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Apontamentos sobre a iluminação no paisagismo


iluminação

Esse post vem preencher uma lacuna deixada no blog desde agosto, quando, num dos primeiros textos, introduziu-se a questão da iluminação. A intenção é discutir um pouco nossa percepção e os efeitos causados pela iluminação em jardins e praças públicas, através do trabalho do artista visual e fotografo Barry Underwood. Não se trata, pois, de um manual, nem pretende esgotar o assunto.

Em agosto, quando publiquei um post com entrevista traduzida e fotos Barry Underwood, prontifiquei-me imediatamente a entregar esse texto com considerações a seu respeito, o que não ocorreu. As razões foram minha mudança para São Paulo, compromissos com uma bolsa de pesquisa e, talvez em maior parte, um pouco de incerteza quanto ao tema.
De toda maneira, as imagens que reproduzo aqui são do artista plástico, cujo trabalho de residência investigou os efeitos da poluição visual causadas pela luz no meio ambiente. Achei-as relevante porque esse tema é, ou deveria ser, mais debatido no meio paisagístico. Há uma série de ofertas no mercado, algumas dizendo-se ecológicas, outras definitivamente contrárias a qualquer causa ambiental.
De minha parte, acho difìcil afirmar que qualquer tipo de iluminação possa ser inofensiva ao meio ambiente. Não se trata de purismo, senão de pura constatação: à noite, a natureza se contenta com a lua e a natureza, quando as há. Por outro lado, não será o caso de se proibir certa iluminação em nosso jardim, muito menos em praças públicas – todos nós sabemos dos benefícios que uma boa iluminação pública traz em termos de segurança.
O problema está, portanto, na forma como adequar a iluminação a esses ambientes. “A luz, no teatro deve passar despercebida”. Essa frase eu escutei da boca de um iluminador cênico em uma palestra em que ele viria a acrescentar ainda que a moda pirotécnica introduzida pelos grandes eventos musicais e outros espetáculos vinha causando estragos no plano paisagístico, tanto do ponto de vista do jardim privado quando do lugar público.

A afirmação é pertinente. Em Florianópolis, as praças há não muito tempo receberam iluminação por baixo da copa das árvores, e ainda por cima com coloração verde. O procedimento, além de muito mau-gosto, traz o inconveniente de expulsar a população aviária, e colocar em risco certosprocessos migratórios.
Mas, além disso, uma lâmpada mal colocada pode também trazer sérios problemas ao indíviduo e ao convívio social.
A intensidade é um fator bastante óbvio. Outro é o foco. Nas fotos de Underwood, o que se nota é como a iluminação é capaz de atrapalhar/captar nossa atenção dependendo daquilo que queremos destacar. Porquanto o faça, em todos os casos, não apenas compõe, mas também conforma o ambiente. E algumas paisagens construídas são realmente confusas.
Ainda temos, acredito, no senso comum, o costume de imaginar um campo com montanhas ao fundo, ou algumas árvores, coisas do tipo quando falamos em paisagem. E, quando distingui, acima, entre paisagem natural e construída talvez tenha induzido alguns a pensar que a dicotomia se fazia entre o natural e o artificial. Mas isso não é de todo verdade, afinal, como dizia Milton Santos, já não há o que o homem não veja como coisa para si e a mapeie, mesmo que para denominá-la desconhecida. E, ao se compor uma paisagem, é preciso saber ler a paisagem que a precede. Isso saber os elementos de foco, os que permanecem, os que são sobrepostos, e a iluminação, em parte, decorre disso.

Por agora, contudo, já entramos em assunto de outro post, melhor parar por aqui.

Aurora Green

 

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.