Home / Jardinagem / Vale a pena (re)utilizar garrafa PET na jardinagem? Algumas considerações.

Vale a pena (re)utilizar garrafa PET na jardinagem? Algumas considerações.

garrafa pet na jardinagem

Pululam na internet soluções para se fazer um jardim Vertical com PETs… Honestamente, não me parece nem esteticamente atraente, nem uma solução sustentável a longo prazo.

Recentemente, fiquei contente em receber, na minha linha do tempo do facebook, dois ou três artigos, pelo menos um de um site importante de jardinagem e paisagismo, alertando para a falácia da utilização de garrafa PET na jardinagem. Alguns desses artigos eram mais genéricos e investiam contra a própria “reciclagem” desse material, alertando inclusive para a má utilização do termo, nesse caso.

Nosso leitor mais assíduo, vocês que acompanham o Jardim de Calatéia via Facebook ou assinando nossa lista de e-mails, já terão notado que raro, senão inexistentes, são os artigos a respeito do uso de garrafa PET na Jardinagem. O motivo tem menos a ver com minha já antiga implicância com a solução aparentemente mágica de seus entusiastas do que com as péssimas experiências que tive com elas.

A PET, convenhamos, além de ser estéticamente desprezível, dá um vaso igualmente ruim. Em primeiro lugar, as dimensões são extremamente limitadas o que, redundâncias à parte, reduz o número de espécies que se habilitam a crescer nela com o mínimo de conforto imaginável. Em meu jardim, tenho pés de manjericão plantados naturalmente e outros em vasos cujas dimensões não restringem em nada seu uso em apartamentos. Todos muito saudáveis e que, há mais de um ano, me dão boas alegrias.

Então, por que raios eu sequer pensaria em atrofiá-los a um pote feio que me faz a todo instante pensar numa gorda garrafa de refrigerante de cola de 3L?!

Para o bem do planeta, diriam seus defensores. Porque, nesse caso, você estaria dando nova utilização a um material que, de outra forma, ficaria mais de 800 anos vagando na natureza aguardando sua última hora, o juízo final. “Foste tu sim, ó garrafa de Coca-Cola, causadora de males ambientais incontáveis, mortes de peixes, minhocas, ratos (sim! são também meus filhos!), baleias e etc. Eu aqui te condeno, findo tua longuíssima existência, ao desaparecimento”, diria deus, quem sabe, ao cabo do período nefasto em que os fartos 3 litros de politereftalato de etileno (aka. PET), que outrora armazenavam não menos infame líquido preto, existiram.

Ok, eu aceito o argumento. Mas, como diria Paulinho da Viola, só não me alterem o samba tanto assim.

Reutilização de garra PET na Jardinagem é reciclagem?

garrafa pet na jardinagem

Já tentei algumas vezes produzir um jardim vertical, à guisa de experiência, com PETs. Terá sido talvez minha desconfiança com a prática, ou quem sabe meu desprezo pelo aspecto que tomam tais jardim, que me fizeram relegá-las, quando muito, a produção de estacas.

Não! Reciclagem per se é o processo de conversão de um produto em matéria prima de outro produto, que pode, ou não, ser de menor qualidade, mas que de toda forma visa reduzir o desperdício de materiais potencialmente úteis e, por isso, o consumo de matéria-prima.

Reutilização x reciclagem

O que normalmente chamamos de “reciclagem” de garra PET nada mais é aquilo que, em inglês e outros idiomas que adotam a terminologia anglófona, é chamado pejorativamente de downcycling ou, positivamente, de upcycling. Consiste na reutilização de um material para outro fim ou fabricação de novo produto que implica numa perda de qualidade em relação ao original e cujo potencial de mitigação dos prejuízos ambientais causado pelo original é relativamente pequeno em relação ao seu “tempo de vida”. 

Trocando em miúdos: sua bolsa ou camisa feita de PET certamente vai reduzir a necessidade de consumo desta ou daquela outra matéria-prima, mas levando em conta que, para desaparecer da natureza, esse produto leva até 800 anos, a vida útil desse novo produto só fara protelar por alguns anos o tempo em que, finalmente, ele irá se tornar inútil porém daninho.

Quer dizer, se uma camiseta comum de qualidade média, e bem cuidada, durar mais ou menos 8 anos, a sua de PET vai durar 3, quem sabe menos. E depois disso, a matéria prima terá sido modificada de tal maneira que, salvo surgimento de novas tecnologias de “reciclagem”, vai se tornar peça inútil e, por isso, irá para o lixão.

A diferença entre o processo de transformação de um produto em outro e a mera reutilização do mesmo produto para um fim diferente é o que separa a reciclagem, por um lado, da reutilização, do outro.

Reutilizar PET no jardim é inútil?

A essa altura, o leitor (ou leitora), deve estar se perguntando: “Raios! E eu aqui só querendo ajudar. Então meu esforço é vão?”

