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Um hospital de orquídeas e outras histórias

Hospital de orquídeas, cymbidium

Cymbidium híbrido, recuperado no “hospital de orquídeas”.

Às vezes, quando passo em frente a uma floricultura, eu sinto um arrepio. Não. Nem sempre significa que fiquei parado ante a beleza de uma flor. Às vezes, é como aquela sensação de um vento frio percorrendo a espinha. E não, também. Eu não sou muito dado a esse lance de espíritos e coisas do tipo. Mas o destino daquelas plantas tão belas e perfeitas, volta e meia, me deixa com a incômoda sensação de que conheço seu destino, se me permitem, funesto. Falo daquelas cujas peripécias, do berçário em alguma cidade como Holambra até a vitrina de uma floricultura, não termina em um cemitério.

Kalanchoes, orquídeas, rosas e até lírios e amarílis, vocês sabem, plantas que vão à mesa em dias de festa, aniversários, dia dos namorados etc. São como aquela bailarina da música do Chico Buarque. Ali no estande, verdejam e brilham, sem feridas nem meias-pétalas. São perfeitas assim, com um destino feliz de fazer alegre uma pessoa que ama a outra, de dar mais vida a um escritório. Mas, um dia, elas também desfalecem. E nesse dia, leitor e leitora, encontram uma sina que ser vivo algum gostaria de ter: elas vão ao lixo junto com outras coisas que os seres humanos usam e descartam.

Eu bem que gostaria de contar-lhes uma história de uma Kalanchoe que tive uma vez e que apelidei de fênix, mas vou deixar para outra oportunidade. O caso aqui é contar-lhes uma história e mais outra que provam que esse pequeno infortúnio de ver cair uma pétala (ou sépala) de orquídea e antever o dia em que será descartada não é um condição necessária para a existência dessa planta.

O caso é que, em São Paulo e em algumas outras cidades, pessoas com um sentimento talvez parecidos com o meu começaram a dar às orquídeas descartadas uma nova chance de alegrar um pouco a vida às vezes meio-cinza das cidades grandes. Meu caso predileto é o do Hospital de Orquídeas, um orquidário improvisado em uma igreja metodista na cidade de São Paulo. Uma iniciativa que partiu de um grupo de orquidófilos, entre eles o botânico Sergio Oyama Junior, que mantém o blog Orquídeas no Apê. Não se trata de um caso isolado.

Hospital de orquídeas, recuperação de orquídeas

Oncidium híbrido (Oncidium Aloha Iwanaga) recuperado no “hospital”

Também em São Paulo, uma arquiteta paisagista chamada Adriana Irigoyen, inconformada com a quantidade de orquídeas descartadas que encontrava no lixo de seu condomínio, resolveu, há coisa de pelo menos cinco anos, dar a essas plantas um fim, digamos, mais nobre. Resgatadas as flores e recuperadas do impacto após a queda, literalmente, do pedestal em que estavam, Irigoyen resolveu replantar as orquídeas nas árvores de seu bairro. Ganhou o reforço de vizinhos orquidófilos que desconhecia e, provavelmente, convenceu outras pessoas de que uma orquídea não é apenas uma orquídea. Ou melhor, não é mero objeto decorativo.

O hospital de orquídeas instalado na Igreja Metodista parte do mesmo pressuposto. Inaugurado em 23 de setembro de 2012, o hospital recebe orquídeas descartadas ou doadas e oferece cursos para quem queira se iniciar na arte de cuidar dessas plantas. Além do Sergio, outros profissionais ligados à botânica e ao paisagismo estão ligados ao projeto, entre eles: Daniel Katayama – médico e orquidófilo; Lila Hanashiro – arquiteta; Massaru Nanya – orquidófilo; e Timoteo Iamamoto – engenheiro agrônomo. Assim como as orquídeas do projeto, a estrutura montada para abrigá-las também é fruto de um trabalho de reciclagem, ao menos em parte. Um dos membros montou uma estrutura simples, valendo-se de fios telefônicos para sustentar os vasos junto a ela. Simples assim, vale também a lição de que não é preciso investir muito para ter plantas bonitas em casa.

Miltonia colombiana recuperada no "hospital". Apesar do nome popular é uma espécie do gênero Miltoniopsis e não uma Miltonia.

Miltonia colombiana recuperada no “hospital”. Apesar do nome popular é uma espécie do gênero Miltoniopsis e não uma Miltonia.

No momento, segundo o Sergio, a maioria das flores que chegam são híbridos comumente encontrados em floriculturas, como Phalaenopsis, Cymbidiums e Dendrobiums. O grupo já conseguiu fazer florir a maioria delas, inclusive uma miltonia colombiana, como é conhecida popularmente, do gênero Miltoniopsis (não confundir co m o gênero Miltonia, que ocorre comumente na mata-atlântica).

Além de recuperar essas orquídeas, o grupo têm oferecido oficinas de cultivo e reprodução de orquídeas de forma gratuita no pátio da igreja, localizada à rua Veriano Pereira, 40, na Vila da Saúde, em São Paulo. Com efeito, cuidar de orquídeas não é assim um bicho de sete-cabeças, mas exige alguma dedicação e um pouco de empenho. Leva algum tempo para pegar o jeito, mas assim como pedalar e equilibrar uma bicicleta ao mesmo tempo na infância pareciam coisas impossíveis, depois do primeiro impulso a gente logo entende a dinâmica e segue a vida com folhas verdes e algumas flores ano a ano que compensam – e muito. Tenho certeza que meus colegas Sergio Oyama Jr. e Luis Renato, do Orquidário Faísca hão de concordar.

Hospital de Orquídeas na Vila da Saúde

Estrutura de madeira simples, com fios telefônicos para sustentar os vasos

Algumas dicas comuns, que podem ser encontradas no site da Associação Orquidófila de São Paulo, incluem a observação do tipo de substrato em que estão plantadas antes de decidir o volume de regas. Essa uma das dúvidas mais comuns entre os “iniciantes”. Por exemplo, se a orquídea está presa a um galho ou casca de árvore, as raízes tendem a secar mais rápido, porque o substrato seca mais rápido. Uma série de textos interessantes sobre tipos de substratos foram publicados no Orquidário Faísca, e é possível encontrar um resumo deles aqui.

Foi, aliás, através do O. Faísca que eu entrei contato com outra história a esse respeito. Uma dessas que, assim como a descrita acima, se encaixam bem no estilo guerrilhas verdes, que mencionei em outro post. O vídeo, publicado na fanpage do Orquidário, pode ser visto abaixo.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.