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O primeiro ano de Calatéia: o jardim e o blog

Há um ano, mais exatamente no dia 30 de junho de 2011, o Jardim de Calatéia abriu suas portas como blog baseado em WordPress, com o post O Jardim Selvagem de Rosa Kliass. O artigo dava início a uma filosofia que o site herdou do blog, a saber, escrever sobre o paisagismo e a jardinagem desde uma perspectiva cultural, que desse conta dos pressupostos artísticos e sociais da produção paisagística. Em boa parte, a empreitada se inspirava na recém iniciada leitura de um livro de Guilherme Mazza Dourado, um dos autores mais aprofundados nesse tipo de abordagem por essas plagas. O livro, Modernidade Verde – Jardins de Burle-Marx, faz uma bela retrospectiva do ambiente artístico, cultural e político que antecedeu os primeiros projetos de Burle-Marx, desde o séc. XIX até a primeira metade do século XX, passando pela semana de 22, cujos 90 anos recém foram comemorados.

Logo do Jardim de Calatéia, por Leandro Pitz

O logotipo do Jardim de Calatéia foi produzido por Leandro Pitz

Jardim de Calatéia iniciou com uma proposta mais modesta. Naquele 30 de Junho, eu escrevia sobre o jardim projetado por Rosa Kliass para uma peça do Teatro Oficina, cuja estréia eu iria assistir e voltar a escrever a respeito em 16 de agosto daquele mesmo ano. A cenografia da peça decepcionou e, ao final, descobri que o nome de Rosa Kliass aparecia apenas por uma homenagem do grupo a arquiteta, em função uma consultoria prestada. De toda forma, o assunto rendeu o suficiente para dar o combustível inicial para o blog.

De início, a ideia era fazer dele uma plataforma de estudos, um espaço mais despojado para compartilhar e discutir as pesquisas e aprofundar o estudo sobre paisagismo, por onde eu recém me iniciava, vindo do teatro e da psicologia e me preparando para uma temporada de três meses em São Paulo. A prática me fez tomar o gosto pelo ofício e o contato com alguns sites estrangeiros como o Garden Design, o ArchDaily, e The Galloping Gardener, além da relativa ausência de recursos aparentados na internet nacional (o ArchDaily acaba de lançar uma filial brasileira, é verdade, mas ainda uma filial), deram a ideia que comecei esboçar e amadurecer de tornar o blog num site atraente que desse ao leitor uma gama variada de recursos e informações que abordassem os conteúdos do projeto inicial.

De dezembro a março, basicamente todo esforço foi direcionado nesse sentido. Conhecendo pouco ou quase nada de programação, fucei o que pude na internet para terminar a primeira versão estável, ali por abril e que continua até agora. Aos poucos, estou fazendo disso uma atividade cotidiana e de tempo integral.

Não é tarefa fácil. Mas os quase 75 mil acessos ao longo de 12 meses são, a meu ver, um bom sinal de aceitação. Uma média que beira os 6 mil acessos mensais, coisa bastante digna, a meu ver, para um empreendimento ainda quase solitário e com uma divulgação muito pequena.

De toda forma, o Jardim de Calatéia não para por aqui. Num futuro bem próximo, gostaria de ver outras pessoas engajadas com a produção de conteúdo. Até o momento, contei com a ajuda de diversas pessoas, dentre as quais eu destaco minha namorada Sarah Pusch, Teresa Siewerdt, artista plástica e amiga de longa data e minha irmão Fernanda Gorski, arquiteta que dá muitos toques e dicas para o conteúdo. Além destes, é claro, a contribuição do artista e designer gráfico Leandro Pitz, paciente e incansável companheiro de charlas literárias, que nos presenteou com esse mais do que belo logotipo, cuja breve história eu conto logo abaixo.

 Calatéia, personagem ou planta?

Calathea burle-marxii Planta que inspirou o nome do site.

Ainda antes de eu pensar em constituir o blog, minha irmã e meu cunhado haviam me dado essa sugestão: unir o conhecimento literário com o paisagismo. Sugestão, aliás, confesso, que estranhei um pouco, mas que matutei um bocado. Eu conhecia é claro, um par de boas descrições de jardins ou alusões florais na literatura. Nesse site, já surgiram duas: Machado de Assis, e Hesíodo. Mas a ideia de ligar as duas coisas me pareceu um pouco distante.

