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As mudanças do governo turco para o Taksim Gezi Park

EDIÇÃO: O vídeo abaixo havia sido disponibilizado pela Landscape Architecture Magazine, através do sítio oficial do governo turco, que o removeu há poucas horas.

Algumas horas depois de haver publicado um post sobre a questão urbanística envolvendo os protestos na Turquia, recebi uma atualização do Landscape Architecture Magazine, ótimo site sobre Arquitetura Paisagística. Nela, foram postados dois vídeos que mostram quais os planos do governo turco para o local, e porque eles acarretaram a revolta. Basta uma olhadela para perceber a mudança brutal que ocasiona e, mais do que isso, como ela interfere não apenas no lazer, mas também na vida cotidiana de quem vive e depende daquele lugar. Alguns relatos dão conta de tapumes e muros erguidos do dia para a noite em frente ao comércio e entradas de residências. 

Segundo o Landscape Achitecture Magazine, o governo turco desistiu da implementação do shopping, porém ainda planeja mudanças bruscas para o local. Como já foi dito no outro artigo, essa discussão, que às vezes parece tão distante de nossa realidade, se reflete na maneira como as capitais brasileiras têm levado a cabo mudanças no projeto urbanístico, tendo em vista a copa do mundo.

Para citar um exemplo, meses atrás, discutia aqui um projeto do ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, para a orla do Guaíba, em Porto Alegre. Um dos fatores apontados foi justamente como, ao representar o entorno viário, Lerner disfarçava a absoluta falta de planejamento para a área, omitindo das imagens qualquer vestígio de ocupação humana, seja de pedestres, bicicletas ou carros. Há algumas semanas, pois, a cidade anunciou a derrubada de inúmeras árvores para construção de avenidas, incluindo aí o entorno viário da orla. Apesar da contratação por “notório saber” do arquiteto Jaime Lerner, os projetos não são o mesmo e já foi inúmeras vezes noticiado que a empreiteira responsável pelas obras financiou a campanha do atual prefeito Fortunatti. É dizer, além do absurdo da obra atual, houve investiu-se, a um só tempo, em duas obras para o mesmo local. As duas foram pagas, mas só uma está sendo realizada.

Já em Florianópolis, cuja candidatura a subsede foi rejeitada, o plano, protelado muitas vezes, é a destruição da Ponta do Coral para construção de empreendimento turístico. Falo em destruição porque não vejo outro termo digno para as obras que incluem, primeiro, aterramento e duplicação do terreno e, posteriormente, adequação da área para acomodação de uma marina, incluída no projeto.

Apesar da negativa do Prefeito Cesar Souza Jr. de que irá autorizar o projeto tal qual foi apresentado, não há o menor sinal de que a prefeitura tenha interesse em respaldar as iniciativas de movimentos sociais, que querem um parque público, de cunho cultural, que compreenda as três pontas, do Coral (em frente a Casa do Governador), do Lessa (próximo ao Angeloni)  e do Goulart (bairro João Paulo). 

Não quero me ater em devaneios, misturando realidades e contextos completamente distintos, porém é interessante notar que, lá como aqui, há um notório desinteresse dos governos em prezar pela coisa pública. Na Turquia ou em Florianópolis, os governos parecem viver numa pequena redoma que os isola de qualquer vínculo com a realidade, seja ela ambiental, cultural, ou social.

Se, no ?éculo XIX, houve um grande paisagista como Frederick Olmsted, que defendia a aproximação do público com o meio ambiente como melhor forma de fazê-lo compreender a sua importância, no século XXI, falta quem vá ao pé do ouvido de nosso prefeitos e diga-lhes que suas idéias caducam desde já dois séculos. Falta enfim, até mesmo, que os profissionais do ramo se unam em torno dessa questão. 

Nesse sentido, fico feliz em ver o Jardim de Calatéia lado a lado com o Landscape Architecture Magazine, como um dos poucos veículos do ramo que sentiu a importância dos eventos na Turquia na discussão sobre urbanismo e arquitetura paisagística. E abro o espaço para o debate.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.