Home / Biblioteca Jardim de Calatéia / Clare Cooper Marcus e os jardins terapêuticos

Clare Cooper Marcus e os jardins terapêuticos

Clare Cooper Marcus é professora emérita do departamento de Arquitetura Paisagística da Universidade de Berkeley Califórnia. Formada em Geografia, com especialização em Geografia Urbana e Planejamento, tem sua investigação focada na ideia do desenho paisagístico como vetor de cura e terapia. Combinando aspectos da Gestalt Terapia e algum conhecimento em Jung, Clare é reconhecida nos EUA como uma das principais autoras em Psicologia Ambiental. Ela mantém uma empresa de consultoria no planejamento de espaços abertos para instituições de saúde. O texto que publicamos em nossa Biblioteca Jardim de Calatéia de Paisagismo de Jardinagem fez parte da edição de 2000 da World Health Design. Faço uma breve resenha abaixo.

Nesse texto, Clare aborda alguns conceitos chaves para o desenvolvimento de um projeto de jardim para instituições de saúde – Hospitais, Clínicas infantis, Hospitais psiquiátricos, Asilos etc. Segundo ela, após um período de ceticismo em relação importância de espaços abertos na reabilitação de pacientes, muitos pesquisadores começaram a afirmar não apenas a relevância, mas também a necessidade da utilização de espaços abertos de socialização para auxiliar na cura. Mais ainda, descobriram que o jardim poderia exercer uma função terapêutica, amenizando a dor e o sofrimento de pacientes com Alzheimer e outras doenças degenerativas, além exercer um papel socializador determinante no tratamento de pessoas com algum distúrbio psicológico.

As razões para isso podem ser várias: uma maior atenção nas relações corpo-mente, se é que há uma contradição; uma demanda crescente entre os “consumidores” para uma maior atenção ao paciente; interesse cada vez maior pela medicina alternativa; e, por fim, o movimento ambientalista. Quaisquer que sejam os motivadores, o certo é que o uso terapêutico do jardim depende de um desenho paisagístico em sintonia com as necessidades das pessoas. Pode parecer óbvio, mas há uma série de sutilezas a serem relevadas. Algumas delas já foram apontadas aqui no Jardim de Calatéia, em dois outros artigos: Jardim Sensorial, possibilidades terapêuticas e pedagógicas e Possibilidades terapêuticas do jardim no tratamento de Alzheimer. Clare elenca outras.

Oportunidade de fazer escolhas, buscar privacidade e experimentar um sentido de controle

Não é necessário muito esforço para se constatar que um ambiente hospitalar não está feito para oferecer ao paciente controle sobre sua estadia. Todo o desenho arquitetônico tem por finalidade oferecer a equipe médica condições de controlar a doença e isso, por consequência, significa limitar as ações do paciente. Da mesma maneira, a pressão do ofício diário conduz a equipe de enfermeiros e médicos a muitas situações de estresse, que podem também ser amenizadas com a existência de um jardim ou parque que atenda certas necessidades.

Propiciar oportunidades de fazer escolhas, buscar privacidade e experimentar um pouco de controle sobre as próprias ações é um dos requisitos principais em jardins terapêuticos. Assim, deve oferecer uma variedade de caminhos, lugares onde encontrar privacidade e, além disso, ser facilmente acessíveis por indicações em todos os setores do edifício.

Oportunidade de encontrar pessoas e socializar

A possibilidade de socializar com outros membros da equipe, com familiares e outros pacientes em terapias de grupo ou não, também é de grande importância. Por isso, é importante prover lugares (ou, como a autora chama, em inglês, sub-spaces) com relativa privacidade, mas que ao mesmo tempo estimulem o encontro. Clare cita aqui alguns estudos e depoimentos a respeito de jardins terapêuticos. Alguns deles realizados em instituições psiquiátricas, em que tanto a equipe médica quanto os pacientes preferiam lugares “enquadrados” pela natureza para encontrar uns aos outros. Da mesma forma, quando se trata da visita de familiares.

Oportunidade de realizar atividades físicas

A atividade física, além de reduzir o estresse, pode melhorar a saúde cardio-vascular e reduzir a depressão em adultos e crianças. Assim, além de incluir uma variedade de caminhos, o edifício do hospital pode ter corredores com vista para o jardim, encorajando assim caminhadas internas ao edifício.

