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Luz e Paisagem por Barry Underwood

Barry Underwood é um artista contemporâneo formado em Teatro e Fotografia, pela Indiana University Northweast Gary, que se dedica ao estudo da paisagem, natural ou construída, fazendo uso de efeitos luminosos igualmente naturais ou construídos para criar fotografias que classifica como cenas. Visitando o Landscape and Urbanism Review, já citado aqui no Jardim de Calatéia, encontrei essa entrevista concedida à  Juxtapoz Magazine. As fotos são muito interessantes, às vezes beirando o brega, mas o resultado obtido condiz com a intenção do artista, que investiga os efeitos da poluição luminosa em nossa forma de ver a paisagem. Deixo a vocês a tradução livre, feita por mim, e o original pode ser lido aqui. Comentários com mais fotos virão em outra entrada. Aproveitem.

Entrevista com Barry Underwood, revista JuxtaPoz. A espécie humana deixou inúmeras pegadas nesse planeta. Barry Underwood investiga os efeitos da poluição luminosa em paisagens naturais numa série de fotografias que parecem etéreas e fantásticas, apesar de serem baseadas na realidade.

Entrevistado por Jasmine Cabanaw.

Jasmine Cabanaw: Você pode me falar sobre a primeira foto que tirou, que estava nessa veia da fotografia? Qual foi a inspiração? Barry Underwood: Fish I e Fish II. Foram as primeiras duas fotografias que eu fiz na série. Eu chamo essa série de “Scenes”. Eram da mesma instalação e foram tiradas de dois pontos de vistas diferentes, em dois momentos diferentes. A Fish I foi fotografada à  meia-noite e a Fish II às quatro da manhã. A inspiração veio da combinação de algas bio-luminescentes, da poluição, do meu histórico na faculdade de teatro, e pensando em trabalhos anteriores que fiz. Basicamente, eu queria fazer uma mudança no meu trabalho, combinando meu treinamento em teatro e a fotografia. Ao invés de tirar fotografias e enquadrar (compor) idéias ou eventos, eu queria construí-los. Fiz uma série de desenhos e Fish I e Fish II foram a primeira instalação e primeiras imagens fotográficas desses desenhos.

De que maneira o seu trabalho é uma mistura de elementos fotográficos e teatrais? Tradicionalmente, teatro e fotografia são formas de narrativas vistas desde um ponto de vista singular. Ambos se valem da estilização para destacar um tipo de realidade.

O que envolve criar essas imagens? Você tende a criar “sets” ou também gosta de se valer do que já está aí?(isso é: poluição luminosa)? Ambos. Eu procuro uma locação sobre a qual possa construir algo e que possa oferecer algum tipo de efeito luminoso adicional. Um carro ou navio passando, ou poluição luminosa de uma fonte próxima (uma cidade ou loja).

Quando a foto requer a construção de um set, o que envolve a criação de uma instalação de luz? Quanto tempo leva?

Todas as instalações tem um sistema de suporte. O processo de construção para ele pode ser pequeno e levar meia hora ou pode levar vário dias. O mais longo durou várias semanas. Eu crio uma plataforma triangular, de tal maneira que aparente pairar sobre a água. Frequentemente, as instalações duram dois dias inteiros (de doze horas, mais ou menos). O que, obviamente, é seguido de uma noite

inteira fotografando. Então, é claro, há a preparação das fontes luminosas para dar forma à  luz. Esse processo pode levar uma hora ou duas, ou vários dias para arranjar. Por exemplo, mergulhar LEDs em gel para difundi-los, ou embalar centenas de mangueiras luminosas em freezer paper.

Você tem uma equipe fixa que o ajuda a criar esses sets ou usa artistas diferentes?

Não tenho uma equipe fixa. De tempos em tempos, tenho assistentes. Depende da locação. Para o trabalho feito na Headlands Center for the Arts, eu com os mesmo dois artistas me auxiliando em múltiplas instalações. No Center of Land Use Interpretation in Wendover, Utah, eu instalei e fotografei tudo sozinho.

