Home / Artes / Guerrilla Gardening: transformar o mundo num canteiro de flores

Guerrilla Gardening: transformar o mundo num canteiro de flores

Liz Christy e o primeiro Guerrilla Green. Retirado de http://www.lizchristygarden.us

Liz Christy e o primeiro Guerrilla Green. Retirado de http://www.lizchristygarden.us

Quando nos deparamos com um trabalho de Guerrilla Gardening, surgem questões como: isso, afinal, é jardinagem ou arte? Questão vencida, surge outra e, depois, outra. Por exemplo, é um movimento artístico ou o nome de uma organização internacional? Ou, então, será que se eu plantar batatas no terreno vago do vizinho, posso dizer que sou um artista?

Como quase sempre ocorre com formas de arte contemporânea, Guerrilla Gardening é tudo isso, e mais um pouco. Não é, contudo, uma organização, ainda que muitas pessoas mundo afora tenham organizado suas ações em torno do nome. Há um guerrillagardening.it, outro no Canadá, e outra(s) dúzia(s) mais de jardineiros que acreditam que a única bomba capaz de mudar a nossa concepção de cidade em algo mais saudável e, sobretudo, agradável, é a bomba de sementes e outras referências sub(strato)versivas do conceito de luta armada.

É verdade que as ações ou grupos que assumem esse nome possuem elementos em comum que permitem vislumbrar uma teoria do Guerrilla Gardening. Pela internet, diversos sites reúnem textos, coordenam ações e noticiam-nas. Um ato simbólico realizado na Coréia do Sul pode ser rapidamente replicado nos EUA e, apesar disso, Guerrilla Gardening, mais do que uma forma de agir, é um nome que pegou. E muito por iniciativa de um sujeito chamado Richard Reynolds, que começou a produzir um blog para registrar suas “plantações ilícitas ao redor de Londres”. A produção aumentou e Richard publicou um livro e a coisa toda foi se espalhando como “erva daninha”, só que no bom sentido.

O termo guerrilha aparece vinculado ao ambientalismo já nos anos 70, utilizado por Liz Christy, que organizou o primeiro grupo de Green Guerrilla. De lá para adiante, a concepção de horta urbana como uma forma de frear e discutir a questão dos vazios urbanos foi ganhando adeptos, e Richard tomou de empréstimo o termo para dar nome ao que vem se tornando um movimento global.

E, quando se fala em vazios urbanos, qualquer espaço pode servir de pretexto. Desde um terreno baldio, até aquele canteiro abandonado à beira de uma calçada. Elaborar uma ação guerrilheira, pois, não é tarefa assim tão difícil, dizem. O problema está na persistência. É preciso, além de saber escolher as espécies, comprometer-se com cuidados básicos para que a ação dê certo. Por sorte, a história recente tem bons exemplos de histórias que deram certo e de lutas que, mesmo perdidas, ressurgiram mais fortes como inspiração. Pretendo falar um pouco delas abaixo.

guerrilla gardening

“Guerrilheiros” plantam violetas onde houveram casos de violência contra homossexuais

Um pouco da história da Jardinagem de Guerrilha

Construído nos anos 70, durou até meados dos 80, quando a prefeitura resolveu destruí-lo para a construção de moradias populares. A partir de http://blog.archpaper.com

Construído nos anos 70, durou até meados dos 80, quando a prefeitura resolveu destruí-lo para a construção de moradias populares. A partir de http://blog.archpaper.com

O termo foi cunhado em 2004, com o surgimento do blog, mas não foi essa a primeira vez que foi usado. Antes de Richard, muito antes, na verdade, havia sido usado por Liz Christy e sua Guerrilha Verde, um grupo que semeou e, mais tarde, se apropriou de um desses terrenos vagos, na cidade de NY. O lugar existe ainda hoje e foi batizado de Liz Christy’s Garden. Até hoje administrado pela Green Guerrilla formada na comunidade, esse jardim comunitário, no meio de Manhattan, completa esse ano 40 anos de história.  

