Home / Editorial / Sobre paredes de concreto e plantas de interior. Os termos estão invertidos.

Sobre paredes de concreto e plantas de interior. Os termos estão invertidos.

Bambu mosso, plantas de interior | Jardim de Calatéia

“Por outra parte, como justificar a captura de um indefeso bambu-mossô sendo trancafiado para sempre dentro de um cachepô? Você acha lindo? Acha mesmo?” (Raul Canôvas).

Num texto que já está prestes a completar três anos, o arquiteto e paisagista argentino radicado no Brasil, Raul Canôvas abria fogo contra o uso “desavisado” de certas espécies como plantas de interior. Na ocasião, saía em defesa do Bambu Mossô (Phyllostachys pubescens pubescens), espécie ainda muito utilizada na decoração de interiores, especialmente em eventos glamourosos. A indignação do arquiteto poderia ser resumida na seguinte pergunta: se é verdade que as plantas podem trazer conforto e qualidade de vida no interior de um escritório, será mesmo que a vida no escritório pode trazer qualquer benefício para a planta?

Se você não tem uma resposta pronta, procure olhar em volta e perceber como estão dispostos os ditos “espaços verdes” em edifícios e escritórios, até mesmo em eventos e festas. Questione-se, por exemplo, se aquela espécie sobreviveria naquele mesmo local por mais algumas semanas sem receber a luminosidade adequada. Qual seu destino após a festa: será recuperada, reutilizada, ou substituída por outra, igual ou semelhante?

Sempre que vou a um restaurante, ao museu ou a um evento de grande porte, fico imaginando esse tipo de coisa. Mesmo sabendo que, hoje em dia, há pessoas especializadas no aluguel de plantas. Gente que se dedicam a manter saudáveis um certo número de espécies para que pareçam naturalmente à vontade num ambiente em que jamais cresceriam. Não obstante, a dúvida permanece. E, assim, mais de uma vez, surpreendi-me questionando se aquela orquídea no banheiro da última vernissage era de plástico ou não. Se havia algo por trás daquele aquário limoso no restaurante à beira-mar. E, não raro, distraí-me tocando as pétalas de uma rosa, a verificar se era realmente uma rosa a flor que repousava num jarro d’água na sala de estar.

O conhecimento científico e o desenvolvimento de novas tecnologias deu aos seres humanos capacidade espantosa de obter de uma espécie vegetal o máximo em condições “extremas”. Plantam íris em paredes, terrários para espaçonaves etc. Outro dia, escrevemos sobre um ourives que mumifica plantas em extinção. Desesperança da ciência na recuperação do meio ambiente? Não acredito, nem quero soar puritano. O discurso que opõem avanço científico ao desenvolvimento da humanidade não me convence. Há ideias e aplicações muito boas. Mas há também o exagero. Aquilo que, como bem apontou Raul Canôvas, dá ao uso paisagístico de certas plantas de interior a mesma má impressão que ver alguém trajar um casaco de pele da raposa-do-ártico.

Dilston Grove | Jardim de Calatéia plantas de interior

Interior da antiga Clare College Mission Church, depois da intervenção de Akroyd & Harvey

Não quero gritar no vazio contra a decoração de interiores com um falso discurso ambientalista. Em minha casa, tenho um time de plantas que se reveza no ambiente interno: dia após dia, vou trocando o pacová pelo chifre-de-veado, o cymbidium, pela calatéia. A pequena orquídea, que sucumbira junto com os galhos após a poda de um bougainville na casa de meus pais e cujo nome desconheço, permanece. Gosta mesmo de pouca luz, e tem de ser tratada com cuidado. Essa rotina, além do mais, tem a vantagem de mantê-las saudáveis, e tornar o ambiente menos monótono. Vocês sabem, mudar a conformação da casa é algo que faz bem até mesmo para a cognição.

Por isso, não posso afirmar que sou contra as plantas de interior. Minha preocupação, confesso, vai além de motivos econômicos e ecológicos. Trata-se de uma questão estética. Questão essa que, é verdade, não se pode isolar facilmente de pressupostos morais e de uma visão culturalmente arraigada. Confesso, em parte como se desde já fizesse um mea culpa, que têm fundo moral essas linhas. E, abaixo, esclareço.

Arquitetos, paisagistas e decoradores, no afã de parecerem antenados com a onda da sustentabilidade, amiúde sucumbem a tentações que lhes impelem justamente no caminho contrário. Meu amigo François Schürer, arquiteto suíço, há alguns meses me enviou um link a respeito de uma pequena igreja (Dilston Grove, antiga Clare College Mission Church) nos arredores de Londres que havia se transformado em atelier de arquitetura e artes. O projeto artístico, uma exposição temporário, transformara, em 2003, seu interior num imenso tapete verde. A forrar os pés? Não, mas sim as paredes. Exímio técnico, é verdade; mas, também, exímio mau gosto. O verde daquelas paredes me pareceu análogo ao branco asséptico que convém aos hospitais, mas não ao ambiente comum, de trabalho ou doméstico. A civilidade daquelas paredes se coloca na tradição francesa da topiaria, símbolo paisagístico da máxima de Francis Bacon: Scientia potentia est, conhecer a natureza para poder dominá-la.

Jardim de Calatéia

Acroyd & Harvey, responsáveis pelo feito, consideram sua obra um contra-ponto a austeridade exterior da igreja, a primeira de concreto na Inglaterra. Novamente, o tema do exagero. Se a vida é cinza, é preciso pintá-la inteira com um arco-íris, se está amargo, um pote de açúcar.

Exemplo outro dessa atitude, aquele recém apresentado em desfile na The House of Dior, em que paredes de rosas ambientavam a exposição de vestidos floridos. Tudo muito em demasia – como não dizê-lo sem cair em redundância? A decoração de rosas é o símbolo do desperdício, da cultura da ostentação. Elas viram papel-de-parede tão fácil quanto da noite para o dia perdem o luxo e terminam no lixo.

E pensá-lo me fez reconsiderar as paredes de Dilston Grove através de outra perspectiva.

Nela, a imagem do exterior revestido por concreto, com o interior, pela grama, aparece como metáfora invertida da superficialidade da nova ideologia verde, que traveste com flores a árida motivação do capitalismo. Parece atentar contra uma espécie de ecologismo ecumênico, uma religião nova que, como todas as outras, transforma em deus aquilo que antes foi objeto de sacrifício. Daí a atitude de que antes falávamos. Do açúcar demais, do verde onde não lhe cai bem.

Falo disso, e revejo as imagens que descrevo. Pouco a pouco, discordo de mim mesmo e confesso que quando olho para as imagens da igreja de Acroyd & Harvey e do desfile no The House of Dior, surpreendo-me a imaginar que estou ali, naquela foto, de costas para o centro da sala, com as mãos imersas naquelas flores, congregando-me com elas e imaginando que, naquele instante, elas me olham com os mesmo olhos e dizem: somos solidárias com o que com o teu sentir.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.