Suas fotos têm uma aparência etérea e ainda assim atingem a realidade de um planeta afetado pela poluição luminosa. Suas fotos simbolizam a pegada que a humanidade está deixando no planeta?

Sim, mas o que tentei não foi fotografar problemas ambientais de maneira pesada. Penso em ficcção cientí­fica e como o sobrenatural e o fantástico é sustentado e credibilizado por um mundo cotidiano onipresente. Na narrativa há uma moral para a fábula. Há um processo de olhar para dentro de si mesmo ou uma auto-avaliação?Há (na causa e no efeito) e as consequências da própria ação.

Há uma justaposição na suas fotos entre natureza e tecnologia. Você acha que elas existem em harmonia ou contraste uma com a outra?

Novamente, volto à  idéia de ficção científica. Nesse gênero, natureza e civilização não estão separadas, nem os humanos e as maneiras como interagem com a tecnologia. Estamos fundamentalmente ligados a esse planeta. Penso na pintura A balsa da Medusa , e em como isso pode ser uma metáfora para a espécie humana. A tecnologia é a balsa e o navio. Mas são ferramentas que podem ser utilizadas ou exploradas. Nós estamos inexoravelmente à  mercê do vento e da corrente.

Certamente, o impacto da luz artificial na paisagem natural altera a paisagem e atrai o olho para a luz. Qual impacto você acredita que a luz artificial tem sobre o mundo natural e nossa percepção dele?A cor nos afeta a todos.

Cada tipo de lâmpada emite um tipo particular de onda luminosa que causa um tipo particular de cor. Consequentemente – ainda que nossa consciência mesmo não esteja atenta a isso – nosso corpo é afetado por diferentes tipos de cores de maneiras diferentes, tanto positiva quanto negativamente.

Você pode dar exemplos de como você pensa que isso nos afeta, positiva ou negativamente?

Eu penso que a longa exposição a condições luminosas particulares  tanto quanto a falta de luz podem causar reações psicológicas a cor e a luz. Por exemplo, trabalhando sob luz fluorescente, especialmente sem janelas ou luz do dia, pode causar danos psico- e fisiológicos.

Há alguma razão para você se atrair pela fotografia de paisagens?

Estou trabalhando o contexto histórico-artístico da paisagem. Seja a pintura, a land artou o cinema. A paisagem permite certos tipos

de narrativa. Ela sintetiza a idéia do Sublime, o poder da humanidade sobre a natureza, e o poder da natureza sobre os homens.

O que o atrai a certas paisagens?

Eu tenho trabalhado com residências artísticas pelos EUA e Canadá: o Banff Center em Alberta, Canada I-Park em East Haddam, Connecticut; o The Center for Land Use Interpretation in Wendover, Utah; The Headlands Center for the Arts, em Sausalito, Califórnia; e mais recentemente, o The MacDowell Colony em Peteroborough, New Hampshire. Eu viajei para esses lugares pode diversas razões. Todos têm tipos variados de paisagem dentro ou próximo a sua propriedade. São organizações que me permitem fazer minha arte no local. São ambientes artisticamente muito ricos, onde posso encontrar, conversar e colaborar com artistas, escritores e músicos.

Você já traz uma idéia do que você gostaria de fotografar ou deixa-se influenciar pelas paisagens que encontra?Em certas instalações, é sempre uma ou outra coisa. Às vezes, trago uma idéia (como um desenho) e procuro a paisagem que vai se encaixar com essa idéia. Outras vezes, o terreno mesmo me inspira. Geralmente, as duas primeiras semanas numa residência artística são gastas caminhando, investigando, e fotografando. Daí­, faço desenhos e rascunho esboços baseados nas  idéias que a paisagem me inspirou.

Quais as paisagens que gostaria de fotografar no futuro?

Gostaria de trabalhar no inverno em condições geladas e com neve. E iria amar trabalhar numa praia em condições tropicais.

Podemos esperar por um estilo parecido de fotografia, ou pretende explorar outros caminhos?

Tenho pensado em fazer instalações em ambientes urbanos. Algo parecido com o trabalho feito em lugares isolados, mas usando condições luminosas pré-existentes, como luzes da rua e das lojas.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.