Ainda que Liz Christy e a Green Guerrillas não tenham um propósito mais propriamente político e comunitário do que artístico, ainda nos anos setenta outro personagem iniciou sua luta pessoal contra a obsolência deliberada do espaço urbano. Considerado por muitos o pai do movimento de jardinagem urbana: Adam Purple é figura mítica da contra-cultura novaiorquina. Merece (e terá) um capítulo a parte nessa história da Jardinagem de Guerrilha. Por enquanto, basta dizer que, impulsionado pela derrubada de um prédio atrás do seu, em Low East, Manhattan, Purple empreendeu um jardim de impressionantes 1393 metros quadrados, cobertos por flores e hortaliças. Tendo construído a maior parte sozinho, logo ganhou apoio do bairro. Chamado de Eden Garden’s, ficou em pé de 1975 até meados dos anos 80, quando, mesmo com todo o apoio popular, a prefeitura reouve o terreno e pôs abaixo o jardim para construção de moradias de baixo custo.

Desde então, a idéia se espalhou pelo mundo e a jardinagem saiu do espaço privado do quintal para ganhar o espaço público, como forma de discussão prática de políticas de planejamento urbano. No Brasil, um dos projetos mais conhecidos é o de Louise Ganz, chamado Lotes vagos, já tematizado aqui.

As armas de um Guerrilla Gardener

Guerrilheiro que se prese tem que conhecer e saber manusear seu armamento. No Guerrilla Gardening, claro, as “armas” não disparam fogo. No lugar disso, plantam flores e couves, e ainda outras coisas. E há todo um aparato catalogado e sendo desenvolvido para ajudar na “luta” contra especulação imobiliária que se ergue sobre os vazios urbanos. Se você ainda tem dúvidas de como um terreno vazio pode contribuir para a elevação (e queda, que também é conseqüência) dos preços dos imóveis, sugiro a leitura esclarecedora desse texto do Urbanidades.  Aqui segue uma pequena lista desses “arsenal”, que você mesmo pode fazer.

Bomba de sementes

São seis as bombas de sementes listadas, mas vou listar aqui apenas as mais… divertidas ou curiosas:

guerrilla gardening

A partir de http://www.guerrillagardening.org

Clássica

A forma clássica mistura de argila, composto e sementes, na proporção de 5:1:1. É divertida mas não chega a ser uma novidade. É o princípio de todas as outras. Barata e fácil de manipular, pode ser um tiro no pé se não chover nos primeiros dias.

Granada Green Guerrilla

Criada pela Green Guerrilla, essa granada, teóricamente, daria mais durabilidade ao composto, já que utiliza musgos como esfagno. O problema é que utiliza além de vidro ou balão utiliza fertilizantes. Foi idealizada pela Green Guerrilla nos anos 70, o que torna compreensível essa questão.

Ovos explosivos

Pode parecer nojento, mas funciona mais ou menos assim: primeiro, faça um pequeno furo na casca do ovo, sugue a gema e a clara – você também pode pedir para um amigo ou uma tia. Depois insira sementes e algum pó ou musgo dentro. Está pronto.

Balões a hélio

Essa é do tipo… blitzkrieg. Balões de borracha biodegradável, carregando bombas. Sobem, sobem, explodem e espalham sementes. O problema é saber onde cair. Pode ser uma grande perda de tempo.

Pílulas de sementes.

A criadora desse método também inventou o de cima. Parece mais inteligente, só que está em desenvolvimento, e pode ser um pouco caro.

A escolha desses instrumentos depende um pouco dos objetivos, necessidades e possibilidades das ações. É preciso conhecer a área, mas também as espécies para saber se estamos na estação correta para plantá-las. Nem toda ação se resume a espalhar por aí sementes. Outras iniciativas incluem, além da horta propriamente dita, confecção de caixas com espécies variadas ou o plantio de flores em lugares simbólicos. Tudo isso exigiria mais algumas linhas de texto. Como o assunto é tão vasto quanto interessante, será tema de artigos futuros. Sigam o Jardim de Calatéia e participem, comentem:

 E você, já participou de uma ação do tipo? Conhece algum projeto de horta urbana no Brasil? Conte sua história nos comentários.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.