém do que se produziu nos anos 70 em termos de crítica a representação tropical de um jardim, por artistas como Hélio Oiticica.

Não sei bem porquê, mas creio que aquele coro dizendo “somos concretos” queria dizer algo mais do que a simples referência ao concretismo poético. Algo como: nossa lógica é a do concreto, não há surpresas; o inesperado, a vontade, o ímpeto, não nos atinge, somos gatos escaldados, acuados pela lógica do capital, e da Santa Selva de pedra que nos cerca.

 É verdade também que o Jardim Selvagem é apenas parte cenográfica da peça. Uma parte, contudo, que não deve ser apenas quadro. A cenografia recém percebe essa possibilidade. Sinceramente, esperava do Oficina um passo a frente, fazendo do cenário parte atuante.

 

 

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About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.