Relacionar-se com a natureza

Clare cita uma série de estudos que revelam que a simples visão de um ambiente natural é capaz de reduzir o estresse. Ao citar outros exemplos de “distração” que contribuem para a terapia, ou redução do estresse de pacientes, a autora afirma que no caso de espaços externos, que estimulem a relação com a natureza, não se trata de mera distração, mas sim de estimulo a todos os sentidos, o que não pode ser alcançado através de vídeos e fotografias. Por isso, alude aos conceitos de imersão e emersão revigorada, para dar conta dessa experiência.

Por último, reafirma a necessidade de que esses espaços estejam acessíveis visualmente, através de indicações nos corredores; que o acesso seja facilitado; que  dêem um sentido de segurança, conforto fisiológico, silêncio, familiaridade e um design inegavelmente positivo. Destas característica, cabe ressaltar as de conforto fisiológico, familiaridade e design positivo, porque são menos óbvios do que se pode supor.

 Conforto fisiológico

 Já foi citado que o desenho paisagístico de jardins terapêuticos deve estimular o envolvimento com a natureza, em detrimento da mera contemplação. Para fazê-lo, deve contar com algumas características como: a variedade de caminhos, a possibilidade de interação através da estimulação dos sentidos, a capacidade de prover espaços semi-privados etc. O desempenho de um jardim como esse depende muito da escolha das plantas, e, mais ainda, dos materiais utilizados. Já no artigo sobre o Alzheimer, nós nos referimos a questão da incidência solar. Ela não pode ser omitida, isso é, não se pode criar contrastes muito fortes entre zonas bem iluminadas e sombreadas, nem se pode utilizar materiais que reflitam a luz solar. Da mesma forma, o arquiteto deve levar em conta que alguns pacientes não toleram exposição ao sol, outros que podem ter alergia a determinados tipos de plantas e, consequentemente, deve realizar uma pesquisa sobre os pacientes para os quais vai projetar o uso do espaço.

 Familiaridade

 O ambiente deve ser confortável, prover um espaço para redução do estresse. Isso implica, na maioria dos casos, prover um espaço que lhes seja familiar. Daí que o arquiteto deve estar ciente do contexto cultural da maiorias dos pacientes da instituição. Essa prerrogativa é especialmente relevante no caso do tratamento do Alzheimer como no de instituições psiquiátricas.

 Design positivo

 O interesse aqui, não custa repetir, é diminuir o estresse e, por isso, o desenho paisagístico deve prover conforto, segurança e paz, sem estimular experiências ambíguas, que possam causar mais estresse do que diminuí-lo. Da mesma forma, as plantas tem de ser escolhidas a fim de não atrair espécies consideradas “nocivas”.

 Aspectos relevantes antes de se iniciar o projeto

 Um dos pontos mais interessantes do artigo são essas considerações sobre algumas temáticas relevantes no desenho paisagístico de jardins terapêuticos. Ao iniciar um projeto, diz, o arquiteto deve já ter delineado certos aspectos que servirão de fio condutor para o desenho: o precedente histórico, precedentes domésticos ou atributos regionais, ou a inovação.

Clare cita o precedente histórico como um dos mais relevantes, para o caso que estudamos. Apoiar-se em um precedente histórico não significa sucesso na empreitada, mas tem boas chances de alcançar um retorno positivo para a maioria dos usuários, se bem conduzido. Alguns precedentes são: o pátio interno, o jardim do claustro, o parque urbano e a praça.

Os precedentes domésticos podem ser: o jardim frontal e o jardim dos fundos. Esse último, aconselhável para pacientes de instituição psiquiátrica e de alzheimer, aonde a sensação de segurança é importante. O jardim frontal é, segundo ela, mais adequado aos asilos e hospitais geriátricos, porque possibilitam a interação com o mundo externo.

Por fim, os atributos regionais (jardins que imitam certas lugares bem conhecidos no local, como um rochedo etc.) e a inovação são menos apreciados. Podem ter sucesso, mas os cuidados aqui devem ser maiores (esse pdf no final desse artigo traz uma série de exemplos de jardins terapêuticos, nomeando cada um dos casos aqui citados).

Outras temáticas possíveis são a botânica e aquelas que se baseiam na noção do progresso da doença ou nos estágios do tratamento psicológico. A abordagem botânica, ou ecológica, procura empreender um jardim sustentável. Em alguns casos, utilizam-se plantas medicinais, com o intuito de que, mostrando ao paciente de onde vem o remédio, ele se torne mais aceitável. Por último, a abordagem psicológica procura orientar-se através dos estágios da doença do público-alvo para desenhar o Jardim. Indico, a esse respeito mais esse artigo aqui.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.