Home / Artes / Arte e Paisagem / Chassis ajardinados, por Nara Milioli

Chassis ajardinados, por Nara Milioli

Nara Milioli - cipreste

Nara Milioli é uma artista catarinense, natural de Criciúma e residente em Florianópolis, cuja pesquisa se concentra sobre o Jardim como forma de padronização e artificialização do espaço, resultando no que ela denomina “paisagens clichê”. Ao identificar na produção paisagística contemporânea uma forma de contradição acentuada entre o ambiente natural e o ambiente construído em que a relação das pessoas com o espaço é de distanciamento ao invés de interação, Nara produz imagens e dispositivos que buscam subverter essa relação. A utilização de dispositivos artificiais, produzidos especialmente para suas intervenções e instalações, provoca, através de fina ironia, estranhamento entre os visitantes, que são convidados a sentar ou se deitar sobre almofadas com estampas de gramado, onde se lêm os dizeres: deite na grama, pise na grama etc. A artista ainda brinca com certos clichês bem conhecidos de jardineiros e paisagistas, distribuindo sementes para a composição de um jardim “pronto”, segundo os modelos que ela identifica e coleta em passeios pela sua cidade de residência. Professora do curso de Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina, a artista produz ainda fotografias e intervenções urbanas.

Nara Milioli - dispositivo jardimA obra Chassis ajardinados foi apresentada em 2011 no Memorial Meyer Filho e é fruto de sua pesquisa de doutorado pela USP. Trata-se de uma série de fotografias e dispositivos que visam pôr em questão, nos dizeres de Nara, as “oscilações do corpo na paisagem”. O jardim-modelo, pré-concebido e repetido à exaustão, cujo exemplo mais próximo, segundo ela mesma aponta, são os jardins de Jurerê Internacional, propõe a paisagem como ornamento, apartada da convivência humana e se configuram como uma segunda natureza. Pode-se dizer, uma reiteração do modelo bíblico do paraíso, sem Adão e Eva, em que a proteção do ambiente construído é capaz de garantir a segurança necessária para uma relação asséptica com a natureza. Chassis ajardinados, além disso, subverte essa premissa da artificialidade, ironizando a maneira como nos colocamos frente a natureza, mais do que em relação com ela. Os dispositivos utilizados realçam a padronização da paisagem clichê, ao mesmo tempo em que permitem questioná-la. O melhor exemplo disso, talvez, sejam os jardins “prontos”, distribuídos na exposição, com sementes de espécies variadas. Se, por um lado, reitera a “fórmula” para a composição de um jardim, vale-se de um recurso muito pouco utilizado no paisagismo comercial, qual seja, a valorização do ciclo natural das plantas – vale dizer, ainda, que o jardim-modelo não tem sementes, espécies indesejadas, e quase nunca conta com algo por crescer; as plantas, afinal, são escolhidas com o porte desejado, ou já bem próximo ao resultado final do projeto.

Outro aspecto importante a ser levado em conta nesse trabalho é a escolha dos meios e materiais utilizados. Ao escolher o Jardim Francês como emblema do clichê paisagístico, Nara faz um recorte não exatamente justo, mas eficaz o suficiente para ter como alvo de seu trabalho uma gama bastante grande de produções de paisagem. Como todos sabem, o estilo francês é caracterizado pela priorização de formas geométricas, em que as linhas retas ganham força sobre as curvas e a poda constante se sobressai. Porquanto nossos jardins, mesmo os mais pomposos jardins de Jurerê Internacional, não cheguem a seguir a risca essa regra, o imaginário em torno da composição paisagística permanece, causando um desconfortável arranjo de formas, em que a busca pelo jardim-imagem, ao mesmo tempo construído pela interferência humana na natureza e afastado dela, se sobrepõe ao orgânico. Tendo isso em vista, Nara explora as imagens através de fotografias, esculturas e instalações, utilizando materiais como o MDF (hapa de fibra de madeira de média densidade), um material produzido a partir de madeira de reflorestamento (leia-se, pinus exótico e eucalipto), tecidos, postais e até vidros de compotas que guardam palmeiras, imitando souvenires já bem conhecidos de monumentos famosos.

Nara Milioli - Muro

A exposição foi realizada no ano passado, mas você pode conferir as fotos aqui no Jardim de Calatéia, ou nos links abaixo:

www.dobbra.com/terreno.baldio/nara_milioli.html

 


About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.