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Histórias de árvores e de gentes

araucaria angustifolia, paisagem e história

Araucária angustifolia. Em São Paulo já não há uma para contar a história.

Passeando hoje pela blogosfera, fui parar debaixo da sombra do Árvores de São Paulo. Até então desconhecido para mim, o blog é mantido pelo jornalista e biólogo Ricardo Cardim, que mantém, no programa Metrópole, a coluna Natureza Urbana. Em ambos, programa e blog, o jornalista, além de contar histórias sobre a vegetação paulistana, traz algumas dicas sobre árvores nativas e espécies ameaçadas. Dois posts me chamaram a atenção. Um falava da vegetação de cerrado e da biodiversidade “escondida” por debaixo do tapete cinza que sustenta o trânsito insuportável da terra da garoa; outra, sobre o distrito de Pinheiros (não confundir com o bairro homônimo), onde haviam sido plantadas diversas araucárias em uma praça, há três anos. Esse último, mais precisamente, é o mote para esse texto, embora quem for ler o outro, também identifique algumas questões coincidentes.

Ainda que a araucária seja uma espécie pouco comum na arborização urbana, o que me chamou realmente a atenção nesse texto foi a maneira como Cardim conta, com pesar, a morte dessas mudas plantadas em uma praça da cidade, três anos atrás. Descaso, falta de manutenção mínima, mais ainda, um caso de omissão do poder público e da sociedade, em geral, para com a memória do lugar. Afinal, Pinheiros, conforme relata o jornalista, deve seu nome a grande quantidade de Araucaria angustifolia na região, quando da primeira povoação mista, de portugueses e índios, ainda no século XVI: Nossa Senhora dos Pinheiros. A versão, vim saber depois, é parcial e controversa, uma vez que o nome poderia também derivar da forma como os índios chamavam o rio, hoje conhecido pelo nome do distrito. Pi’iêre, diziam-no. O que, por corruptela, pode ter originado o nome atual, pinheiros. De toda forma, é verdade que as araucárias abundavam na região de São Paulo, estendendo-se sua abrangência desde ali até a Argentina, passando pelo Paraná, estado que a tem como árvore símbolo.

Cardim relata que, no distrito, assim como no importante parque Villa-Lobos, não há sequer uma araucária plantada. O fato não se dá apenas porque sua galharia a torna pouco indicada para regiões com grande fiação. Parques e praças com espaço suficiente para que seu crescimento não virasse um transtorno poderiam muito bem abrigá-las. O lugar escolhido para o plantio dessas mudas no relato do jornalista era apropriado. E foi essa, talvez, a única tentativa de fazer um resgate da memória mais remota da cidade. O fracasso da iniciativa não reflete apenas um descaso com a arborização urbana, mas também com a história da paisagem e das relações que a gente que aí viveu  estabelecera com ela.

Um tema, por sinal, que já foi assunto duas vezes aqui no Jardim de Calatéia. Primeiro, com esse texto sobre o jardim etnobotânico de Oaxaca e, mais recentemente, neste artigo sobre inscrições arboríferas. O assunto me é caro, e por isso salpica lá e cá em quase todos os textos. Interessa a relação homem/paisagem, mas também a interação homem/plantas dentro de uma determinada cultura. E, depois, as influências que uma exerce sobre a outra.

As relações homem e paisagem e os jardins etnobotânicos

No primeiro caso, homem/paisagem, a aparente oposição entre os termos é enganosa. A paisagem só existe frente ao olhar humano e não deriva daí nenhum tipo de afirmação do tipo “as coisas só existem para o ser humano” (que é uma falácia). A paisagem como elemento humano se apresenta como algo passível de contemplação e modificação. Só existe para ele porque é apenas através do seu olhar e enquadramento que se converte em paisagem o que antes era natureza.

A relação seres humanos / plantas é do tipo sujeito-objeto, ou ao menos, é assim percebida pelo primeiro. Não quero iniciar uma longa filosofia. Talvez minha constatação esteja errada, ou desprovida de fundamentação teórico e de base empírica. Mas é, de toda maneira, curioso notar como, ao longo da história, modifica-se o uso das plantas conforme a paisagem vai sendo modificada. Isso é, seu uso medicinal, por exemplo, sofre com o surgimento de novas tecnologias – tratamentos e medicinas. Com o esquecimento da prática, o cultivo da planta é gradualmente abandonado, podendo ou não acarretar no próprio desaparecimento da planta daquele contexto.

No contexto da paisagem, quero dizer, no caso específico da paisagem urbana, árvores e outros vegetais foram em muitos lugares, relegados a objetos de segunda classe, supérfluos, decorativos, enfim, mas sem valor utilitário reconhecido. Assim é que ergue-se um muro com a mesma rapidez que se desfazem as cercas vivas e tombam as araucárias, para voltar um pouco à introdução. Da mesma forma, é mais fácil reconhecer um prédio histórico como portador da memória da cidade do que uma árvore. Pelo menos quando se medem as possibilidades de um deles ser ou não derrubado para, digamos, passar uma nova avenida. Ou, como dizia um outro blogueiro, o lema é “Tranformar o mundo numa laje“.

É por isso que quando ouço falar no surgimento de um novo jardim botânico cujo programa não seja extensamente etnobotânico penso que há por detrás um discurso político-imobiliário sendo maquiado de discurso ambiental. Um jardim botânico, por fim, deve ter como programa pedagógico mais do que ensinar sobre uma natureza edênica, anterior a intromissão do ser humano, ensinar sobre essas histórias de “árvores” e de gentes que a gente esquece quando está por aí, numa relação entre pessoas, “silício” e concreto.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.