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Meio-ambiente e Jardim: um debate por vir…

O problema com a discussão em torno das mudanças ambientais, hoje em dia, é estar tão eivada de radicalismo que, não raro, ambos os interlocutores se vêem diante de uma sinuca de bico, procurando, já sem argumentos, esgueirar-se dos ataques alheios. No final, alguns dizem, tudo se resume a discutir se é possível efetivamente refrear, amenizar ou ainda sonhar com um futuro melhor. Aqui e ali, a coisa deixa-se levar pela histeria.

O caso desse artigo do britânico Independent, por exemplo. Ele toma um par de resultados de uma pesquisa feita pela University of Reading, a University of Sheffield, e a Royal Horticultural Society, os divulga como se fossem os únicos e não apenas uma parte deles (leia o abstract). O que diz a matéria: que muitas das práticas que envolvem erguer e cuidar de um jardim, desde plantar árvores até cortar grama, ao invés de ecologicamente corretas são, na verdade, anti-ecológicas. Algumas delas são já bastante discutidas, como o uso de pesticidas, outras, menos óbvias, como o plantio de árvores, que demoram 3-10 anos para dar o retorno necessário em termos de redução nas emissões de carbono, ou que o gramado emite mais óxido de nitrôgeneo que os plantios em fazendas etc. Outras ainda, como a introdução de espécies exóticas, que podem vir a tomar o espaço de espécies nativas (e o fazem de toda maneira, uma vez que retiramos umas para, depois de construído o edifício, colocar as outras).

O gráfico do Independent: manipulação ou ingenuidade, não contribui muito para uma discussão mais elevada

De toda maneira, a questão normalmente gravita fora de órbita. O fator humano, embora seja levado em conta, às vezes, parece distorcido. Nós obviamente modificamos o planeta, mas isso apenas porque fazemos parte dele. E, nesse ponto, a coisa engrossa. Raramente nos damos conta de que não estamos tentando salvar o planeta, senão tentando salvar nossa existência nele. A longo prazo, irremediável; daí que, sempre, aquilo que hoje parece ecologicamente correto, amanhã pode deixar de sê-lo (parece tolo, mas, como já foi dito, estamos sempre  modificando-o)…

Voltando ao artigo do Independent, o que ele omite é o fator positivo, igualmente saudável do ponto de vista ecológico – a redução da necessidade de consumo de energia para diminuir/aumentar a temperatura nas diferentes épocas do ano. Que, em algum tempo, o plantio de árvores pode ter seu efeito revertido (afinal de contas, vamos simplesmente abandonar a prática?). E, claro, ao final de tudo, que o moto continuo todavia permanece uma ilusão – pretender que não haja perda, um delírio; julgar que esteja tudo resolvido, a própria loucura.

E, claro, entre o caos absoluto e obrigar 7 bilhões de pessoas a retornar ao nomadismo deve haver alguma outra solução. Mesmo porque 7 bilhões de nomades não traria muita melhora…

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.