Home / Editorial / Quanto vale uma árvore?

Quanto vale uma árvore?

Valho-me de um artigo publicado no site World Landscape Architect. há um ano, sobre o valor (“financeiro”) dos bosques urbanos de Tennessee, para retomar uma discussão volta e meia abordada aqui a respeito  da tradução do valor social e ambiental das florestas e das áreas verdes urbanas em valor econômico e financeiro. A questão, hoje, é a, nem sempre bem explicada, utilização do plantio de árvores como ação ecológica. Parece coisa muito óbvia, porém o que parece obviamente bom, nem sempre o é de fato.

Como já discutimos em outra oportunidade, muito embora a iniciativa de promover o plantio de árvores seja louvável, ela não necessariamente é benéfica e mascara (ou diminui), muitas vezes, a importância de milhares de outros organismos envolvidos. Um ecossistema, afinal, nunca é feito de uma só espécie.

No curso de Jane Pilotto, ano passado, tivemos uma aula com o prof. Ademir Reis, que esteve a frente do Laboratório de Restauração Ambiental Sistêmica (LRAS). De entrada, o professor lançou uma provocação: plantar uma árvore nem sempre é a melhor solução. O chacoalhão deu resultado, gerando debate. Deixou-nos, ao menos, com uma pulga atrás da orelha. No decorrer da palestra, as peças iam se encaixando: o plantio de uma muda é insuficiente para a recuperação do solo, e, a médio prazo, não vai contribuir para a combater a erosão, nem melhorar os nutrientes do solo. Com efeito, boa parte das mudas podem morrer nas próximas estações após o plantio, se não forem bem cuidadas.

Com a visita da Unidade de Conservação da UFSC, pudemos compreender o processo de formação da Floresta Ombrófila Densa, a importância da mata de capoeira e outros tipos de formações que contribuem para o processo. É uma tecla em que a Permacultura bate amiúde, mas que nem sempre toca os corações dos jardineiros mundo afora (dos jardineiros, de alguns paisagistas, empresários e das pessoas, diga-se). Preferimos ver as coisas prontas, o quintal, o passeio, como se houvesse um estágio final, e não um processo.

De volta ao valor de uma árvore e o uso econômico de seus benefícios, não surpreende que haja uma lacuna pedagógica nos meios de comunicação, que não ensinam a reconhecer a importância mesmo de espécies as quais não estamos bem acostumados. De insetos até as epífitas, mesmo, incluindo-se aí as bromélias. Quantas vezes, numa conversa, tive que interromper um interlocutor (pessoas geralmente muito bem informadas) para corrigir-lhe o mal uso da palavra parasita ao se referir à ripsális, às barbas de bode (que, por sinal, são bromélias), orquídeas e outras.

As plantas, insetos e musgos com os quais não sabemos muito bem como lidar, podem não parecer suficientemente relevantes para o setor financeiro, a ponto de virarem moedas de troca. E, alguém pode objetar, afinal de contas são as árvores que sustentam o ecossistema. Pode parecer verdade, e pode até servir como uma metáfora mais eficaz em termos pedagógicos, mas do ponto de vista ambiental é uma falácia – o ecossistema é sustentado pelo conjunto, não por um indivíduo.

Tanto assim, que o mercado de carbono criado pelas Nações Unidas não logrou muitos bons resultados até hoje. E isso não é pela falta de comprometimento de um ou outro país, mas um sintoma próprio de um sistema. E, como na natureza, onde ele perde, quer se adaptar e restabelecer sua ordem em outro lugar…

A respeito do mercado de carbono, muitas pesquisas se referido a ele como uma alternativa ora inútil, ora ilusória. Por vezes, ainda, com eficácia local, mas que resulta insuficiente a longo prazo. Quem quiser se informar a respeito, há, em inglês, esse texto do periódico britânico The Guardian, que resume o mecanismo da iniciativa. E, ainda outros dois, do Science Daily News, dando conta de pesquisas recentes.

Numa, o Mercado de Carbono aparece como importante, mas ineficaz a longo prazo. Noutra, plantar árvores não reverte o aquecimento, mas pode ajudar localmente.

É para se desesperar? Possivelmente não. Mas certamente é um tema cuja polêmica testemunha a necessidade do debate.

About Frederico Gorski

Frederico Teixeira Gorski é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Estudou Teatro na Universidade Estadual de Santa Catarina e iniciou seus estudos em paisagismo com a professora Jane Pilotto, no curso Paisagismo Ecológico. Desde a Psicologia, interessou-se pelo estudo do Espaço Urbano. Em 2011, criou a primeira versão do Jardim de Calatéia como blog, com a intenção de transformá-lo em um portal que reunisse artigos que abrangessem desde a Arquitetura Paisagística, até o estudo botânico, passando pelas artes visuais.
%d blogueiros gostam disto: