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Não caia no golpe da flor de Lótus

O golpe da flor de lótus.

A flor de lótus, manja? Essa aí é uma ninféia! Foto de Howard Knodle

Uma vez, eu caí no conto da flor de lótus. Confesso hoje sem vergonha nenhuma. Na verdade, acho que é uma questão de solidariedade publicar essa história aqui. Sem querer ser pretensioso, sou capaz de afirmar que muitas pessoas por aí caem em conversas parecidas, às vezes seguindo instruções de gente que se traveste de especialista, mas, no fundo, tem o mesmo despreparo que nós, meros mortais. Assim é que, passeando por floriculturas e Garden Centers, não poucas vezes eu vi nomenclaturas erradas, espécies totalmente distintas sendo vendidas como iguais, além das clássicas instruções de luminosidade de sempre: pode apostar, em pelo menos 80% das lojas especializadas, toda orquídea, mas toda mesmo, incluindo a Arundina graminifolia, tem ojeriza a sol. Não é medo, é pavor.

Mas o conto… Foi mais ou menos nessa época, há uns três anos ou mais, eu caminhava com minha namorada pela Liberdade, em São Paulo, quando, passando em frente ao templo budista (cenário perfeito), a Sarah me chama a atenção: “Olha, não é a flor de lótus!”. Minha reação foi típica de um neófito. Escondi a dúvida na consciência e, com uma cara de enfado, respondi: “É…” e continuei o passo.

Caminhei meia quadra até perceber que estava sozinho. A Sarah havia voltado, queria a flor de lótus. Fingindo resignação, eu me aproximei dela, que já tinha sido abordada por um rapaz que se encontrava por ali. Disse que não era o dono da banca, mas que eram flor de lótus mesmo e estava muito baratas. O dono da banca logo veio se juntar e nós pegamos um maço com duas flores bem bonitas, mais um botão. Estranhei o atílio em volta da planta, mas resolvi não dar bola. O vendedor me ofereceu outra, na promoção: “Trinta reais as duas”. Eu disse que não e emendei: “É fácil fazer mudas, não é?”. O outro concordou. Foi um pequeno pedaço de sorte.

Na volta pra casa, eu até já curtia a idéia de que poderia aprender a fazer mudas da tal flor de lótus. Só que não.

Chegamos na casa de nossa amiga, e contamos a novidade. Todos muito felizes, colocamos ela num balde com água, até encontrarmos um lugar definitivo. Um pouco afoitos, em seguida decidimos que a banheira era um lugar muito melhor. Foi aí que o encanto quase se desfez. Ao soltar o atílio que prendia as mudas, as flores se desprenderam, soltas na banheira. Estranhamos, mas ainda assim… elas ficavam tão bonitinhas boiando na água, e o botão já se abrira.

Um dia depois, nós suspeitávamos  e até já havíamos procurado na internet. Só que a flor de lótus e a da ninféia são muito parecidas, fácil de confundir. É verdade que o Rafa, namorado da Raíssa, que nos recebia, havia feito um comentário en passant, no dia anterior, dizendo que conhecia aquelas plantinhas de um córrego aqui em Floripa. Só que ninguém deu bola. Na internet, uma pesquisa por flor de lótus retorna resultados muito parecidos com os da ninféia. Desconfiamos, mas não queríamos acreditar.

No dia seguinte à compra, nós fomos encontrar dois amigos num café. Relatamos a um deles o da flor de lótus, e como era estranho ela ter se soltado das outras. Só eu ficava teimando: “a flor é de lótus, mas é estranho”. Jovens aprendizes são sempre arrogantes. Conversa vai, conversa vem, um dos amigos relata que dia desses também havia comprado uma flor de lótus e que descobrira que era um golpe. Um golpe, aliás, bem conhecido, pois, ele contou, também havia acontecido na Liberdade. Por sinal, um golpe que já tinha sido relatado na internet. E, de fato, basta pesquisar no google por “golpe da flor de lótus”, que você encontra um texto de 2008 explicando tintim por tintim as diferenças e outro, de 2010, que confessa: “Tou começando a desconfiar que caí no golpe da flor-de-lótus“. Não restavam dúvidas, caímos no tal golpe.