Não é. Não penso assim. Mas, como já ponderei lá em cima, há de se fazer uma reflexão a respeito para não se cair na falácia de que, ao fazê-lo, estamos prestando uma contribuição enorme ao meio-ambiente. Considere o seguinte:

A “industria” de reciclagem de PET é capaz de reaproveitar todo o material despejado pelas industrias que fabricam PET? Infelizmente, a resposta é negativa. Mesmo que igualassem, o acúmulo, a longo prazo, desse material na natureza por si só já seria desastroso.

E há outras coisas a se considerar. Quando você reutiliza esse material para compor hortas e vasos, você também está diminuindo sua qualidade material. Em contato com o sol, o plástico não apenas resseca mas aumenta a liberação de materiais tóxicos que garantiam sua “qualidade” de recipiente fisicamente propício ao armazenamento de alimentos (resistem a fortes impactos e por isso são mais seguros que o vidro, por exemplo). 

Essa redução, em breve, vai reduzir a utilidade da garrafa PET para o seu jardim. Mais, vai torná-lo indesejável, porque feia e difícil de manipular. Vai torná-la malquista, porque, a exposição ao ambiente vai fazê-la liberar substâncias altamente tóxicas, como o Bisfenol-A, um polímero cuja utilização para a fabricação de garrafas plásticas, a partir de 2012, foi proibido no Brasil. Entre outros produtos e compostos que, durante o processo de degradação, atuam como contaminantes.

Devo então simplesmente jogá-la no lixo?

Bom, isso depende da sua consciência. Em primeiro lugar, reduzir o seu uso seria bom. Não só porque você estará ajudando o meio-ambiente. Em verdade, sua pequena contribuição, nesse caso, será pequena demais ante todas as outras pessoas que não o farão. Além disso, você mesmo, em algum ponto, vai precisar se valer delas. Por isso, não se considere um mártir.

Mas faça-o pela sua própria saúde. Reduzir o consumo, antes de mais nada, fará bem a você que, por exemplo, consome muitas e muitas garrafas de água no dia-a-dia. Faça-lhe um favor e compre um filtro. Sai mais barato e sua saúde agradece.

garrafa pet na jardinagem

Menos pernicioso para a saúde e o ambiente, é a utilização das PET para produzir estacas. Ainda assim, é necessário tomar alguns cuidados. Por exemplo, não deixar as raízes se desenvolverem tanto assim, antes de plantá-los. Lembre-se, as raízes não gostam de ficar expostas à luz.

Quanto às garrafas PET que consumir, se sua cidade possui programas de reciclagem do material, o melhor a fazer é separá-las adequadamente para que possam ser recicladas. Ainda assim, você ainda poderá utilizá-las para alguns fins na jardinagem:

  1. Como recipiente para itens de jardinagem como: esfagno, vermiculita entre outros. Se bem limpa, seca, e armazenada longe do calor e da luz, a PET é excelente para conter a umidade;
  2. Preparação de estacas: muitas plantas, como o Manjericão, o Hibisco e outras “gostam” de ser mergulhadas em água antes de serem colocadas na terra no processo de estaquia. Selecione bem o galho e coloque-os por alguns dias, até surgirem as primeiras raízes, num recipiente com água, que não precisa ser necessariamente PET;
  3. Curar orquídeas. Pelo mesmo motivo exposto em (1), a PET pode ser utilizada para curar as raízes das orquídeas. Bom isolante, a utilidade para esse fim já foi motivo de um post no site da Cynthia Blanco, Paixão por Orquídeas.

Último, porém não menos importante. Se você chegou ao final desse artigo com uma sensação de pessimismo e culpa, não o faça. Mais do que tudo, o importante é plantar. Se você o está fazendo, aproveite os prazeres e delícias do que faz, não importa como. Ou importa, sim, importa que o faça com amor.

About Frederico Teixeira Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.
  • Rosane Tardin

    Excelentes informações. Vou repassar o novo conhecimento adiante.
    Obrigada,

    • fredtgorski

      Olá Rosane,
      Obrigado pela visita e por compartilhar. Fico feliz que tenhas gostado das considerações feitas a respeito do uso de Garrafa PET na jardinagem!
      Abraço e volte sempre
      Fred

  • Jessica Marques

    Eu sou bióloga e paisagista, depois que começaram a inventar essa moda de plantar em PET eu logo levantei a bandeira do contra. Primeiro porque ela é sempre utilizada para fazer hortinhas, e já é mais do que sabido que ela libera substancias tóxicas, segundo porque é transparente e raiz é fototrópica negativa, logo o espaço disponível para as raízes, que já é pequeno, fica ainda menor e por último porque é um recipiente feio e bem vagabundo.. ótimo artigo!

  • Muitoo Bom !!!

  • Liana

    Também acho pouco prático, acredito porém que sirvam para jardins verticais educativos ou para pequenos cultivos como de alface… O que faço aqui é reutilizar potes de iogurte, requeijão, etc para plantar sementes e fazer mudas, para depois transplantar para os vasos.