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Ao Jardim de Calatéia, DESTERRO: Abraços, paineira

Ao Jardim de Calatéia, DESTERRO.

Capão do mato na fazenda Baculerê, Olímpia, SP. Todas as fotos desse post são da autoria de Everton Augusto Pessoa D’Avila

Abraços, Paineira.

Há sinais de mudança. De toda forma, ela se apresenta tão sutil que poderíamos dizer, com poucas letras, que está próxima da ordem natural das coisas. Ao bem da verdade, seria um exagero afirmar tal aberração da realidade fundada sob um amalgama natural.

A clara torre se direciona à estrela do amanha, e tem algo a nos dizer. Daqui, das terras longínquas, nós navegantes do velho sonho ininterrupto declaramos sob todas as consignas:

– Vida longa aos Náufragos. Os surrealistas erraram a direção!

Não há como reviver a era dos mitos, sejam eles greco-romanos, quando não cristianismo em busca de uma nova freak-ção. O mundo das metáforas, e até mesmo da representatividade cosmológica, por mais que se declare violência simbólica em seu percurso, não altera a história.

Fadados ao fracasso, permaneceram assim dadaístas e surrealistas, engrossando as filas do pessimismo revolucionário de um Debord, que ousou intervir através da arte, da criação histórica, do sonho, do mito, ETC… (Espetáculo em três pontinhos), os pilares da plena liberdade ultrajada em sua direção “desejavelmente” individual.

A beleza não está imune de contradição. Helena, mulher em perfeição despertou cavalos de Tróia por todos os cantos, quando um belo dia o vapor tomou conta das carroças.

NO AR: Do velho buteco de cigarros acesos, o velho barbudo interfere na transmissão via radio das ideias exaltando o “tudo que é solido se desmancha no ar”.

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Fotos de Everton Augusto Pessoa D’Avila

Há de convir que não é possível nos debruçarmos no mito as incertezas do amanha. Mas como todo e velho banquete dionisíaco, nos permitimos em certo tempo, e passos tortos, reencontrar Helena de olhos tapados vagando pela cidade.

Aqui, as paineiras do nostálgico verão se despedem neste fim de outono. O tapete que forrou milhares de ruas, calçadas, becos, vielas e praças, com suas flores branco-rosáceas, vão sendo varridas pelo tempo gelado que se aproxima. Nas mais jovens, com seus acúleos protetores, os rizomas agora depilados esbravejam a soberba paina-de-seda incitadora de sonhos. (orelhas-olheiras a postos). Nas mais antigas, barrigudas em gestação, passarinhos constroem ninhos em busca de proteção.

 

Mas Helena só tem olhos para os prédios. Prefere os contos de Baudelaire à moda vulgar de contar o cotidiano da vida de lúmpen destronada. Almeja caminhar sob as ruínas e suas consoantes decadências em vez do frenesi societal.

Ato I – (Quando passou por aqui, deu-se inicio a canção)

Paineira, Bairro Jardim Glória

Paineira, Bairro Jardim Glória, Olímpia. Fotos de Everton Augusto Pessoa D’Avila

As marcas do outono são como hiatos. Pausadamente se calam em hibernação anunciando em seu porvir uma nova floração. Mais fácil que chegar ao Céu, é você caminhar passo a passo até a lua. Pra olhar o sol nascer…

Os gregos em suas mitologias foram extremamente astutos em suas composições. Seus irmãos, Pólux e Castor, em seu sacrificante resgate pagaram um preço alto a imortalidade. Alternando entre a vida e a morte, no céu e na terra, dia e noit’e dia, os gêmeos, irmãos de Helena constituíram sua constelação – Inocente e Pueril.

Ato – II (Morre-se a narrativa, encarna-se a criação)

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Fotos de Everton Augusto Pessoa D’Avila

 

O sertão ainda constitui-se palco dos reveses multi-coloridos que habitam as cidades. Nem tudo que é verde impressiona os olhos. Por trás das lentes esfumaçadas podem-se ler nas placas, direções, sentidos e nomes, o meio-fio das velhas casas. A idade permuta-se no tempo. Omitem-se o dialogo. O cinza que move os ventos põe-se na mesa mais um prato.

Hoje é dia dos abraços, e as paineiras estão atentas. As juvenis arranham-se os braços, enquanto as mais velhas arreganham-se e apertam o passo. Solitários são os postes, com suas luzes baleeiras. Ora acendem, ora apagam. Enquanto dormem, triste mesmo é a SECA.

De repente, re-pentino, um estalo sobre-mesa.

– Onde está o lampião Curisco, se a terra é de palmeiras?

baculerê

Fotos de Everton Augusto Pessoa D’Avila

Não Helena.
As paineiras já deixaram seu rastro.
Um livro aberto sobre a rua.
Um espasmo sem orgasmo.
Nessa terra toda crua nua
Vestida de embaraço,
Esperamos pelo Ipê
Em nossa casa
Um panelaço.

Onde nóis come, bandeira
Sempre come mais um,
Dois, cem por um
Come a flor de um banquete,
Come a flora matinal,
Come todos,
Não desleixe,
Como a féra-feira conjugal.

Na lama
Na grama
Na cama
Nosso cortiço ainda te chama,
Pois aqui,
Dizem os da fama,
Que tem amor aos que se ama.

A poesia se despede.
Com as paineiras e seus dramas.
Deixemos os conflitos com os Ipês
Sabe-se lá de seus por quês.
E se perguntarem por ela…
Diz que FLORESci Helena!
Internacionau Cheguidali – 22/05/2014
Curupira Caipira – sertão de Olympia.

 

 

 

About João V.M. Ramos

Geógrafo, co-fundador da Internacionau Cheguidali, amante dos bares e butecos e situacionista por acaso.