Juro que encostei a cabeça na mesa e bati três vezes: burro, burro, burro.

Todo golpe, para ser perpetrado, tem que ter o consentimento da vítima. Mesmo que inconsciente. No meu caso, foi ter, primeiro, pensado na possibilidade de fazer mudas e, quem sabe, vendê-las; segundo, não ter confiado no meu instinto ao perceber o atílio em volta do maço. Não vale a pena chorar o leite derramado. Hoje em dia, até acho a história engraçada. Não muito porque o sujeito continua lá, enganando outras pessoas. Mas já virou uma anedota.

Só que, além deste caso, tenho visto por aí uma série de erros em floriculturas e Garden Centers, que não se justificam exatamente porque, nesses lugares, você espera uma ajuda especializada para escolher uma determinada espécie. Há erros que não comprometem. São os chamados erros honestos, como diz o Carlos Hotta, no texto de 2008 mencionado acima. É o caso de lojas que usam etiquetas com o nome científico para mostrar que estão identificando a espécie correta, mas o fazem trocando o nome aceito na comunidade científica por uma sinonímia mais conhecida do público. Um exemplo clássico é o da Alcantarea imperialis, a Bromélia Imperial, que é comumente etiquetada com seu nome antigo Vriesea imperialis. Não é grave, mas é anti-didático.

Há outros, no entanto, que beiram o ridículo, para dizer pouco. Não foi só uma vez que vi  a Tecoma capensis (Thunb.) Lindl. sendo vendida como cipó-de-são-joão, quando o verdadeiro cipó-de-são-joão é, na verdade, a Pyrostegia venusta (Ker. Gawl.) Miers. . As duas são da família das Bignoniaceae. As flores são bem parecidas. Só que a primeira é sul-africana, enquanto a segunda, nativa. Nesse caso, eu acho desonesto e até anti-ecológico.

Se enquadram no mesmo tipo, as vendas de orquídeas e outras flores pela internet. Uma busca no mercado livre leva a resultados absolutamente escatológicos, como uma Epidendrum fulgens, espécie muito comum no litoral do sul e sudeste, sendo vendida por cinquenta reais. Ou uma Cattleya loddigesii, espécie nativa, sendo vendida a oito mil reais, como raríssima espécie européia. Um detalhe importante: as orquídeas européia, senão todas, são na sua maioria terrícolas e a do anúncio é epífita.

E há, também, o crime de se vender espécies extraídas da mata. Esse foi discutido hoje, num texto do Luis Renato, do Orquidario Faísca.

E você, leitor, já comprou gato por lebre… quero dizer, flor-de-lótus por aguapé?

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.

  • Helen B

    Meu amigo, sabe como cheguei à sua página? EU CAI NO GOLPE !!
    Comprei exatamente na liberdade, estávamos eu e uma amiga, fiquei encantada com aquelas flores (sou fascinada por plantas) e logo comprei uma e ainda presenteei a amiga que estava comigo. Paguei 50 reais!
    Cheguei em casa, transferi a planta para um vaso e todos os dias fui cuidando para deixar ela encharcada de água, as tais flores logo sumiram. Não me abati e continuei cuidando delas com todo carinho. A minha estranhesa se deu quando começou a sair o broto de novas flores – isso foi agora há pouco mais de 3 dias. Saiu diversos de uma vez só, todos roxinhos e tals, fiquei toda empolgada, masssssssssssssssss quando as flores se desabrocharam eram totalmente diferentes!! Pensei “what the hell….???” Nunca vi uma planta dar dois tipos diferentes de flores! Lá fui eu pesquisar e cheguei no teu blog. Depois percebi o quanto fui ingênua, como pude não reparar na diferenças das folhas? Além da sua página, achei essa outra http://divulgarciencia.com/2008/06/25/o-golpe-da-flor-de-lotus/ e percebi que nem ninfeias eu tenho (são lindas e adoraria tê-las no jardim)o que eu tenho são simples aguapés que crescem na velocidade da luz rs (sim, já troquei de vaso 3 vezes!). Oh céus, estou desolada, queria muito ter o lótus, fui até atrás de sementes e vi seu alerta sobre o Mercado Livre, então pergunto: conhece alguma loja virtual confiável que venda sementes de lótus?

