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Novidades na busca de plantas ornamentais: critérios e conceitos

Nenhum critério para classificar plantas deve ser tomado como absoluto. O Ciclame, por exemplo, é considerado uma planta anual, mas é, na realidade, uma planta perene, se cuidada adequadamente.

Nenhum critério para classificar plantas deve ser tomado como absoluto. O Ciclame, por exemplo, é considerado uma planta anual, mas é, na realidade, uma planta perene, se cuidada adequadamente.

O segundo ano do Jardim de Calatéia terminou. Começa agora a caminhada do terceiro ano, e, para isso, preparamos algumas novidades, conforme eu anunciei no post passado, que veio à guisa de comemoração. A primeira novidade de que quero dar conta é a maneira como foi organizada a busca por plantas ornamentais. Trata-se de um projeto antigo do site, que ainda não foi levada totalmente acabo mas que, até onde chegamos, significa um passo enorme.

Basicamente, a busca por plantas ornamentais foi dividida em quatro critérios: seu uso paisagístico, a iluminação adequada ao cultivo, o clima apropriado e, por último, o ciclo de vida. São critérios que normalmente o paisagista e o jardineiro leva em conta ao escolher as espécies mais afins a constituição do jardim, mas que normalmente não figuram no índice de busca nem dos livros, nem da maioria dos sites especializados. Sem entrar no mérito sobre qual a melhor forma de organização, o objetivo do Jardim de Calatéia, ao fazê-lo, é justamente dar ao leitor a oportunidade de buscar menos por uma planta específica do que a possibilidade de escolher quais plantas se adequam a sua necessidade.

Assim, a cada um desses critérios correspondem categorias mais ou menos específicas, cuja escolha se dá pelo tratamento comum dado nas referências consultadas. Como pretendo discutir em cada item, poder-se-ia utilizar classificações mais específicas para cada critério. Com efeito, algumas espécies podem adquirir comportamento diverso conforme o clima, suportando maior ou menor período de sol, por exemplo. Acontece com os tomates, que precisam de muito sol para crescer, mas também de uma umidade do solo adequada, de tal maneira que, em terrenos mais secos, expô-los diariamente a pelo menos 6 horas de sol, sem uma irrigação adequada, pode ser fatal.

Assim é que, em vários países, utilizam-se dois critérios para avaliar a possibilidade de cultivo de uma espécie sem o auxílio de uma estufa, ou como plantas de interior. São os chamados Hardiness Zones (traduzindo grosseiramente, zonas de temperatura mínima) e Heat Zones (zonas de temperatura máxima). Ambos os critérios foram estabelecidos pelo United States Department of Agriculture (USDA, sigla para Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América). De acordo com esse órgão:

As zonas de temperatura mínima estão baseadas de acordo com a média anual de temperatura mínima extrema num período de 30 anos passados, não na mínima temperatura que já ocorreu, nem na que poderá ocorrer.

Hardiness zones are based on the average annual extreme minimum temperature during a 30-year period in the past, not the lowest temperature that has ever occurred in the past or might occur in the future. (USDA – About Maps and Gardening)

Classificação das zonas de cultivo de plantas ornamentais, conforme a média de temperatura mínima nas regiões dos EUA. Fonte: USDA

Classificação das zonas de cultivo de plantas ornamentais, conforme a média de temperatura mínima nas regiões dos EUA. Fonte: USDA

O mesmo valendo para as Heat Zones (zonas de temperatura máxima), o cruzamento de ambas as informações permite ao jardineiro, amador ou profissional, escolher com maior precisão as espécies que vão se adequar ao cultivo externo em determinada região. De acordo com o site do USDA, esses fatores não são únicos e deve-se levar em contas outros critérios, como: luz, umidade do solo, média de temperatura, duração a exposição ao frio e umidade relativa do ar.

No Brasil, prevalece o conhecimento adquirido pela experiência, dicas de amigos ou parentes (a quem atribuímos o poder mágico do “dedo-verde”) quando não o livro de receitas dessa ou daquela floricultura. Quando compramos uma planta, costumam nos dizer: essa vai bem à meia-sombra, aquela gosta de muita água. Pouca gente pergunta pela textura do solo ou pela úmidade necessária, se tolera geadas, etc.

Isso vai com um pouco de sorte porque as variações climáticas em nosso país, embora existam, não sejam tão grandes quanto nos EUA, por exemplo. Ao mesmo tempo, o cultivo aqui limita-se, em grande parte, a espécies tropicais e, por outro lado, a espécies adaptadas aos locais em que são vendidas. Que fique bem claro, com tempo e paciência, as plantas podem ir aos poucos se adaptando a climas onde antes não prosperariam. Faça uma experiência com sua samambaia cultivada à sombra, por exemplo, movendo-a a um lugar mais iluminado, ganhando uma hora de sol a mais por mês e… voi-lá.

Bem, mas isso é tema para outro artigo, já na pauta. O que desejo aqui é apresentar os critérios e categorias escolhidos. Devo ressaltar que eles não servem como receitas. O que se pretendeu aqui foi possibilitar ao usuário do Jardim de Calatéia a possibilidade de explorar nosso acervo de plantas através de escolhas pouco utilizadas, mas que, ao invés de conduzi-lo diretamente a um resultado específico, possibilitem-no conhecer mais de uma espécie que se adeque às suas necessidades. 

