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Horizontalidade e Verticalidade – Fotografia e Paisagismo

Blue Pond & Orange Leaves Fotografia e paisagem

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As fotografias que ilustram esse post foram retiradas do site da comunidade 500px. Conheci-a através deste aplicativo para iPad, uma verdadeira jóia, infelizmente disponível apenas para o tablet da Apple. Elas foram tiradas por Kent Shiraishi, fotógrafo japonês, que, além do portfolio na 500px, expõe seu trabalho nesse outro site. Escolhi essas imagens quando pensava em retomar um assunto iniciado nesse outro post, a respeito do fotógrafo e artista plástico Barry Underwood, um dos primeiros deste blog.

Àquela época, a fotografia de Underwood levou-me a uma reflexão não compartilhada aqui no blog sobre a iluminação em paisagismo e suas implicações tanto em termos ambientais quanto em termos estéticos. Quem navegou pelo Jardim de Calatéia mais de uma vez sabe que minha preocupação, além da jardinagem e do paisagismo é empreender uma discussão sobre essas questões. Tal inclinação se deve a uma formação pouco ortodoxa, que vai desde a psicologia até o teatro.

Trata-se de uma inquietação bem particular, nesse sentido, pois tenho sido constantemente questionado quanto a pertinência de manter investigações em campos aparentemente tão distintos quanto o teatro e o paisagismo, mas pode também ser do interesse de outras pessoas essa relação, já que muitas pessoas chegam aqui justamente procurando no google pelas duas palavras.

A iluminação é um conceito chave que atravessa tanto o campo paisagístico quanto a arquitetura, passando pelo teatro e a fotografia. Na arquitetura como no paisagismo, interessa saber como o projeto permite a incidência da luz natural e como lida com a iluminação artificial. Atualmente, a discussão é ainda mais importante num mundo que debate a renovação das fontes de energia. Mas, além do tema ecológico, a questão envereda também para outros, como o bem estar e o terapêutico. Questão essa debatida já aqui, quando tratamos dos jardins especializados no tratamento do Alzheimer.

Por ora, o que foi exposto é suficiente. Nosso tema é a fotografia e suas relação com a percepção e (possível) construção da paisagem.

Horizontalidade e verticalidade. Como pensar o paisagismo através da fotografia.

horizontalidade e verticalidade no paisagismo

Bloomy Hill, fotografia de Kent Shiraishi

Antes do advento da fotografia, foi a pintura quem influenciou o construção da paisagem, influenciando o surgimento de estilos como o jardim inglês, mas também o próprio surgimento da arquitetura paisagística como área do conhecimento. Gilbert Meason, por exemplo, que definiu o termo como o conhecemos, fora influenciado pela obra do arquiteto romano Vitruvio tanto quanto pela pintura paisagística italiana. Por via indireta, é essa também a base de um Frederick Olmstedt que, no século XIX, em sua obra mais famosa, o Central Park de Nova Iorque, expressa sua preocupação com a permanência de uma paisagem bucólica no meio urbano.

Com a fotografia, o registro da paisagem ganha novos sentidos. Primeiramente, o registro científico ou jornalístico, permite (pelo menos em tese) a captura da realidade imediata. Embora seja uma tese de difícil sustentação, é inegável que a fotografia crua é menos passível de interferências do artista que a pintura. De toda maneira, é justamente com o avanço da técnica possibilitando cada vez mais a manipulação do registro que a fotografia vai ganhando interesse no estudo da paisagem. Não mais como dado real, e sim como forma de interagir com ela.

No caso de Kent Shiraishi, por exemplo, o trabalho tem certa semelhança com o do sul-coreano Myoung Ho-lee, em que uma árvore isolada ao mesmo tempo protagoniza e enquadra a paisagem. Shiraishi, como Ho-lee, exerecem a manipulação deliberada do material fotográfico. Tanto é que o fotógrafo japonês teve um trabalho escolhido para ilustrar comerciais da Apple.

O que importa aqui, no entanto, mais do que a manipulação, é como ele ressalta certos elementos gráficos, como linhas e pontos, para imprimir a sensação de volume na paisagem. De tal maneira que o enquadramento e a admirável sensibilidade desse fotógrafo destaca algo para o qual nem todos os paisagistas atentam como deveriam: é a relação entre elementos horizontais e elementos verticais na composição da paisagem. Aquilo que, normalmente , chamamos de elementos estruturantes (verticais) e elementos ornamentais. Chamar aos elementos estruturantes verticais, em contrapartida a elementos ornamentais, exclusivamente horizontais, parecerá algo arbitrário, especialmente se olharmos a segunda e a terceira imagem, cujos adereços horizontais são contrastantes em seu significado. A primeira delas quase monótona, a segunda empurrando o olhar para o infinito e dando ao aparecimento das nuvens maior impressão.

Outra maneira de ver esses relatos paisagísticos de Kent Shiriashi seria destacando a relevância que o elemento individual tem sobre o coletivo. Daí duas sub-leituras poderiam emergir: uma que vê esse destaque como um elogio da individualidade, outra que o enxerga como reflexo da solidão humana. Qualquer seja a escolha, o que vale é a reflexão que a paisagem pode despertar sobre as pessoas e a forma como escolhem conviver, em sociedade e com a natureza. A paisagem já não vista como dado real, imediato, mas como uma imagem que, capturada por nós, reflete também a maneira como agimos para formá-la.

A árvore, por exemplo, a mesma árvore, por sinal, se nos vislumbra em cada uma como se fosse dois personagens diferentes, ou talvez o mesmo personagem obedecendo as vicissitudes da cena, como fosse um bom ator a representar o texto do melhor dramaturgo.

É claro que cada elemento possui sua característica particular, sua importância. Horizontalidade e verticalidade são conceitos primários, cujo valor é imprimido por conceitos secundários, qualitativos… Essas elocubrações, como sabem foram tema constante de outro paisagista bem conhecido nosso:

(…)Foi preocupação constante do arquiteto evitar tanto quanto possível que o edifício viesse a constituir um elemento pertubador da paisagem, entrando em conflito com a natureza. Daí o partido adotado, com o predomínio da horizontal em contraposição ao movimentado perfil das montanhas e o emprego de uma estrutura extremamente vazada e transparente… (Burle-Marx, apud. Guilherme Mazza Dourado)

 

 

 

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.