    Obrigada!

    • fredtgorski

      Oi Helen,

      Obrigado pela visita! Quer dizer que além do mais, aumentaram o preço? Eu comprei por 20 reais e ainda me ofereceram duas por 30… heheh.
      Bom, quanto as flores do seu aguapé, só vendo as fotos mesmo, mas podem ocorrer tanto variedades diferentes, quanto espécies que têm uma flor “macho” e outra “fêmea”, ás vezes bem diferentes. Eu confesso que não sou especialista nem em ninféias, nem em aguapés. Mas quanto a esse último, você deve ter cuidado com essa “superpopulação”, porque pode “matar” a água. Principalmente, se você fizer um tanque terá que rotineiramente retirar algumas plantas, porque elas cobrem a entrada de luminosidade e a água fica pouco oxigenada.
      Quanto as mudas e sementes, não conheço lojas virtuais confiáveis sobre o assunto. O ideal seria você procurar um garden center de sua confiança e perguntar por lá. Talvez eles conheçam algum fornecedor que tenha e conseguem para você.

      Um abraço e volte sempre.

      • Helen B

        Oi Fred!
        Obrigada por responder. Como faço pra postar uma foto aqui?
        Olha, realmente esses aguapés bebem muita água, impressionante! Nesses tempos de calor, tenho que regar até 4 vezes no dia. Ela está num vaso sozinha.
        As flores são lindas, mais ainda preferia o lótus.
        Um abraço!

        • fredtgorski

          Helen,
          Quando vc abrir a caixa para responder, tem um íconezinho de imagem. Por ali podes enviar. Daí eu dou uma olhada para você, se preferir, podes enviar diretamente para fred[ponto]gorski[arroba]gmail[ponto]com e que depois eu pesquiso e as publico com o veredito. Assim é até melhor, porque já arrumo as imagens para não ficarem pesadas no carregamento da página.
          Abraço

          • Helen B

            Ah Fred, vc é muuuito gentil!
            Farei isso, só preciso descobrir como transferir as fotos do ipad para o pc rsrsrs.
            Vou enviar direto no seu e-mail.
            Valeu! Abraço

  • Déa Freitas

    Errado amigo, a nelumbo nucifera é a lótus branca da india. Tanto que sua origem é nas regiões banhadas pelo Oceano Índico. A lótus azul do Egito é a NYMPHAEA CAERULEA, e amigo, a única Lótus que não é uma Ninféia é a Nelumbo Nucífera, e esta por sua vez é tida como a autentica Lótus. Veja algumas das flores de lótus conhecidas dentro da familia Nymphaeaceae:

    Nymphaea nelumba L
    Nymphaea lotus L.
    Nymphaea ampla
    Nymphaea caerulea

    A identidade de plantas conhecidas popularmente como “lótus” é geralmente confusa, uma vez que pelo menos duas espécies são assim denominadas, sendo o uso do mesmo termo uma provável relação de ambas à enteogenia. Nymphaea caerulea (lótus azul, lírio azul, lótus sagrado, lótus do Nilo) é o nome científico da espécie de planta aquática que habita as planícies alagadas do rio Nilo. Já Nelumbo nucifera (Lótus, Lótus Branco) é a espécie do mais comumente conhecido como lótus, planta que teve menção na “Odisséia” e é reverenciada e sagrada até hoje na prática da meditação no Tibete. Apesar de seu poder enteógeno, as duas espécies não são parecidas e nem se relacionam mais estreitamente na botânica, nem habitam regiões próximas.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Nelumbo_nucifera
    http://en.wikipedia.org/wiki/Nymphaea_caerulea

    • fredtgorski

      Oi Déa
      Muito obrigado pela contribuição. Assim que puder, farei uma
      revisão do artigo e incorporarei as suas ressalvas com citação ao seu
      comentário. Confesso que venho há tempos querendo rever o texto, porém
      estou impossibilitado com a chegada da minha primogênita que está
      aportando.
      Obrigado também por me recordar a respeito da passagem da
      Odisséia. No entanto, pela proximidade geográfica, me parece que flor
      mencionada é a caerulea, de origem egípcia, correto?
      Um abraço