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Paisagismo e História: Arborglyphos

Paisagismo e história dedicam um capítulo especial aos Arborglyphos, uma palavra que, sinceramente, eu desconhecia até bem pouco tempo e que parece não existir na terminologia técnica em português. A palavra aqui vem emprestada do inglês “arborglyphs” que, por sua vez, deriva da junção das palavras gregas “arbor” (arvore) e glypho (escavar, esculpir, escrever). Porquanto o termo nos seja ignorado, todos nós já vimos ou fizemos algo do gênero: desenhar ou escavar na casca de uma árvore uma mensagem ou imagem.

Modificações na paisagem, vandalismo ou registros históricos, o certo é que, considerado uma arte particular e de caráter transitório, alguns desses arborglyphos têm interesse especial para os historiadores da paisagem e do paisagismo. Se a palavra arte lhe parece ultrajante, eu espero provar, com algumas imagens, que, não apenas alguns raros registros do passado interessam, não apenas do ponto de vista histórico, mas também artístico. Eles podem revelar dados bastante interessante sobre a vida de uma população, ou as ações de um indivíduo.

Como arte, os arborglyphos bem que poderiam se inserir num tipo de manifestação contemporânea, mesmo quando alguns dos seus artistas “mais renomados” pareçam ter ignorado noções de transitoriedade e caráter efêmero, tão caras à arte contemporânea. Do ponto de vista histórico, no entanto, a fragilidade dos registros deixados pelos pastores bascos, por exemplo, talvez tenha tanta importância quanto seu valor para o conhecimento de determinada população. Como modificações na paisagem, enfim, eles se inserem numa forma naive de interação entre homem e ambiente. Não importa a maneira como os vemos, não há como negar a complexidade de uma prática que não está de todo extinta.

Embora sejam comumente considerados uma agressão a natureza, há muita gente que estuda os entalhes descritivos em árvores como uma forma de arte.

Embora sejam comumente considerados uma agressão a natureza, há muita gente que estuda os entalhes descritivos em árvores como uma forma de arte.

Paisagismo e História – os Arborglyphos inscritos na paisagem.

O tema chegou ao meu conhecimento há mais ou menos um mês, quando visitei pela primeira vez o Garden History Girl. Porque escavar em árvores é prática mais ou menos condenável em nosso país, onde quase todo parque ou trilha possui a sua placa pedindo respeito às pobres árvores, nunca me havia ocorrido que, da mesma forma como o grafite, pudessem constituir uma forma de arte. Uma que, é verdade, a história não registrou nem nunca elevou, pelo reconhecimento social, mesmo que restrito, ao nível de Arte. Não obstante, em alguns lugares, esses “rascunhos silvestres” conservaram-se por algumas décadas de tal maneira que foi possível identificar indivíduos cuja prática parece testemunhar sua consciência sobre a importância de seu trabalho – do ponto de vista artístico, isso é.

Fato é que, levando em conta que a paisagem nada mais é do que aquilo que está visível ao olho; que se apresenta, nos dizeres de Milton Santos, como elemento humano, passível de contemplação, mas também de modificação; levando-se isso em conta, então, os arborglyphos não apenas são passíveis de estudo histórico, nem são, dentre as modificações feitas pelo homem na paisagem, as mais agressivas.

Um dos casos mais famosos de arborglyphos documentado é o dos pastores bascos em Aspen, no Texas. Dentre eles, um indíviduo em particular, chamou a atenção dos historiadores:

Entalhes por Etienne Maizcorene

Arborglyphos bascos, um caso exemplar

Durante a corrida do ouro, milhares de bascos aportaram nos Estados Unidos, buscando fortuna. Bem sucedidos ou não na busca pelo ouro, muitos permaneceram com sucesso no ramo pastoril de ovelhas tanto que, no início do século passado, a palavra basco, em inglês, viraria sinônimo de pastor de ovelhas (sheepherds). O fato é bem conhecido e documentado nos Estados Unidos, sendo também explorado turisticamente: esses pastores deixaram registrados nas árvores cerca de vinte mil inscrições. Algumas delas, documentando sua passagem, outras meros registros contáveis do número do rebanho, outras, verdadeiras obras de arte.

Um deles, chamado Etienne Maizcorena, assinou e cuidou para que sua “galeria” permanecesse intocada. Montado a cavalo, ou valendo-se de uma escada, Etienne registrou a vida pastoril, cenas de casamento e animais silvestre metros acima do solo, onde ninguém poderia interferir. É um caso único em todo o mundo, talvez, de que alguém tenha assumido essa forma de desenho como prática artística. É, além disso curioso que tenha sido feito por um basco, cujo povo especula-se que possa descender dos primeiros artistas rupestres, a pintar em Lascaux o primeiro painel de que se tem notícias. Pode soar fantasioso, mas é o tipo de coincidência que desperta curiosidade e que não custa tecer.

Registros de soldados da Segunda Guerra na França


Outro caso interessante é o de 
Chantel Summerfield, cujo objeto de estudo pode ser considerado realmente único. Chantel rastreou os entalhes dos soldados americanos da primeira e segunda guerra no norte da França. No último caso, ela conseguiu rastrear até mesmo os familiares desses soldados, levando suas “mensagens” de volta para casa. 

Frank Fearing, arborglypho da II Guerra Mundial

Frank Fearing deixou um coração entalhado, com o nome da esposa dentro. Uma história que a filha do casal escutou durante anos, mas só soube ser verdade após a pesquisa de Chantel.

Durante esse período, milhares de jovens americanos, a espera do combate, deixaram suas inscrições naqueles bosques, como manifestando incerteza com o retorno para casa, e deixando ali uma mensagem de amor ou saudades. Muitos deles retornaram, e, no caso da Segunda Guerra, Chantel conseguiu contato até mesmo com alguns familiares.

Bem, o caso é que Chantel foi capaz de chegar bem próximo de conhecer o autor de um desses. A inscrição está no foto, onde se lê “F. Fearing, Hudson Massachussets” e um coração com Helen dentro. A estudante conseguiu contatar uma Barbara Fearing, filha de Frank Fearing e Helen. Frank havia sobrevivido à guerra até 2001, e Helen chegou a ver a foto, confirmando a autoria. Mas foi Bárbara quem ficou surpresa ao saber que as histórias românticas do pai sobre escrever seu nome e o de Helen por onde passasse eram verdadeiras.

 

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.