Veja na galeria abaixo, como ficam as páginas de busca

Plantas Ornamentais conforme o uso Paisagístico

A idéia surgiu depois de observar como outros sites estavam organizando suas publicações sobre plantas. No começo, procuramos nos adequar ao comum nesses casos: categorização por família botânica, gênero, nome científico e nome popular. Entretanto, esses dados já constavam da ficha anexada em cada post. Além do mais, quem aportasse o site procurando algo específico, poderia encontrá-lo facilmente através do formulário de pesquisa. Por isso, a idéia era dar ao leitor a oportunidade de conhecer novas plantas, filtrando os posts por uma ordenação que refletisse questões como: uso paisagístico, clima, iluminação e ciclo de vida. 

Foi excluída a categoria “Plantas de interior”, porque essas podem ser encontradas na página que organiza as espécies conforme sua necessidade de luz – em geral, as de sombra. Ademais, o termo “de interior” é bastante abrangente, podendo significar a sacada fechada de um apartamento com luminosidade solar intensa, ou a sala de estar que recebe cerca de 3 horas diárias de luz direta. 

Também se incluem na busca por uso paisagístico, como categorias aparte, as bromélias, suculentas e orquídeas, uma vez que são plantas com uso bastante específico ou de coleção.

Plantas Ornamentais conforme a luminosidade

Classificação das zonas de cultivo, conforme a luminosidade. Tradução no texto. Unidade: Vela. Fonte: Colorado State University

Classificação das zonas de cultivo, conforme a luminosidade. Tradução no texto. Unidade: Vela. Fonte: Colorado State University

Embora exista, a maneira da já mencionada Hardiness Zones, um critério bastante específico para se avaliar a necessidade de luz de uma espécie, optamos por uma via mais simples. O critério mencionado é relativamente bem utilizado pelos orquidófilos e baseia-se nas Foot Candles, ou velas-pé, e toma uma vela como unidade de iluminação. Trata-se de uma medida ultrapassada, mas que, grosso modo, de acordo com o site da Colorade State University, permite avaliar o comportamento de uma planta conforme a luminosidade. Levado em conta essa classificação, teríamos (optei por uma adaptação ao invés da tradução literal, o original está aí para vocês conferirem):

  • Sol pleno – sol direto por pelo menos 8 horas diárias, incluindo das 9 às 16hs;
  • Sol pleno com calor refletido – Onde plantas recebem calor refletido de um prédio ou outra estrutura, temperaturas podem ser extremamente quentes. Essa situação limita a escolha de espécies.
  • Sombra matutina com sol vespertino – Também limitadora na escolha de plantas.
  • Sol matutino com sombra vespertina – Ideal para a maioria das plantas.
  • Luz solar filtrada – Na natureza, abaixo de árvores, podendo variar da sombra intensa, até luz difusa.
  • Sombra aberta – Onde o sol é intenso, mas bloqueado pela presença de edifícios ou muros.
  • Full sun – Direct sun for at least 8 hours a day, including from 9 a.m. to 4 p.m.
  • Full sun with reflected heat – Where plants receive reflected heat from a building or other structure, temperatures can be extremely hot.  This situation significantly limits the choice of plants for the site.
  • Morning shade with afternoon sun – This southwest and west reflected heat can be extremely hot and limiting to plant growth.
  • Morning sun with afternoon shade – This is an ideal site for many plants.  The afternoon shade protects plants from extreme heat.
  • Filtered shade – Dappled shade filtered through trees can be bright shade to dark shade depending on the tree’s canopy.  The constantly moving shade pattern protects under-story plants from heat.  In darker dappled shade, only the more shade-Tolerant plants will thrive.
  • Open shade – Plants may be in the situation where they have open sky above, but direct sunlight is blocked during the day by buildings, fences and other structures.  Only more shade-tolerant plants will thrive here.
  • Closed shade – The situation where plants are under a canopy blocking sunlight is most limiting.  Only the most shade-tolerant plants will survive this situation, like under a deck or covered patio. (fonte: Colorade State University, Plant Growth Factors)

 No Jardim de Calatéia, optamos pela classificação mais simples, em que figuram apenas três distinções:

  1. Sombra – menos de 3 horas de luz solar direta ou luz difusa durante todo o dia;
  2. Meia-sombra – de 3 – 6 horas de luz solar direta;
  3. Sol Pleno – acima de 6 horas de luz solar direta.

A justificativa para tanto é: primeiro, facilitar a vida do leitor; segundo, a inexistência de uma bibliografia segura específica para o Brasil que dê conta de uma classificação mais abrangente.

Plantas ornamentais segundo o clima

Como já foi dito acima, os critérios escolhidos são bem abrangentes: tropical, subtropical e temperado. Sempre que necessário, aqui, como em outros casos, o artigo traz detalhes como, por exemplo, “não se adapta bem a maresia” etc.

Plantas ornamentais conforme o ciclo de vida

Para essa página, limitamo-nos a dois critérios: anual e perene. Para todos os efeitos, foi considerado, mór das vezes, o tipo de cultivo. Por exemplo, o Cyclamen persicum Mill embora seja perene, foi considerado anual, porque é assim cultivado. Da mesma forma, embora seja anual, a Portulaca grandiflora Hook. foi considerada perene e aparece nos dois resultados. Pode parecer estranho, mas a verdade é que essa essa planta, quando cultivada adequadamente, devido sua forma de multiplicação, não chega a desaparecer por completo, sendo, assim, tratada como perene e não anual. 

 

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.