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Bichos-móveis, intervenção paisagística do Grupo Fora

Bicho-grilo. Banco escorregador do Grupo Fora.

Bicho-grilo. Banco escorregador do Grupo Fora.

Todo jardineiro, e todo paisagista, e todos nós, sejamos honestos, temos com os insetos uma relação ambígua, problemática, que vai do encantamento à repulsa em frações de segundo. Vista de perto, uma borboleta nunca é uma borboleta. As cores vibrantes, o voar que parece faceiro, despreocupado, suave – as qualidades que, em última instância, fizeram-na famosa e tão atraente a ponto de virar “objeto” colecionável – todas essas qualidades, dizia, desaparecem.

Por baixo da beleza, há um animal esquisito, cujo formato muito vagamente lembra o daquele outro, o do animal nojento e rastejante que finda sua jornada gastronômica de flores e folhas, recolhe-se a um galho e nele monta o seu casulo. Algum tempo depois, o bicho pegajoso transforma-se num bicho bonito, alado.

Aquilo que na natureza nos causa fascínio é o mesmo que nos causa repulsa. Ou quase. Porque, entre uma coisa e outra, o que interessa é a mudança de perspectiva, a transmutação ou metamorfose do bicho ou nossa. No ser humano, a mudança é interna. O olhar muda a alma. 

Mudar a perspectiva é, no fundo, mudar o enquadramento.

E falar em enquadramento pressupõe definir a escala.

Desde muito perto, uma borboleta se parece com ela mesma ou com um percevejo, um gafanhoto, um bicho-grilo. E desde que longe o suficiente, um bicho-pau se parece, porque não, com um banco. E, voi-lá, bicho-banco.

Esse o modus operandi  do Grupo Fora, de Florianópolis, SC que nas asas de seu “exército” de bichos-móveis, agora pousa sobre o Planalto Brasileiro, lá onde o homem foi fincar, como um desenho de cidade, um objeto seu, que imita o voar dos pássaros: o plano piloto, Brasília. Desde muito perto, a exposição Bicho Banco abre hoje, às 19hs, na Funarte, mais precisamente, na marquise do edifício.

Trata-se não apenas de uma perspectiva diferente sobre os insetos que habitam nossos jardins mas também de interferir (propor uma nova) na maneira como pensamos o espaço, nossos jardins, cidades e, por quê não?, a própria paisagem.

A paisagem, no caso, a temos encarado desde o ponto de vista da contemplação, como lugar de passagem ou de descanso. O Grupo Fora, nesse trabalho, propõe ao menos dois outros: o da preguiça e o da brincadeira.

Não aquela preguiça que o capitalismo ensinou-nos a olhar com desconfiança. Falo da preguiça gostosa de deitar e se esticar em bancos que nos inspiram estar voando sobre as asas de um percevejo. Falo da preguiça de aproveitar o momento entre amigos enquanto as asas da cigarra nos propiciam deitar e olhar o céu. 

E a brincadeira, é claro, de subir pela cabeça de um grilo e escorregar por suas costas, que já não são nem ásperas, nem pegajosas.

Brinquei nesse objeto-bicho quando faltava muito pouco para terminar a construção e pensei que daria um quinhão de cada coisa que tenho e do que não tenho, daria um sonho bom sentado no bicho-pau olhando a infinitude das esplanadas de Brasília pra voltar à infância e ter um desses na praça próximo a minha casa.

O olhar de um adulto pode menosprezar o tamanho do banco, que, visto de longe, parece ter o escorregador muito curto. Mas o mesmo adulto sem dúvida vai pensar na aventura que pareceria, quando criança, escalá-lo. E a descida comprova.

Não sei se era eu adulto ou eu criança, ou metamorfose dos dois, quem aventurou-se naquele curto caminho entre a cabeça do bicho, e a terra.

A grande virtude das intervenções, especialmente dessa intervenção, do Grupo Fora é justamente essa: a perspectiva da infância.

A maioria desses bichos que inspiram os bancos podem parecer nojentos, indesejados no jardim ou dentro de casa, mas ao ver os objetos propostos pelo grupo e, principalmente, depois de interagir com eles, você muda. Não só a sua visão sobre os bichos, mas também a forma como encara o que está a sua volta.

Porque, no desenho singelo dos móveis, há um convite para ver, encarar, interagir com a paisagem, ou quem sabe até esquecer-se, deitar-se e simplesmente estar nela.

Muda o enquadramento, mas principalmente a escala e as coisas que cabem nela são ou muito pequenas que viram grandes, ou muito grandes que viram pequenas. O objeto escorregador nos afronta na forma de bicho-grilo gigante.

Basta o desenho para mudar a sensação diante dele.

Para usar uma palavra cunhada pelo poeta Paulo Leminski, o desenho nos “metaformoseia”.

 Quem é o Grupo Fora

Ganhador do Prêmio Funarte de Artes Contemporânea 2013, com a mostra Bicho Banco, o Grupo Fora é composto por: Nara Milioli, Gabriel Scapinelli, Bruna Maria Maresch e Camila Argenta. 

Ficha técnica do projeto.

Grupo Fora: Nara Milioli, Gabriel Scapinelli, Camila Argenta e Bruna Maria Maresch
Desenho técnico: Gabriel Scapinelli
Produção gráfica e fotografia: Grupo Fora
Marcenaria: Xilocoletivo
Texto crítico: Fernando Boppré
Assessoria de imprensa: Néri Pedroso

Serviço

Mostra Bicho banco, do grupo Fora (SC)
Abertura: dia 13 de fevereiro de 2014, às 19h.
Visitação: até 16 de março de 2014, de segunda-feira a domingo, das 9h às 21h
Local: Complexo Cultural Funarte – Marquise
Eixo Monumental, Setor de Divulgação Cultural, Brasília DF (entre a Torre de TV e o Centro de Convenções), tel.: (61) 3322-2076/ 3322 2029
[email protected]

www.funarte.gov.br

 E agora, fique com eles:

 

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.