Grafite em muro de Toronto. Uma das imagens enviadas para a composição da logo.

Logo que me surgiu o conceito do blog, fiz uma visita com a turma do curso de Jane Pilotto na Unidade de Conservação da UFSC, em Florianópolis, onde uma espécie de maranta verde que nos era apresentada como espécie nativa me chamou a atenção. Durante todo o passeio, eu fiquei me indagando sobre não havermos citado a planta em nossos atelier para compor o projeto final, nem durante o curso. Ninguém ali, nem o líder da trilha, conhecia o nome científico. Cheguei em casa disposto a encontrá-la e bastou abrir a bíblia (Plantas Ornamentais no Brasil, de Hari Lorenzi) para o nome bater na cabeça e reverberar como uma melancólica e esquecida, mas forte e perspicaz, personagem de Clarice Lispector: Calathea burle-marxii. Pensei em Macabéia, vocês devem ter suposto, sem identificar nem o verde das folhas, nem a flor (que os americanos patentearam Blue-ice), mas a sonoridade que me surgiu como uma personagem ainda mal acabada, mas pulsando de vida.

No fim de semana seguinte, fui até a casa de minha irmã e falei da ideia: “vou abrir um blog, vai se chama Calatéia, Jardinagem e Paisagismo. É bom, porque já fica como nome para um futuro negócio na área”. Ela respondeu que o nome parecia um personagem literário e perguntou o que era. Mais a frente, com quase um mês no ar, me passou pela cabeça que Calatéia era nome de Jardim. E o modo como o povo no nordeste fala, Jardim de Calatéia, pareceu mais natural para identificar o propósito artístico-literário com o Paisagismo. E foi assim que nasceu Calatéia.

 O logotipo das mãos de Leandro Pitz

 Em abril desse ano, encontrei o Leandro. O Pitz, como eu e alguns outros amigos chamam. Eu sabia que ele trabalhava com design gráfico, mas desconhecia o seu trabalho. Nos tornamos amigos há pouco tempo, embora já desde 2003, quando eu e mais dois outros amigos montamos um sítio de artigos sobre política, ainda antes do segundo boom dos blogs no Brasil.

Logo do Jardim de Calatéia, por Leandro Pitz

O logo de Leandro Pitz. A personagem com feições fortes, a cabeleira, a idéia de arte e paisagismo no desenho.

Contei a ele numa festa sobre o site e disse que faltava um logotipo, mas ainda não sabia a quem recorrer. Ele se prontificou. Dois meses depois, nós começamos a discutir o assunto. Dei a ele algumas imagens, expliquei o conceito e identifiquei planta para ele. Pedi que a ideia entre arte e paisagismo se fortalecessem, e expliquei a ideia da personagem.

O resultado foi muito além do esperado e ainda proporcionou uma ligeira mas providencial alteração no lay-out. Na minha opinião, uma qualidade visual em termos de identidade que eu não esperava alcançar tão cedo. Ao invés do recurso usual e fácil do motivo floral entre os cabelos, ou formando o rosto da personagem, Leandro Pitz retoma, de certa forma, o estilo dos cartazes de Art Nouveau (aliás, também conhecida como Arte Floreal), mas invertendo a ordem, realçando a silhueta como uma forma vazia, cujo contorno só é alcançado através das folhas. Assim, deixa o desenho limpo, ao mesmo tempo inteligível e de livre-interpretação do observador.

Não seria demais dizer, nem agradecer, a compreensão do conceito do Jardim de Calatéia, que procura traduzir, na forma de uma revista eletrônica sobre o assunto, aquela sugestão de Rosa Kliass: o lugar tem de sustentar o enredo.

 Nesse último mês, Calatéia apresentou duas novidades: A Biblioteca Jardim de Calatéia de Paisagismo e Jardinagem e a possibilidade de colaboração do leitor com esse Jardim. Quanto a Biblioteca, o objetivo é chegar a pelo menos 50 “volumes” até o final de julho. Quanto a Colaboração, só depende do leitor.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.