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The temple of flora, de Robert Thornton

Ao falar das rosas, Thornton utiliza-a como metáfora do poder imperial, da Inglaterra, ameaçado pelas investidas de Napoleão

Ao falar das rosas, Thornton utiliza-a como metáfora do poder imperial, da Inglaterra, ameaçado pelas investidas de Napoleão

A obra de Robert Thornton, The new illustration of the sexual system of Linnaeus, já foi citada aqui, quando publiquei um artigo sobre as ilustrações botânicas da flor do Maracujá. Nos dias de hoje, já não se trata de uma referência para as ciências biológicas, embora sua relevância histórica atinja campos tão distintos quanto ao da filosofia, religião e artes. Com desenhos que ignoram a prerrogativa crescente na época, de tornar essa prática um apêndice da descrição botânica, Temple of the flower traz uma arte botânica muito vinculada a certos icônes morais e políticos que a tornam ainda objeto de adoração entre os bibliófilos e amantes da arte botânica. Em 2008, ganhou uma edição impressa, limitada a 1980 cópias, encadernada em couro com tecido nas capas, pranchas coloridas para as ilustrações e outras regalias mais que tornaram a edição da Folio Society custar a bagatela de 795 libras esterlinas. A verdade é que essa é a primeira edição completa da obra, que tem outras curiosidades relatadas nesse artigo. Por sua relevância artística, The new illustration of the sexual system of Linnaeus entra como primeiro volume da Biblioteca Jardim de Calateia de Jardinagem e Paisagismo, cuja inauguração, virtual, começa hoje, por esse artigo.

Com 29 anos, médico respeitado na corte britânica e entusiasta da botânica, Robert Thornton, que era herdeiro de uma pequena fortuna, propõe-se a tarefa de escrever, organizar e editar uma obra colossal, que reuniria textos científicos, filosóficos, religiosos e poéticos, a fim de tratar das plantas que aportavam a Inglaterra, vindas do novo mundo, naquele tempo: “O objeto desse trabalho, ele escreveu, é traçar de forma tão perspicaz quanto possível os princípios filosóficos da botânica, desde os primeiros tempos até o presente e, pela fiel e bem executada gravura dos diversos assuntos aqui mencionados, e dar esse curioso e interessante nível investigativo ao entendimento de todos”. A menção a princípios filosóficos, ressalvemos, tem aqui significado moral mais acentuado do que nossa compreensão moderna do termo pode supor. Publicado meio século antes do livro de Charles Darwin, The new illustration é de um tempo em que a a ciência botânica engatinhava, ainda presa a educação moral e religiosa.

Selenicerus grandiflorus, semelhante ao nosso mandacaru.

Embora o cenário não condiga com o habitat natural do Selenicerus grandiflorus , a escolha não é de todo inadequada. O artista joga com os elementos dão a essa flor uma característica especial, a igreja, segundo Thornton, mostrando a hora “exata” em que a flor abre. Todas a licenças poéticas dispensadas.

Testemunha disso é o trecho que acompanha a ilustração da Murucuia, o nosso Maracujá, Passiflora cerulea, ou flor da paixão, pela associação feita ao formato da planta com a Paixão de Cristo: “A flor permanece aberta por três dias, e depois desaparece, denotando a ressurreição”. Além disso, a planta apresenta três estigmas, como eram três os cravos que prenderam cristo na cruz, já cinco anteras, como as cinco chagas, e, por fim, as gavinhas, que representam os açoites infligidos. Essas associações feitas pelos religiosos europeus que aqui aportaram são as responsáveis por, até hoje, conhecermos a flor do Maracujá, como a flor da Paixão de cristo.

Em outro trecho, sobre o Dracunculus vulgaris, confessa seu horror pelo formato da planta e, tamanha a rejeição, se imiscui da descrição botânica, afirmando apenas: “seu sexo está enrolado com o oposto! – que confusão! Toda envolta em horror; ou quem sabe para avisar ao viajante que seus frutos são venenosos, belos aos olhos, porém fatais ao gosto, assim o plano da Providência, e assim sua sabedoria resolve”.

É verdade que Thornton concebeu o empreendimento não apenas como científico, mas, de certa forma, também comercial, uma vez que pretendia, com as assinaturas feitas pela própria rainha e membros da alta sociedade inglesa, ter o retorno do investimento através da venda de fascículos. Daí, talvez, os esforços em fazer essas associações. Essa hipótese é reforçada ainda por outras passagens, especialmente aquela das rosas, em que a flor simboliza a rainha, cujos defensores portam espadas, comparadas aos espinhos, contra um ousado invasor (Napoleão).

Tenha sido um esforço comercial ou patriótico, o fato é que a empresa de Thornton ruiu e, com ela, o livro e seu autor. Tendo contratado os melhores ilustradores e investido a fortuna que herdara, nosso botânico inglês faliu e morreu pobre, sem ver a sua obra completamente impressa em vida.

Mais interessante ainda do que essas histórias, são as ilustrações feitas para o compêndio. Menos áridas que a tendência continental da época de relegá-las a apêndice científico, estão cheias de símbolos religiosos e políticos que correspondem aos assuntos já mencionados. Algumas delas nos causam estranheza e até riso, por certa ingenuidade no traço. São, de toda maneira, admiráveis pela vivacidade das cores.

Canna patens, ou canna indica.

Uma das espécies brasileiras que ilustram o livro. Nativa de nossa mata atlântica, é aqui mostrada em região montanhosa, com um grande monte ao fundo, que talvez tenha sido sugerido ao ilustrador pelo nome indica .

Por questões de espaço, estou disponibilizando apenas o terceiro volume,The temple of Flora que é o mais interessante ao meu ver.

Fontes:

http://www.gardendesign.com/ideas/art-botany-robert-thorntons-the-temple-of-flora

http://www.telegraph.co.uk/gardening/3349801/The-Temple-of-Flora-Robert-Thorntons-botanical-publishing-folly-rises-again.html

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.